AS DÉCADAS DA ANTÍGONA

 

 

Quando a Antígona iniciou a actividade em Junho de 1979, com a publicação do livro Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado, já se acumulavam os sinais do “fim de uma época”. A rebelião do movimento estudantil de 1968, contra o “mofo milenar” das instituições sociais repressivas, espalhara-se como fogo na pradaria all over the worl. Mesmo nesta ocidental praia lusitana, quando em 1974 as forças armadas entraram em greve contra o anacrónico colonialismo que já não ia além da Taprobana, mulheres e homens de todas as idades ensaiaram em conjunto novas formas de socialização, para lá dos aparelhos repressivos alienados. O infantil ícone do cravo na ponta da espingarda mostrou, mais do que pretendia, a irreversível erosão das instituições sociais, ao tentar desconstruí-las.

Débord já antes denunciara A sociedade do espectáculo, o “reino autocrático da economia mercantil”, tanto na democrática “forma difusa” como na autocrática “forma concentrada”: “Num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”. E ainda teria oportunidade de observar premonitoriamente, em vésperas da queda do muro de Berlim, a formação do “espectáculo integrado” que se preparava para o mundo unipolar da globalização do capital. Muitos textos luminosos dos situacionistas podem ser lidos em edições da Antígona.

E outros textos vieram de toda a parte, sob o lema de Thoreau “Muitos homens iniciaram uma nova etapa na sua vida a partir da leitura de um livro.” Temos podido ler em português, aquém e além-mar, a expressão do inconformismo de mulheres e homens de todo o mundo, contra as “coerções mudas” da sociedade onde lhes foi dado viver, sobretudo dos últimos 300 anos, mas não só. “Antígona simboliza, antes de mais, a desobediência”.

Ora, enquanto por todo o mundo as pessoas vinham para a rua gritar contra a completa incongruência da “relação de capital” (Marx), contra a compulsão de fazer do dinheiro mais dinheiro, remetendo os humanos à figura de meras personagens desse movimento autotélico, essa mesma relação chegava ao seu limite lógico e histórico. O microprocessador, surgido em meados dos anos setenta, abre caminho à terceira revolução industrial, que globaliza o automovimento do capital e passa a suprimir globalmente mais postos de trabalho do que é possível criar. A concorrência, impondo a cada empresa a redução de custos dos seus produtos, para conseguir apropriar-se no mercado de uma parte da mais-valia social total, suprime cada vez mais postos de trabalho, assim secando a única fonte do valor que é o trabalho abstracto. A sociedade do trabalho e do dinheiro começa a ruir pelo elo mais fraco dos historicamente atrasados “Estados operários”.

Após a queda do socialismo real e a envergonhada apostasia dos seus missionários, o “espectáculo integrado” ainda pôde proclamar o fim da história e as “paisagens florescentes” da “economia de mercado e democracia” agora suposta eterna. E até surgiram espectros do falecido movimento operário, proclamando uma multitude global do “trabalho imaterial” em luta contra o Empire global. A pós-modernidade ensaiou a perpetuação do capitalismo no modo “como se”.

Mas o colapso da new economy, na viragem do milénio, mostrou como eram ilusórias as esperanças dos que insistiam em cantar “Ó tempo, volta pra trás!”. E os devastadores ataques terroristas contra os EUA no 11 de Setembro de 2001 inscreveram espectacularmente, à porta do inferno da sociedade capitalista do trabalho, o dantesco aviso no sentido de abandonar toda a esperança. O capital tornou-se incapaz de explorar o trabalho, mas não desprende os humanos das anacrónicas formas sociais do dinheiro e do mercado, do direito e do Estado. Estamos perante um Imperialismo de Exclusão e de Estado de Excepção. Num mundo cheio de refugiados, o que resta das instituições capitalistas vai erguendo muros e barreiras contra os supérfluos, tentando impedi-los de aceder às últimas ilhas da valorização, e mesmo aí os reduzindo à “vida nua” de sujeitos jurídicos privados de direitos, num estado de excepção que se tornou a regra geral. O fim da sociedade do trabalho é também o fim do dinheiro e do mercado, do direito e do Estado.

A Antígona desde o início declarara sabiamente como “capital social” que “Enquanto existir dinheiro, nunca haverá bastante para todos”. E não demorou a publicar em Português o Manifesto contra o Trabalho, surgido na passagem do milénio e logo traduzido para uma dúzia de línguas, onde se analisa criticamente o acidente histórico que levou a humanidade a ficar presa nos “moinhos satânicos” do capital, a fazer do dinheiro mais dinheiro, com a única finalidade de poder continuar nesse movimento de fim em si, no espaço-tempo linear abstracto da economia empresarial “desvinculada” da natureza e da sociedade. Vinte anos depois, a lapidar conclusão do Manifesto continua actual: “Os poderes dominantes podem declarar-nos loucos, porque arriscamos a rotura com o seu sistema coercivo irracional. Não temos nada a perder, a não ser a perspectiva da catástrofe para onde esses poderes nos conduzem. Temos um mundo a ganhar, para lá das fronteiras do trabalho. Proletários de todos os países, acabai com ele!”

Mas a inércia social do “sujeito automático”, interiorizado na forma humana de sujeito hoje existente, é enorme. Sendo certo que enorme foi também o feito da unificação, mesmo que negativa, da humanidade pelo capital, já cantado no célebre Manifesto de 1848, ainda cheio de ilusões iluministas: “Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram necessidades novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um relacionamento geral, uma dependência das nações umas das outras. E tal como na produção material, assim também na produção espiritual. Os produtos espirituais das nações singulares tornam-se bem comum. A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.”

Depois de ter escapado às limitações e regulamentações estatais, o capital globalizado continua a reproduzir-se ficticiamente com base nas bolhas financeiras transnacionais. E a crise de 2008 apresenta pela primeira vez um carácter global. Agora são os Estados que têm de resgatar os bancos, com o dinheiro criado … nos bancos. Estado e mercado revezam-se cada vez mais rapidamente na liderança, enquanto vão sendo sugados para o “buraco negro” donde surgiram, o nada social que é fazer do dinheiro mais dinheiro. Sobre a Balsa da Medusa, a única produção deficitária para os sobreviventes é a produção de teoria crítica da sociedade. Afinal todos os desastres actuais, mesmo “naturais”, são desastres sociais...

No aprofundamento de uma “crítica categorial” que não se detém perante as vacas sagradas da modernidade, a Antígona publicou também o último ensaio de Robert Kurz, prematuramente desaparecido. Dinheiro sem valor tenta a definição precisa da relação entre o contexto social global, como determinação da essência, e as aparências ou micro-‘unidades’ reprodutivas individuais deste todo social; ou seja … a crítica de um modo de pensar predominante nas ciências sociais que, no lugar da totalidade (negativa), no seu contexto de mediação, coloca a mera ‘abstracção intelectual’ (Hegel) da acção individual (por exemplo, o chamado acto da troca) como essencial e constitutiva ... O problema pode antes de mais ser representado com particular clareza, enquanto contexto histórico-social global, na realidade e no conceito de dinheiro. O dinheiro é a manifestação fulcral da essência; ele é categoria e, ao mesmo tempo, fenómeno palpável, encruzilhada da história e objecto visível da abolição. É por isso que é neste objecto que a determinação categorial negativa pode destruir com maior acutilância a exaltação positivista dos factos e a tacanhez fenomenológica.”

A crítica do capitalismo no seu limite lógico e histórico também evidenciou que as categorias político-económicas do capital e a conexa racionalidade científica, aparentemente universais e sexualmente neutras, representam afinal um universalismo androcêntrico. A tese da dissociação-valor afirma que o feminino, o trabalho de casa etc. sofre uma “dissociação” do valor, do trabalho abstracto e das formas de racionalidade que lhe estão ligadas, sendo que determinadas qualidades com conotação feminina como sensibilidade, emocionalidade etc. são atribuídas à mulher; ao homem, pelo contrário, compete a força do entendimento, a fortaleza de carácter, a coragem etc. No desenvolvimento moderno, o homem foi equiparado com a cultura, a mulher com a natureza. Valor e dissociação estão assim numa relação dialéctica recíproca.

A autora do teorema da "dissociação sexual", Roswitha Scholz, também suscitou o interesse da Antígona com o ensaio Homo Sacer e os Ciganos, onde analisa o carácter estrutural e irracionalmente excluidor do capitalismo, no mais cruel e “ignorado” racismo que é o anticiganismo. O viver em caravanas e fenómenos desse género, que crescerão mais ainda no futuro devido à tendência para o aumento massivo da miséria, são nolens volens parte integrante de uma estratégia de sobrevivência na crise; não são nenhuma luz ao fundo do túnel a caminho de outra sociedade, o que só será possível através de complexas mediações e no âmbito de uma transformação social mundial. Apenas no espaço de uma tal perspectiva mais aperfeiçoada, pode o estereótipo do cigano chegar ao seu fim, de modo que ele possa simplesmente ser, mas não tenha que ser “assim”; primeiramente, porém, é necessário trazer à luz do dia este estereótipo, como secreto e “esquecido” fundamento-homo-sacer da Modernidade patriarcal. Esse é o pressuposto para que qualquer indivíduo possa existir enquanto ser humano real e autêntico...”

Falta falar das festas da Antígona. Mulheres e homens que vão facultando a quem quiser a leitura das palavras escritas por outras pessoas encontram-se periodicamente para mais do que falarem disso, “para que qualquer indivíduo possa existir enquanto ser humano real e autêntico”. E se 40 anos são estatisticamente meia-vida, para quem vive por neste canto do planeta, só posso desejar mais do dobro dos anos à editora, que também vai compondo as nossas vidas, livre das suas limitações biológicas.

 

Abril de 2019

Boaventura Antunes

 

(Texto escrito para a publicação comemorativa do 40 anos da Editora Antígona em Junho de 2019)

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