Robert Kurz

 

O Livro Negro do Capitalismo

 

Capítulo 6

História da Segunda Revolução Industrial

 

Com uma carga assim psicótica, o capitalismo cambaleou para o novo século XX, continuando a processar cegamente a alta velocidade, cheio de medo e raiva, desmesurado e em contradição consigo mesmo. Nessa mistura peculiarmente esquizofrénica de crença no progresso e fantasia da desgraça, ideia tecnocrática de viabilidade e "filosofia veterinária" biológica, razão de Estado e concorrência de mercado, reivindicações individuais e ilusória subjectividade colectiva de "nação" e "raça", que tinha fermentado na ascensão do imperialismo capitalista industrial, tudo tornava urgente a descarga das tensões já incontroláveis dentro e entre as potências imperiais. Paralelamente à política de armamento e ao soar dos sabres das selvagens elites funcionais liberais-conservadoras, que se viam como "os escolhidos" e ao mesmo tempo literalmente como uma espécie de macacos super-predadores altamente desenvolvidos, dissolviam-se cada vez mais rapidamente as tradicionais forças aglutinantes da sociedade vindas da sociedade agrária.

Mas o que restava não era senão perplexidade e inquietação irracional. As ideias e programas do socialismo do movimento operário há muito que se tinham tornado ocos e pouco fiáveis como suposta alternativa histórica, apesar do aumento constante do número de membros dos partidos e sindicatos, e apesar do sucesso crescente nas eleições parlamentares. A ideologia socialista, nascida como dissidência do liberalismo, estava por natureza demasiado contaminada com formas de pensamento, padrões de acção e categorias de interesses capitalistas; a sua revelação como nacionalista e darwinista já se tinha tornado história. Ideias e movimentos bizarros espalhavam-se pelo espectro político e pelas classes sociais do capitalismo industrial, reagindo de forma quase insidiosamente ingénua à incompreensibilidade das mudanças que simplesmente aconteciam às pessoas a um ritmo cada vez maior. Imaginar a sociedade e a si próprio "de forma bastante diferente", mas querendo ao mesmo tempo participar nela e pertencer-lhe – este secreto dilema do movimento operário socialista foi reproduzido em milhares de movimentos fragmentários e sectários, em ruptura na margem e nos poros da sociedade burguesa.

O vago sentimento de que "algo" tinha de acontecer, sem qualquer indicação sobre o que deveria ser, desembocava na falsa imediatidade de diversas ideias individuais e aparentemente não relacionadas. Se estas pudessem ser reduzidas a um denominador comum, talvez se pudesse falar do postulado abstracto de um "regresso à natureza", com o qual tinha sido mascarado cada impulso da híbrida e negativa socialização capitalista desde Rousseau. E, em ligação com o darwinismo "veterinário-filosófico", esta ideia foi tudo menos um impulso emancipatório. Movimentos de "reforma da vida", clubes vegetarianos e associações de nudistas estavam a surgir como cogumelos. Um movimento juvenil e de caminhantes procurou recorrentemente opor-se às formas de vida tão saturadas como rígidas do capitalismo dignitário vitoriano e guilhermino; no Império Alemão e Austríaco, sob a forma do movimento "Wandervogel" (Caminhantes) e associações relacionadas, e em Inglaterra, através do "Movimento de escuteiros” de Lord Baden-Powell, que surgiu quase simultaneamente. O objectivo, porém, não era uma reflexão crítica sobre a sociedade, mas uma espécie de purificação, através de actos de substituição culturais, da fantasia habitual e de um intelectualmente menor romantismo de fogo de campo, que ultrapassava mesmo o fanatismo nacionalista da burguesia filisteia, atacada superficialmente no seu modo de vida.

Não era lazer nem prazer, nem erotismo da vida real nem um modo de vida mais natural. A crítica da civilização era dirigida apenas contra a fachada capitalista do século XIX, de qualquer modo já desgastada, mas não contra as dinâmicas sociais destrutivas em si, cuja ausência de objectivo se reproduzia nas mentes dos reformadores da vida e dos membros dos movimentos juvenis (e correspondentemente também nos "movimentos culturais operários"). Um conceito ideológico central deste neo-romantismo abstracto era a ideia excessiva de uma "pureza" abrangente. Este termo ganhou um significado quase místico. Em parte, foi ainda influenciado pela campanha de higiene externa do século XIX, que tinha sido forçada pela sujidade e pela ameaça de epidemias nas novas aglomerações industriais; o movimento de ginástica e desporto (também profundamente nacionalista desde o início) tinha uma importância semelhante. No requintado calhamaço culturalmente conservador "Rembrandt como educador", que o crítico cultural nacionalista Julius Langbehn (1851-1907) tinha reunido em 1888 e que se tornou um bestseller dos movimentos juvenis e reformistas alemães, a propagada "purificação da vida intelectual alemã" era entendida muito literalmente:

 

"Os ingleses de hoje têm algo da antiga vida helénica no seu amor pelo desporto; são mais bem treinados do que os alemães de hoje [...] Estes últimos devem ter especial cuidado em não inchar demasiado o corpo bebendo cerveja; aliás, as inúmeras cervejarias poderão facilmente significar para a saúde pública o que os inúmeros bacilos são para a saúde do indivíduo [...] Aos estudantes alemães também deveria ser dito que uma reforma da vida física, na linha do desporto inglês, seria muito benéfica para eles, assim como para os outros alemães adultos. Se, em vez dos 50 000 bares existentes na actual Prússia, existissem 50 000 banhos públicos, a saúde física, mental e até moral de todos os seus cidadãos seria melhor do que é actualmente. Pois a pureza física e moral são mutuamente exigentes. Haveria provavelmente menos social-democratas na Alemanha se houvesse mais banhos" (Langbehn 1922/1888, 312).

 

Esta peculiar metáfora da "pureza", que transferia conceitos de higiene corporal para o corpo social e, por assim dizer, sonhava com uma ablução moral e cultural, com a qual as flagrantes contradições do capitalismo pudessem possivelmente ser lavadas por uma espécie de hidroterapia de Kneipp, também dirigiu o olhar higiénico para dentro, para a "pureza do sangue" defendida nas ideias da biologia social darwinista. O ser humano verdadeiro, novo e "puro" também deve ser tão "puro" quanto possível, seja o que for que isso signifique. O movimento Wandervogel (Caminhantes) austríaco e grande parte do alemão excluíram os judeus como membros, ou forçaram-nos a formar grupos separados e distintos; a palavra "judenrein" (livre de judeus) foi cunhada para esta abordagem (cf. Poliakov 1988/1977, VII, 43). Estas sinistras conotações de "pureza" ainda hoje ecoam no medo dos bacilos das donas de casa alemãs e nos slogans da indústria de detergentes ("limpeza profunda dos poros").

 

Muito directamente, abluções frias, exercício físico, nudez asceticamente não erótica, dieta e abstinência, erotismo das armas das associações masculinas (sem a permissão de relações homossexuais reais), marchas pelo campo etc. mais não foram do que preparativos práticos e psicológicos para a guerra – a antecipação e a prática da vida nas trincheiras. Lord Baden-Powell não fez segredo disso para os seus escuteiros: "O futebol é um bom jogo, mas melhor do que qualquer outro jogo é a caça ao homem" (citado de: Koch 1973, 111). A inquietação com a iminente mudança de pele do capitalismo, cuja fase de desenvolvimento industrial de massas e democrática de massas estava a amanhecer, e a simultânea falta de qualquer iniciativa emancipatória séria contra o sistema do "trabalho" abstracto permitiram que momentos de um agressivo e cínico anseio de catástrofe se incendiassem na consciência social. As fantasias racistas da decadência iriam em breve ser satisfeitas pela "limpeza" final em carne e osso no "banho de aço" da guerra mundial.

As naturezas sensíveis puderam ler a próxima época de grandes catástrofes, por assim dizer, a partir das borras de café do espírito do tempo guilhermino. Nos anos 1910/11, o jovem poeta Georg Heym (1887-1912), que se afogou enquanto patinava dois anos e meio antes da primeira grande batalha, com menos de 25 anos de idade, evocou a destruição geral em imagens sombrias, cujo poder visionário antecipou mesmo a guerra total de meados do século: "A Terra está coberta de cidades mortas", diz-se num dos versos do seu espólio; e o poema de pesadelo "A Guerra" é insuperável a prever toda uma época:

 

Aquele que dormiu muito tempo ressuscitou,

Ressuscitado de criptas profundas.

De pé no crepúsculo, alto e incógnito,

E esmaga a Lua na sua mão negra.

Uma grande cidade afundou-se em fumo amarelo,

Atirou-se silenciosamente para o ventre do abismo.

Mas, muito acima dos destroços incandescentes,

Está o que vira a tocha três vezes no céu furioso.

 

Em 1912, ainda no meio da mais profunda paz guilhermina, o pedagogo Wilhelm Lamszus escreveu um livro quase clarividentemente intitulado "O Matadouro de Humanos", no qual antecipou a história da década seguinte com uma precisão incrível. Como se o autor tivesse vivido ou visto tudo antes, as atrocidades da guerra mundial são descritas exactamente do mesmo modo e com a mesma amarga ironia com que mais tarde serão retratadas nos numerosos livros de guerra, de Erich Maria Remarque a Ernst Jünger, como experiências reais das grandes batalhas:

 

"Aqui jaz uma perna, está solta da articulação do joelho, os tendões ainda pendentes. Outrora levava um carteiro, escada acima, escada abaixo, agora está feliz por se ter perdido, e sorri porque já não consegue encontrar ninguém. E ao seu lado contorce-se uma traqueia cartilaginosa, dilacerada de um tronco que perdeu a cabeça, como se ainda estivesse a respirar com dificuldade aqui em baixo. Sustinha a forte respiração de um trabalhador ofegante que, com pouco pão e sete filhos, de tal forma arfava que a sua traqueia ficou assim alargada. E a cabeça loira do jovem professor primário ri-se de tudo. A parte superior do crânio rachou, como uma cápsula de semente. É o cérebro que contém proteínas de um homem erudito [...] Vejo carcaças de cavalos feitas foles pelos gases da decomposição. A terra está revolvida. Mochilas, espingardas partidas, utensílios de cozinha encontram-se de ambos os lados do aterro ferroviário [...]" (Lamszus 1928/1912, 78s., 155).

 

Lamszus descreve também o curso exacto da posterior catástrofe na sua dimensão política, desde o entusiasmo inicial pela guerra, passando pela rápida desilusão e desespero, até ao colapso, às manifestações da guerra civil e da revolução, que reconhecidamente chega demasiado tarde para o narrador na primeira pessoa. E numa destas dolorosas sequências proféticas, levanta-se também a questão da razão e do significado da grande guerra, que haveria de marcar a mudança de humor nas trincheiras quatro anos mais tarde, e deixava adivinhar o avançado irracionalismo da concorrência capitalista transformada em "matadouro industrial de humanos":

 

"Quando saímos, fomos tomando consciência de uma necessidade inevitável. Dizia-se que a decisão tinha de vir finalmente [...] o grande ajuste de contas europeu – e de repente lá estava: a última grande contabilização [...] sim, mas o que tinha realmente de ser contabilizado? [...] os filantropos e filósofos saltavam e corriam, sangue e fogo nos olhos, testa para baixo, uns contra os outros, a fim de finalmente chegarem a uma decisão. Sim, mas o que é que realmente teria de ser decidido. O que foi que nos levou tão violentamente pelo próprio pé? [...] queríamos saber quem fabricava os botões de calças mais baratos e a maioria dos alfinetes? [...] foi por isso que nós, milhões de pais de família, arrancamos as entranhas?" (ibidem, 129s.).

 

Visões semelhantes, historicamente ainda mais abrangentes, assombraram Alfred Kubin (1877-1959), o pintor e desenhador do pavoroso, que, no seu único romance "O Outro Lado", descreveu já em 1909 uma fantástica ditadura entre o sonho e a realidade, semelhante ao posterior "Terceiro Reich" caído num inferno; com precisão profética, a destruição da cidade de sonho "Pérola" antecipa, como numa sequência cinematográfica, o futuro bombardeamento infernal e o fim do império nazi:

"O Lange Gasse desabou, e como resultado vi o palácio, que de outro modo não era visível daqui. A sua massa compacta surgiu em vermelho brilhante e elevada sobre os escombros. Pensei que agora as trombetas teriam de soar, que o Juízo Final tinha começado [...] Aqui o chão esticou e alongou-se como borracha, um estrondo ensurdecedor como de centenas de canhões sacudiu o ar. Lentamente, a fachada do palácio curvou-se, dobrando-se como uma bandeira ao vento, e enterrou a grande praça sob a sua fachada. De todas as torres de Perle os sinos tocaram, melódica e imponentemente, o canto do cisne da cidade moribunda [...] O zumbido tinha cessado, as torres tinham caído, apenas a grande torre do relógio ainda estava de pé, o seu poderoso sino baixo soava em tons graves profundos. Já quase não via vida. Apenas um pequeno grupo de pessoas parecia ter escapado. Estavam a disparar em todas as direcções [...] De um grande buraco no chão soprou um vento gelado até mim, de tal modo que os fugitivos caíram sobre o amontoado. O sinistro buraco voltou a aspirar o ar expelido, tábuas, vigas e pessoas desapareceram nele; foi como um tornado [...] Depois tudo se desvaneceu à minha frente, acho que ainda reparei que a pirâmide de casas nos subúrbios desmoronou com estrondo [...] Um largo, largo campo de escombros; montes de entulho, lama, pedaços de tijolos – o gigantesco monte de lixo de uma cidade" (Kubin 1994/1909, 231ss., 246).

 

A catástrofe primordial do século XX

… … ...

 

 

Original Die Geschichte der Zweiten industriellen Revolution, pags. 186-189 de Schwarzbuch Kapitalismus. Ein Abgesang auf die Marktwirtschaft. Integral online: www.exit-online.org/pdf/schwarzbuch.pdf. Tradução portuguesa em curso em http://www.obeco-online.org/livro_negro_capitalismo.html. Tradução deste fragmento de Boaventura Antunes (1.2021)

 

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