Robert Kurz

 

O Livro Negro do Capitalismo

 

Capítulo 6

História da Segunda Revolução Industrial

 

… … ...

Secção 1

A catástrofe primordial do século XX

Foi num Verão maravilhosamente idílico que o primeiro grande horror do século XX explodiu como uma bomba. Os que ganhavam mais foram apanhados de surpresa na "estância de Verão" (como se chamavam então as férias anuais fora de casa, que a maioria dos assalariados não podia pagar). Entre 1 e 4 de Agosto de 1914, as principais grandes potências europeias trocaram declarações de guerra, depois de o herdeiro austríaco do trono ter sido assassinado em Sarajevo por nacionalistas sérvio-bósnios a 28 de Junho, um acontecimento que, numa reacção política em cadeia, fez explodir as contradições capitalistas acumuladas. Este foi o início do desencadeamento da Primeira Guerra Mundial, que o historiador norte-americano Georges Kennan descreveu apropriadamente como a "catástrofe primordial do século XX". Quando a explosão ocorreu, poucas pessoas estavam conscientes das profundas mudanças sociais que resultariam da maior catástrofe da história da modernização, rica em crises e desastres sociais gerais.

A primeira reacção foi uma tremenda onda de entusiasmo. Em Berlim, como em Paris, pessoas absolutamente desconhecidas abraçam-se na rua, como se tivessem recebido as notícias mais alegres das suas vidas. Qualquer pessoa fardada torna-se o centro das atenções em todo o lado. E os intelectuais guilherminos querem finalmente andar no comboio fantasma. O poeta Hermann Bahr (1863-1934) usa uma metáfora traiçoeira:

 

"A nossa mobilização está a ser como a música alemã: É tal e qual como numa partitura de Richard Wagner: total arrebatamento com total precisão" (citado de Schulin 1994, 9).

 

Até Thomas Mann, então uma estrela cadente da literatura, cujo romance "Die Buddenbrooks" tinha sido publicado em 1901, anotou os seus sentimentos entusiásticos no Outono de 1914, quando ouviu a notícia do início da grande guerra:

 

"Como poderia o artista, o soldado como artista, não louvar a Deus pelo colapso de um mundo de paz do qual ele estava tão farto, tão extremamente farto! Guerra! Foi purificação (!), libertação o que sentimos, e uma imensa esperança" (citado de: Fries 1994, 825).

 

Isto foi escrito por alguém que se tinha livrado do serviço militar com um atestado médico. Obviamente que a explosão foi sentida como uma libertação – tão insuportavelmente tinha aumentado a tensão na consciência social, sob o ditame cego da máquina mundial capitalista. O facto de a esperança de mudanças fundamentais e positivas, de uma renovação e rejuvenescimento do mundo não se ter podido expressar senão sob a forma de um entusiasmo nacional pela guerra indica o grau de desmoralização e depravação mental a que a sociedade humana já tinha chegado, através da submissão às leis da concorrência. Mesmo o material humano bem disciplinado, que tinha perdido o orgulho social e a vontade fundamental de resistir, há muito que estava maduro para o surto de ódio nacional. Não raro, foram as mãos de trabalhadores que, numa estranhamente infantil antecipação do assassínio em massa, escreveram os piores slogans chauvinistas, nas carruagens dos transportes militares que partiam:

 

Cada tiro um russo

Cada golpe um francês

Cada pontapé um britânico

A Sérvia deve morrer

 

Nunca houve tanto acordo entre os líderes intelectuais e as massas populares. É verdade que estudos recentes afirmam ter descoberto que o entusiasmo frenético pela guerra talvez tenha sido apenas uma lenda, nascida da visão oficial da história, como "transfiguração retrospectiva positiva" (Ulrich/Ziemann 1994, 17). Isso pode muito bem ser verdade. Mas seria uma deturpação da história ainda maior querer, pelo contrário, deixar de explicar a loucamente jubilosa "experiência de Agosto" de 1914, que ficou na história como uma espécie de Pentecostes do nacionalismo moderno. Na realidade, provavelmente ambas as coisas surtiram efeito ao mesmo tempo: a euforia do despertar em massa, bem como o medo e a profunda inquietação face à perspectiva da morte em massa. Um sentimento tão dividido correspondia inteiramente à esquizofrenia estrutural do capitalismo, que só poderia transformar-se em histeria aberta com a continuação da concorrência por meios militares. Que era exactamente este o estado de espírito predominante é evidente a partir de numerosos testemunhos. Assim se declara numa ordem de serviço do director da polícia de Estugarda, de 9 de Agosto de 1914:

 

"Agentes da ordem! Os habitantes começaram a ficar loucos. As ruas estão cheias de duvidosas personagens idosas de ambos os sexos que se dedicam a actividades indignas. Todos vêem um espião russo ou francês no seu semelhante, e pensam ter o dever de o espancar sanguinariamente, e ao polícia que o protege [...] as nuvens são confundidas com aviões, as estrelas com dirigíveis, os guiadores de bicicleta com bombas [...]" (citado de: Ulrich/Ziemann 1994, 29).

 

Este histérico estado de espírito predominante talvez também tenha surgido da vaga suspeita de que agora tinha de ser paga uma sangrenta conta pela auto-submissão à lei capitalista do "trabalho" e da concorrência, pelos sentimentos nacionais cultivados durante décadas e pelos excessos darwinistas – e que não havia volta a dar, mas apenas a fuga para a frente. O súbito impasse do eterno pactuar transformou-se na louca esperança de que o nó górdio da história da modernização fosse finalmente cortado, como se tudo pudesse finalmente ser recuperado na última apoteose do auto-sacrifício, pela fuga de si próprio para a guerra mundial. Todo o potencial de fúria de uma ordem social fundamentalmente repressiva, que as massas nacionalizadas tinham engolido em si próprias, podia agora ser descarregado – para o exterior. A "unidade interna" da "comunidade nacional de destino" teve de ser evocada com mais veemência ainda. Num discurso improvisado perante uma enorme multidão de pessoas gritando "Salvé, tu, na coroa da vitória" e "Alemanha, Alemanha, acima de tudo”, Guilherme II explica a 1 de Agosto, em frente ao Palácio de Berlim:

 

"Se houver guerra, todos os partidos vão acabar. Somos apenas irmãos alemães. Em tempos de paz um ou outro partido pode ter-me atacado, mas perdoo-lhes agora de todo o coração [...]" (citado de Johann 1966, 125s, ).

 

Repetida e modificada várias vezes em poucos dias, a palavra imperial foi finalmente condensada na famosa fórmula: "Já não conheço nenhum partido, só conheço alemães”. No que diz respeito aos vários liberais, não havia obviamente necessidade de tal apelo, uma vez que eles próprios tinham propagado e mesmo desenvolvido a ideia da política de concorrência imperialista do fundo do coração, desde os liberais nacionais até às tropas liberais de esquerda de Friedrich Naumann. Eram sobretudo dois grupos sociais de tipos muito diferentes que eram considerados como nacionalmente inseguros; obviamente apenas porque tinham sido sistematicamente marginalizados (não apenas na Alemanha): os cidadãos judeus e a social-democracia. Mas nem a camarilha guilhermina nem os seus adversários na guerra precisavam de se preocupar com isso. Apesar de todas as perseguições e pogroms, apesar do caso Dreyfus e da queima de sinagogas, e apesar de terem sido espancados nos cafés em Berlim e descritos pelo próprio Kaiser como parasitas, a maioria dos cidadãos judeus (pelo menos os membros das elites funcionais) continuava a participar no frenesim nacional, mesmo no limiar da guerra mundial. A velha política de adaptação e auto-negação transformou-se na loucura aberta da participação nas tiradas de ódio mútuo. Foi justamente o jovem poeta judeu Ernst Lissauer (1882-1937) quem escreveu a infame "Canção do ódio contra a Inglaterra", após a Grã-Bretanha ter entrado na guerra a 4 de Agosto:

 

Vamos odiar-te com um ódio longo

Nada vai escapar ao nosso ódio

Ódio em terra e ódio no mar

Ódio aos martelos e ódio às coroas

O ódio sufocante de setenta milhões

Que amam unidos, e odeiam unidos

Todos têm apenas um inimigo:

Inglaterra!

 

Foi assim que a maioria da classe alta judaica, académicos, cientistas e líderes empresariais, alinhou na fuga para a frente nacionalista. E, como seria de esperar de toda a sua origem e história, o movimento operário e a social-democracia estavam ainda mais em sintonia com o horrível uivo nacional da guerra e da unidade, embora com alguns sub-tons elegíacos. Há muito que estava claro como era realmente a superficial ideologia da fraternidade mundial do socialismo do "trabalho" e do "nacional"-socialismo. Tudo o que era necessário era fornecer o pretexto (por mais frágil que fosse) para uma "guerra defensiva" contra "agressores", a fim de transformar os social-democratas em belicistas – apesar do seu slogan aparentemente consistente "Nenhum homem e nenhum centavo para este sistema", que na realidade apenas escondia a oferta de participação, que tinha sido rejeitada pelo outro lado durante tanto tempo, como August Bebel, que morreu um ano antes do início da guerra, tinha afirmado repetidamente – por exemplo, num discurso no Reichstag em Março de 1904, dirigido ao então Ministro da Guerra, o Tenente-General Karl von Einem:

 

"Não podeis travar uma guerra vitoriosa no futuro sem nós… Se ganhardes, ganhais connosco e não contra nós... Se a guerra for uma guerra de agressão, uma guerra em que esteja em causa a existência da Alemanha, então – dou-vos a minha palavra – estaremos prontos, até ao último homem, e mesmo o mais velho de entre nós, para pegar na arma ao ombro e defender o nosso solo alemão..." (citado de: Schulz 1976, 333).

 

A fixação do socialismo do movimento operário no quadro de referência do Estado nacional e da economia nacional, herdada do espírito burguês de 1848, que já tinha incitado a fracassos militaristas em 1870, provava o seu valor também agora. E tal como em 1870 tinham sido preferidos os próprios déspotas ao "déspota estrangeiro" Napoleão III no recrudescimento liberal republicano, agora o regime do czar Nikolau II tinha de ser utilizado para afirmar uma ameaça "de fora" ao direito democrático de voto e ao movimento operário alemão, e para legitimar a aliança com o capitalismo guilhermino. O que moveu a social-democracia de ambos os lados da Europa naqueles fatídicos dias de Agosto não foi nenhum novo "pecado original" da inocência socialista, mas a execução quase automática da sua essência histórica, provada mil vezes, como uma mera filial do liberalismo nacional.

Apesar disso, a veemência da viragem para a respectiva frente unida nacional-imperialista foi marcada por irritações e desconfianças mútuas. O líder socialista francês Jean Jaurès, que tinha acabado de regressar da última reunião do Bureau Socialista Internacional em Bruxelas, foi assassinado por um fanático nacionalista de direita num jantar num restaurante parisiense a 31 de Julho de 1914, em plena mobilização – por um lado porque, e por outro lado apesar de ter desempenhado um papel tão ambivalente como o de Bebel na Alemanha, e de ter tido sempre uma atitude fundamentalmente positiva em relação à nação e ao exército. Má ironia da história: o próprio Jaurès temia que, como patriota, pudesse ser assassinado por um "fanático pacifista" (citado de Abosch 1986, 124).

Mas nem mesmo este assassinato (cujo maquinador se suspeita ter sido o belicista embaixador russo em Paris, Alexander Iswolski) conseguiu demover os social-democratas de ambos os lados do Reno da sua debandada para os campos de batalha da glória nacional. Na mesma noite em que o líder do seu partido foi abatido a tiro em nome da nação, as divididas organizações do partido e dos sindicatos socialistas de França reuniram-se para "defender" essa mesma nação e decidiram parar toda a acção anti-militarista. No dia seguinte, quando o corpo de Jaurès já estava preparado para o enterro, formaram uma "Union Sacrée" com os outros partidos (incluindo os nacionalistas de cujo círculo o assassino tinha vindo). Para piorar a situação, esta acção foi celebrada como um "triunfo póstumo" (Abosch, op. cit.) da táctica de Jaurès. Se nem os socialistas franceses se deixaram distrair do seu frenesim de guerra nacional pelo assassinato do seu próprio líder e ideólogo chefe, então, claro, muito menos o fizeram os seus irmãos do coração do outro lado. Houve apenas algo como um breve piscar de olhos de uma fraca hesitação moral; na retrospectiva de 1916, com o pathos da guerra já tomado como garantido, bastante involuntariamente desmascarado pelo funcionário do SPD Konrad Haenisch (1876-1925), que como tantos outros se tinha deslocado da esquerda para a direita:

 

"Este desejo ardente e premente de se atirar para a enorme corrente da maré cheia nacional geral e, por outro lado, o terrível medo mental de seguir este desejo sem reservas, de se render completamente ao estado de espírito que rugia e ardia à sua volta e que, se olhássemos bem no fundo do coração, já há muito se tinha apoderado do seu próprio interior! Este medo: não te tornes um patife para ti mesmo e para a tua causa – deves também tu sentir como está o teu coração. Até que [...] de repente a terrível tensão foi libertada, até que se ousou ser o que se era, até que se permitiu pela primeira vez (pela primeira vez em quase um século!), apesar de todos os princípios congelados e teorias desajeitadas, unir-se ao rugido da tempestade com todo o coração, com a consciência tranquila e sem qualquer medo de se tornar um traidor: Alemanha, Alemanha acima de tudo" (citado de: Grebing 1979, 140).

 

Em poucos dias tudo estava decidido e a verdadeira essência nacional e imanente ao capital do socialismo "do trabalho" tinha aberto caminho. Os empréstimos de guerra foram concedidos e os poucos dissidentes da extrema esquerda, tendo à cabeça a marxista judia Rosa Luxemburgo, que tinha sido atirada para a prisão em 1916, foram ostracizados: de um dia para o outro, estes ex-companheiros, só relutantemente tolerados e permanentemente hostilizados durante muito tempo, tinham-se tornado mais estranhos do que o inimigo militar para lá das fronteiras. Fora este pequeno grupo do movimento operário, apenas um punhado de intelectuais não se deixou levar pela loucura geral, e tentou formular uma oposição à guerra em termos literários, a partir de uma grande variedade de posições; por exemplo, o crítico cultural e da linguagem Karl Kraus (1874-1936), a poeta e historiadora Ricarda Huch (1864-1947), o escritor Stefan Zweig (1881-1942) ou o poeta lírico judaico-cristão Franz Werfel (1890-1945). Em contraste, "poetas operários", como o cantor da casa social-democrata de Nuremberga Karl Bröger (1886-1944), foram autorizados a começar com pesadas "confissões" nacionais:

 

Sempre conhecemos um amor por ti,

só que nunca o chamámos pelo nome.

Mas o teu maior perigo mostrou magnificamente,

que o teu filho mais pobre era também o mais fiel.

Pensa nisso, Alemanha.

 

Poetas líricos profissionais e amadores, do torno e da mesa da cervejaria, sintonizavam-se com uma verdadeira maré primaveril de entusiasmo pela guerra e votos de lealdade à sua própria morte em agonia nas próximas "tempestades de aço". E esta perspectiva de uma alegada morte heróica foi conscientemente aceite e cantada, como mostra o refrão de outro famoso poema de guerra, e este da "mão de trabalhador" do caldeireiro da área do Ruhr, Heinrich Lersch (1889- 1936):

 

Um alemão livre sabe que não há que hesitar:

A Alemanha tem de viver, mesmo que tenhamos de morrer!

 

O mesmo autor, entretanto mobilizado para a frente, também sabe engolir os seus próprios medos e sentimentos de culpa, e mostra como a "classe trabalhadora" tinha aprendido extremamente bem a sua lição darwinista do biologismo social, e podia agora usá-la na prática como um lema de resistência, porque a guerra era uma "lei natural" – como o "trabalho" e a "raça", como o Estado e a nação:

 

Meu camarada francês, eu bem te acertei!

Não precisas de ficar zangado por eu te ter alvejado:

Sou teu irmão, sim, sou teu camarada;

fomos redimidos pelo sangue de um só Deus.

 

Tem de ser assim. Cresce como a erva e a árvore

o povo da humanidade a lutar pela luz;

duas árvores iguais não ficam juntas,

uma consome a luz e o espaço da outra.

 

Não admira que, perante esta poesia darwinista de edificação e homicídio involuntário, a germanística da "Poesia dos Trabalhadores" pudesse certificar que tinha finalmente passado o teste de maturidade e se tinha libertado de qualquer "constrição de partido e de classe" (citado de: Fries 1994, 829). O que então veio muito rapidamente foi o choque da realidade. Enquanto ainda publicava a sua poesia de guerra, Lersch escrevia em privado e com todos os sinais de desilusão a um amigo:

 

"Caro Petzold, nunca poderia ter imaginado isto assim – ninguém pode, porque algo assim é tão novo que nunca fez parte do estar na guerra [...] Coragem, bravura e habilidade – tudo é supérfluo. Aquele que tem os nervos mais estúpidos sente menos, e tudo o resto é igual" (citado de: Fries 1994, 840).

 

Nestas palavras completamente diferentes, que se ouvem de repente aqui, fala não só a estrutura esquizofrénica de uma consciência histericizada, mas também uma surpresa honesta. Certamente, a morte no campo de batalha tinha sido esperada – mas uma morte pessoal e heróica, não uma morte anónima e industrial, cuja miséria era quase inacreditável. Afinal, quis-se escapar à estupidez do capitalismo e à miséria da vida na fábrica e no escritório através da "experiência da guerra", e agora tinha de se aprender que esta era apenas a continuação daquela por outros meios sangrentos. Assim, tornou-se claro que ninguém estava realmente preparado para a industrialização da guerra, que a consciência estava a ficar para trás das realidades capitalistas autocriadas. A disciplina técnica e de fábrica já tinha sido internalizada, mas num certo sentido ainda estavam de pé, ainda permeados por imaginações pré-modernas, conceitos de honra e padrões de comportamento pessoal. A guerra industrial foi uma espécie de choque cultural para esta consciência; e Wilhelm Lamszus também tinha antecipado esta experiência na sua exposição profética de 1912:

 

"Outrora era a morte dum cavaleiro, a morte honesta dum soldado. Agora é a morte por máquinas! [...] Por técnicos, por maquinistas, somos promovidos da vida à morte. E tal como botões e alfinetes são produzidos em grande escala, os aleijados e os cadáveres são agora produzidos por máquinas [...] As máquinas sacadas sobre nós. Já só corremos contra as máquinas. E a máquina triunfa na nossa carne. E a máquina bebe o sangue das nossas veias e bebe-o aos baldes [...] Tão em massa, tão a sangue frio, tão habilmente apenas são exterminados parasitas. Nesta guerra já não somos mais do que parasitas [...] Venham ver, comandantes da explosão, [...] que o homem desistiu de si mesmo e se transformou numa máquina militar Krupp" (Lamszus, op. cit., 21, 52ss., 115).

 

Mas quando a guerra realmente começou, a primeira coisa que veio à mente foram edificantes cenas militaristas do livro de leitura. Embora a máquina se tivesse tornado uma espécie de arquétipo da alma capitalista cem anos antes, a imagem do campo de batalha ainda estava associada à imaginação de "cavaleiros ousados" com "sabres faiscantes", desafiando o trovão dos canhões. Um livro de imagens de propaganda para crianças com o título "O Pai está na guerra", que foi publicado com grande circulação pela associação "Donativos de Mulheres Alemãs para Crianças na Guerra", canta os louvores dos "cavaleiros alemães" com toda a seriedade, na sua tola glorificação dos ramos individuais das armas, embora os submarinos e aviões de combate já apareçam nas imagens e poemas ao lado:

 

O inimigo já o experimentou muitas vezes:

Eles cavalgam sobre bestas espumantes,

Lanceiros e hussardos,

Dragões e couraceiros.

 

As animadas bandeiras voam

Do fino eixo da lança;

Eles cavalgam e conquistam

E exercem a força alemã.

 

E quando forem dormir vitoriosos,

No escuro do estábulo quente

Ainda passam a mão pelo pêlo

Na garganta molhada do cavalo...

 

De facto, especialmente no início da guerra, os cavalos ainda eram utilizados em massa; não tanto como cavalaria clássica, claro, mas literalmente como carne para canhão, como animais de tracção para carretas de canhões e outro equipamento técnico de guerra. A miséria destas criaturas, torturadas, despedaçadas e mutiladas como nunca antes da guerra industrial, que Lamszus já tinha previsto, não falta em quase nenhum dos livros de guerra mais tarde famosos; como no caso de Erich Maria Remarque (1898-1970) na sua obra mundialmente famosa "A Oeste nada de novo": "Nunca tinha ouvido os cavalos gemerem e mal posso acreditar. É o lamento do mundo, é a criatura martirizada, uma dor selvagem e horrível que geme. Estamos pálidos" (Remarque 1952/1928, 55).

Nos primeiros meses, quando ainda era uma "guerra de movimento", a ilusão do heroísmo voltou a aparecer, e logo foi cruelmente envergonhada; assim se diz que durante um assalto à pequena cidade flamenga de Langemarck, a 10 de Novembro de 1914, quase toda uma classe de graduados foi ceifada pelo fogo das metralhadoras, com o sabre desembainhado e o hino alemão nos lábios. Seja qual for o verdadeiro conteúdo deste episódio, que foi transformado numa lenda nacionalista, apenas mostrou a insensatez de uma ideia de guerra ainda pré-industrializada, em nome da qual ingénuos "corpos de crianças" foram queimados, para levarem uma fantasmagórica vida após a morte como "testemunhas de sangue do Reich" (Wehner 1932), com a qual ainda tiveram de ser instrumentalizados uma segunda vez para a insanidade nacional.

Mas à medida que progredia a matança e a sua solidificação em "guerra de trincheiras", tornou-se cada vez mais inevitável a transformação e mecanização industrial da batalha, a sua completa incongruência com a imaginação militar tradicional. A essência da nova guerra revelada na frente, como uma espécie de "produção negativa de capital", tornou-se tão óbvia que mesmo um espírito tão frio e arquiconservador como Ernst Jünger (1895-1998) foi forçado a usar a metáfora do "laminador na frente", na terceira frase do seu não pouco famoso livro de guerra "Tempestades de aço", uma metáfora que se repete uma e outra vez. E de modo bastante inconsciente, como se por vontade própria, também regressou o velho termo assustador de "moinho" do diabo, que tinha expressado o desespero das pessoas forçadas a um novo tipo de existência de servo "livre" nos primeiros tempos da indústria capitalista, e ainda mantém viva até hoje na palavra "moinho de degraus" a memória da crueldade das primeiras máquinas de tortura do trabalho capitalista. Assim, a grande "batalha do material" foi agora também chamada "moinho de sangue" antes de Verdun, e Max Barthel, outro desses estranhos "poetas operários", resumiu a experiência da frente na mesma velha metáfora:

 

A frente é um grande moinho de ossos,

Mói na quente agitação da batalha,

Mói mesmo no frio do Inverno

Horrível no horizonte.

 

Dias longos, semanas assustadoras

Leva a batalha.

Mói ossos humanos juvenis

Cem vezes calcados, triturados,

E o servo da moagem ri-se, ri-se.

 

O escritor de versos proletário da nação alemã de 1916 dificilmente se terá apercebido de que estava aqui a pegar numa imagem com mais de cem anos, de William Blake, para caracterizar o modo de produção capitalista – mas já não cheio de honesta raiva e repugnância, mas sim de uma esquizofrénica e suicida devoção ao monstro, também e especialmente na sua forma de "bela" máquina de guerra do grande matadouro de humanos. A moral socialista e anti-militarista, que em qualquer caso nunca esteve de acordo com o posicionamento histórico real do social-democratismo, evaporou-se sob a impressão esmagadora daquela "necessidade" que já tinha levado à internalização da disciplina da fábrica em tempo de paz, e que agora também resultou em homenagem ao "moinho de sangue". Estranhamente, a antítese ideológica de uma consciência conservadora de direita, representada acima de tudo por Ernst Jünger, reagiu de forma igualmente esquizofrénica e finalmente curvando o pescoço sob o jugo. Também para ele, os acontecimentos da guerra industrializada atingem na cara o velho "orgulho de cavaleiro" do guerreiro patriótico individual, e ele, de certo modo, também dá a outra face:

 

"Neste confronto, já não são sopesadas as capacidades dos indivíduos entre si, como nos dias da arma branca, mas sim as dos grandes organismos. Produção, tecnologia de ponta, química, educação e redes ferroviárias: estas são as forças que se opõem invisivelmente umas às outras, atrás das nuvens de fumo da batalha do material [...] Esta compulsão, que sujeitou a vida do indivíduo a uma vontade irresistível, veio aqui à tona com uma clareza terrível. A batalha teve lugar a uma escala gigantesca, da qual o destino do indivíduo desapareceu. A vastidão e a solidão mortal do campo, o efeito de longa distância das máquinas de aço e a deslocação de qualquer movimento para a noite desenharam uma rígida máscara titânica sobre os acontecimentos [...] A decisão baseou-se num exemplo matemático: quem conseguisse cobrir um certo número de metros quadrados com a maior quantidade de projécteis teria a vitória na mão. A batalha foi um recontro brutal de massas, um sangrento combate de luta-livre da produção e do material. É por isso que os combatentes, os operadores subterrâneos das máquinas assassinas, muitas vezes não se aperceberam durante semanas que aqui era homem contra homem [...] No fundo era provavelmente o mesmo sentimento de insensatez que por vezes saltava dos despidos blocos de casas das cidades fabris para os tristes cérebros [...]" (Jünger 1978, 16s.).

 

Este desejo de se submeter à "lei" cega absurdamente autogerada, que depois confronta o indivíduo como um poder estranho inflado até ao gigantesco, tem uma conotação sexual perversa, sob a forte impressão da grande batalha industrial. De um modo que é altamente "não-masculino" no seu próprio entendimento, a mania capitalista da masculinidade apresenta-se como um objecto para o "Titã" do processo histórico. Torna-se aqui visível um momento homossexual profundamente escondido e recalcado, que faz um efeito terrível precisamente porque nunca foi permitido vivê-lo e, se elevado à consciência, causaria náuseas e resistência histérica.

É ainda mais evidente a conotação sadomasoquista, que está ainda mais próxima do sentimento sexual permitido, porque mostra uma certa conformidade com o ethos da necessidade; como é bem sabido, ainda hoje uma grande parte dos ousados homens de acção capitalistas pertence àqueles exibicionistas da masculinidade que só conseguem alcançar o prazer sob o chicote de uma dominadora. O que é visível aqui não é tanto um ritual de autopunição, mas sim um desejo de submissão, que corresponde socialmente à auto-renúncia no altar dos "poderes superiores" – para depois poder maltratar o material humano com ainda mais prazer. O moderno sadomasoquismo dos políticos e gestores poderia ser chamado uma espécie de prostituição no templo do capitalista Moloch; e foi a Primeira Guerra Mundial, na qual funcionários de todas as classes foram "possuídos" pela máquina mundial como nunca antes, que revelou a linguagem deste sadomasoquismo social: Nas "tempestades de aço" da guerra industrializada, o moderno sujeito do iluminismo também abdicou definitivamente, para capitular sem condições ao ídolo das suas próprias produções.

Esta abdicação e auto-renúncia estavam directamente ligadas a mudanças estruturais que já tinham crescido sob a superfície, mas que só vieram a lume na grande guerra. O desenvolvimento técnico acelerou, por exemplo na indústria química (produção de gases tóxicos), na construção de aviões e na produção automóvel. Os horrores da batalha do material insinuaram uma nova fase do capitalismo industrial, mas também uma nova forma de "trabalho" abstracto, que se manifestou pela primeira vez no campo de batalha. Quando a carta do campo de batalha de um trabalhador fabril diz: "Ontem fizemos um pesado trabalho sangrento" (citado de: Ulrich/Ziemann 1994, 85), então isto não significava apenas a continuação do trabalho pré-guerra por outros meios. Os mesmos homens que ainda recentemente estavam obcecados com sonhos de sabre viram-se atacados por máquinas voadoras e "tanques" blindados, com pesadas lagartas rastejando na sua direcção. E na guerra do gás, a metáfora dos parasitas humanos foi finalmente concretizada: os heróis de guerra de ambos os lados foram transformados em ratos humanos de laboratório, em material de teste da indústria química. O general francês Mordacq descreve o efeito de um dos primeiros ataques de gás:

 

"As nossas tropas recuaram, espraiando-se por todo o lado [...] Por todo o lado, fugitivos, reservistas, africanos, atiradores, zuavos, artilheiros sem armas, perturbados, com os capotes deitados fora ou bem abertos, com as golas retiradas, correram como loucos para o desconhecido, gritando por água, cuspindo sangue, alguns até rolaram no chão, tentando em vão respirar [...] Já não eram soldados que fugiam, mas pobres seres subitamente enlouquecidos. Ao longo de todo o canal, o mesmo quadro: de ambos os lados tinha-se reunido um bando de loucos infelizes, clamando por água para aliviar a sua agonia [...]" (citado de: Heydecker 1997, 278).

 

Para além da guerra, tais cenas assinalavam uma nova qualidade das imposições capitalistas e uma condensação do "trabalho", que se tornou evidente pela primeira vez na intensificação do disciplinamento quase "de economia empresarial" nas trincheiras. Como August Bebel tinha prometido e previsto, a internalização social-democrata da disciplina da fábrica e do escritório, como valor ideal do movimento operário, valeu a pena para o funcionamento da máquina de guerra. Assim, um soldado da linha da frente escreve para casa sobre os seus sentimentos na primeira batalha:

 

"Os mortos eram por vezes horríveis de olhar... sangue, mãos cerradas, olhos vidrados, rostos distorcidos. Muitos tinham as espingardas convulsivamente nas mãos, outros tinham as mãos cheias de terra ou de erva que tinham arrancado na agonia [...] Nada de coragem, bravura e coisas do género, pois na realidade é apenas a terrível disciplina, a compulsão que leva o soldado para a frente e para a morte" (citado de: Ulrich/Ziemann, op. cit., 87).

 

Tornou-se evidente que após a guerra não poderia haver retorno às condições de produção e de trabalho da época anterior a 1914; por assim dizer, a intensificação ou especificação do "trabalho" e da disciplina nas trincheiras provou ser irreversível. Isto não foi apenas devido à tremenda aceleração do desenvolvimento tecnológico durante a guerra; foi também acompanhado por mudanças nas estruturas sociais e na consciência das massas. O quotidiano nunca mais poderia parecer o mesmo. Isto aplica-se sobretudo às formas de comunicação:

 

"Só durante a guerra mundial é que a comunicação de massas assumiu a sua dimensão moderna: grupos populacionais antes em grande parte locais e sem escrita estavam agora a ser deslocados para ‘todos os países’ por igual, e pode dizer-se, sem qualquer cinismo barato, que esta mobilidade despertou perspectivas e interesses comunicativos, sobre os quais mais tarde foi construída a esfera pública. Os milhões de cartas de correio militar [...] são indispensáveis para a tomada de consciência das classes mais baixas, especialmente dos camponeses, que foram forçados a escrever sobre si próprios e as suas condições de vida pela primeira vez durante a guerra, e se habituaram a expressar-se por escrito. E, claro, tem de ser tido em conta até que ponto a propaganda de massas, que se tornou uma realidade quotidiana durante a guerra mundial, mudou as estruturas comunicativas, bem como os hábitos de ouvir, ver e ler, numa medida imensa, para além dos seus objectivos imediatos. Não se poderá compreender a propaganda nacional-socialista ou fascista sem estes precursores militaristas burgueses" (Krumreich 1996, 15s.).

 

Não se trata de um cinismo "barato", mas sim de um cinismo fortemente objectivado do sistema político-económico avançado da modernidade, que "perspectivas comunicativas" e uma "tomada de consciência das classes mais baixas" não tenham podido entrar na vida social a não ser sob a forma de propaganda militarista de massas, redes de telecomunicações da máquina de guerra e cartas de correio militar da carne para canhão humana condenada. De facto, esta tem permanecido até hoje a verdadeira base, manchada de sangue, da posterior esfera pública democrática de massas, que se expõe assim como um verdadeiro constructo benthamiano. Pois tal "tomada de consciência", que inclui a autoviolação, já é a priori pré-estruturada, canalizada e controlada até aos centros nervosos pela máquina mundial capitalista que, como máquina de guerra, apenas corre mais depressa e empurra a sociedade para mais longe no seu caminho mecanicamente predeterminado. Foi precisamente neste sentido benthamiano que o escavar de toda a juventude masculina nas trincheiras também fez avançar a "universalização" capitalista do material humano; tanto em termos técnicos como sociais, como Ernst Jünger observa nas suas "Tempestades de Aço":

 

"Nós somos verdadeiros faz-tudo, as trincheiras fazem-nos diariamente as suas mil exigências. Cavamos túneis profundos, construímos abrigos e blocos de betão, preparamos barreiras de arame, criamos sistemas de drenagem, forramos, apoiamos, nivelamos, elevamos e inclinamos, fechamos latrinas, em suma, usamos todas as ferramentas com a nossa própria força. Porque não o haveríamos de fazer, uma vez que nem todas as posições e profissões enviaram representantes para o nosso meio? O que um não pode fazer, o outro pode" (Jünger 1990, 1920, 53).

 

O "homem universal" com quem Marx sonhara em tempos só podia aparecer na sua forma capitalista como um "homem universalmente utilizável" que é literalmente capaz de tudo – e por isso o seu local de nascimento natural tinha de ser o buraco lamacento e encharcado de sangue da batalha do material. Foi precisamente este buraco que finalmente fez o tipo de democracia de massas do século XX. Até então, a igualdade democrática só tinha sido uma igualdade jurídica e externa: A capacidade eleitoral activa e passiva nas eleições para o parlamento nacional não tinha de modo nenhum criado um tipo uniforme de ser humano "pronto a usar", cuja única diferença fosse a posição funcional e a riqueza. Pelo contrário, as barreiras de posição, locais, profissionais e culturais, tinham permanecido tão elevadas que formavam obstáculos a um maior nivelamento capitalista da cultura e da sociedade. O narrador na primeira pessoa em Remarque reflecte sobre a súbita mudança da situação, em retrospectiva do período pré-guerra, que se transformou tão rapidamente como num conto de fadas: "Assim nos sentamos um em frente do outro, [...] dois soldados de capotes surrados [...] O que ele sabe sobre mim – o que eu sei sobre ele, nenhum dos nossos pensamentos teria sido semelhante no passado" (Remarque, op. cit., 82). Apenas os "moinhos de sangue" da guerra industrial criaram os protótipos do século XX, não só para os seres humanos "universalmente utilizáveis", mas também para seres humanos de cunho idêntico da democracia de massas:

 

"Os nossos pensamentos são barro, são amassados pela mudança dos dias [...] Todos são assim, não só nós aqui sozinhos – o que antes valia já não é válido, e realmente também já não se sabe. As diferenças criadas pela formação e pela educação são quase desvanecidas e dificilmente reconhecíveis [...] É como se antes tivéssemos sido moedas de países diferentes; foram derretidas, e agora todas têm o mesmo cunho" (Remarque, op. cit., 220).

 

Este derretimento e idêntica cunhagem do material humano nas frentes da "catástrofe primordial do século XX" criou pela primeira vez a forma elementar de igualdade democrática funcional, que assim viu a luz do dia de acordo com a sua verdadeira natureza, como aberração desfigurada: a igualdade negativa perante o dinheiro, que até então apenas tinha sido insuficientemente aplicada, não podia ser preparada de outro modo que não fosse uma igualdade negativa de morte e mutilação nos "moinhos de sangue". Este arquétipo da crescente democracia bentamiana do século XX deu finalmente aos indivíduos a igualdade do exemplar individual – dos parasitas. O protótipo do ser humano democrático de massas era o homem na vala comum, tal como o sobrevivente marcado para sempre: humilhado, vergado e sem coluna vertebral como nunca antes, rastejando no sangue e na imundície, estava finalmente maduro para se governar capitalistamente e ser o seu próprio Leviatã democrático.

A isto correspondeu o progresso na emancipação capitalista das mulheres induzida pela guerra mundial: Temporariamente, foram autorizadas a afluir aos "empregos" industriais abandonados, especialmente, claro, às fábricas de armamento e sobretudo às fábricas de munições. No entanto, o aumento real do emprego total feminino durante os anos da guerra não foi maior do que durante a retoma económica anterior à guerra; além disso, o trabalho assalariado feminino na indústria do armamento foi restrita e deliberadamente limitado no tempo, devido à falta de qualificações das mulheres, na sua maioria sem formação:

 

"A estima pública de que o trabalho assalariado feminino desfrutou durante a Primeira Guerra Mundial não deve esconder o facto de que se tratava de uma solução temporária, cuja continuação para além do fim da guerra não era de modo nenhum desejada. O emprego das mulheres nos 'locais de trabalho dos homens' não era bem-vindo como tal, mas sim como o cumprimento de um dever de guerra, em tempos em que havia 'necessidade de homens'. Após a desmobilização, o consenso de todos os grupos sociais relevantes era que as mulheres deveriam ceder novamente o lugar aos homens. Esta expectativa – à qual também correspondia então o decurso da desmobilização em 1918/19 – era bastante familiar para as próprias trabalhadoras: Durante toda a guerra estas considerações foram anunciadas, impressas e em muitos casos também asseguradas por contratos de trabalho, nos quais as mulheres tinham de assinar uma declaração escrita quando eram contratadas, concordando em ser despedidas quando o 'dono do emprego' regressasse" (Daniel 1996, 163).

 

Mas, apesar destas restrições, o trabalho assalariado adicional das mulheres nas indústrias de armamento foi uma profunda ruptura estrutural e da consciência histórica: Pela primeira vez, as autoridades civis e militares esforçaram-se oficialmente por mobilizar as mulheres para o trabalho assalariado, ao contrário de toda a anterior ideologia de género do biologismo social. Assim, abriu-se uma brecha para o trabalho assalariado feminino, ainda que a convulsão estrutural duradoura só viesse a começar mais tarde. E, como os homens na frente, as mulheres nas fábricas da guerra foram autorizadas a celebrar dignamente a sua iniciação na democracia de massas "em casa", como está registado nas memórias de uma testemunha:

 

"Havia sempre ‘qualquer coisa a acontecer’. Especialmente durante os turnos da noite. Não havia noite sem o colapso de uma ou mais mulheres nas máquinas, devido a exaustão, fome, doença [...] Na cantina havia ataques de gritaria de mulheres quase todos os dias, por vezes também lutas deprimentes entre elas, porque alegadamente ‘a concha não estava cheia’" (citado de: Ullrich 1994, 610).

 

Aqui é preciso congratularmo-nos por o trabalho assalariado feminino ter recebido deste modo o seu baptismo oficial de fogo em condições agravadas, a fim de não deixar qualquer ilusão sobre o carácter da "emancipação" capitalista, e de tornar historicamente claro para as mulheres, por assim dizer desde o início, que a relação entre lar burguês e coração, por um lado, e o rendimento monetário próprio através de "trabalho" abstracto sob direcção alheia, por outro lado, só poderia ser a relação entre a peste e a cólera. Após o fim da guerra, a recompensa democrática seguiu por seu pé, em muitos países sob a forma de sufrágio universal para as mulheres, a quem a grande guerra tinha assim aberto também a grande brecha. O primeiro passo decisivo para a integração das mulheres na esfera pública capitalista seguiu o mesmo padrão do prototípico "derretimento" democrático em massa dos homens na frente: a igualdade de género, também só poderia aparecer como negativa, como um momento de democrática e capitalista ‘transformação em parasita” do ser humano.

Neste contexto de um novo "surto benthamiano" do desenvolvimento capitalista através da grande guerra, o social-democratismo floresceu como numa estufa. Finalmente, ele tinha chegado por si próprio a si próprio, foi-lhe permitido participar e celebrar o "crepúsculo dos deuses do mundo burguês" (Bebel) como a sua tão esperada entrada democrática neste mesmo mundo com orgias de sangue. Um testemunho fiável deste estado de espírito foi o facto de em 1916 a social-democracia germano-austríaca, com o gesto de um "internacionalismo negativo", por assim dizer, como combustível espiritual para alimentar lemas de resistência, ter publicado um ensaio de Jean Jaurès sobre "A Pátria e o Proletariado", sob a forma de uma brochura de massas. A introdução do socialista vienense Engelbert Pernerstorfer merece ser discutida detalhadamente:

 

"O que distingue Jaurès como francês em particular, e o que é tão raramente encontrado nesta e em quase todas as nações não alemãs, é o seu verdadeiro internacionalismo (!), o seu respeito e estima por todas as culturas, especialmente também pela alemã [...] Embora ele próprio fosse um fervoroso nacional francês, não caiu no generalizado erro francês de ver o mundo apenas em francês [...] Ele viu a beleza do mundo humano no caleidoscópio das nações, cuja realidade era a condição prévia para o seu ideal de humanidade. Ele estava muito longe daquele internacionalismo e cosmopolitismo desbotado que vê o progresso da raça humana numa caótica massa global de raças e nações... Era um amigo da paz, o que não o impediu de escrever um trabalho abrangente sobre a reforma do exército francês, já admirável pela riqueza de conhecimentos militares que demonstra. Assegurar a integridade da nação era para ele um dos deveres mais elevados de qualquer povo [...] Ele abominava a guerra, mas temia-a. Quando ela chegasse, devia encontrar o seu país e o seu povo equipados (!). Este só poderia ser o caso se o armamento militar francês fosse tão perfeito quanto possível. Portanto, apesar do seu profundo e genuíno sentido de paz, ele não podia ser um anti-militarista. A organização do exército deveria ser simplesmente impecável. A sua preocupação com o exército levou-o assim, o socialista e pacifista, a elaborar um sistema de reforma do exército que foi elaborado até ao mais insignificante pormenor. Isto parece ser completamente indigno de um socialista, de acordo com as ideias habituais no país. Mas só se o socialismo procurar abolir completamente a ideia de pátria e de nação [...] Que a guerra, que Jaurès não poderia ter evitado, o teria mergulhado na mais profunda angústia terá de ser confirmado por qualquer pessoa que tenha conhecido a sua obra e a sua personalidade. Ele era o tipo mais elevado de homem de cultura moderno, para quem a confraternização das nações não era uma palavra da boca para fora, mas o desejo mais íntimo do coração. Mas quem poderia duvidar que, após a eclosão da guerra, ele teria estado ao lado do seu povo com zelo e paixão. Teria agido de acordo com as palavras do nosso Schiller: 'Seja o que for que venha a acontecer, fica ao lado do teu povo'. Na hora do destino de uma nação, não há ponderações nem dogmatismos. Ele teria cumprido o seu dever com a morte no coração [...] Em primeiro lugar, Jaurès demonstra a necessidade histórica e a grandeza histórica do capitalismo [...] Todos nós, socialistas, sabemos que sem capitalismo não haveria socialismo [...] Mas é duvidoso que este conhecimento já tenha penetrado nas massas tanto quanto é desejável. Contudo, o capitalismo em si mesmo não tem apenas os seus lados negros; os poderes que lutam dentro dele também têm trabalhado para o progresso. Devemos querer a continuação do seu desenvolvimento [...] Em segundo lugar, Jaurès mostra que a pátria é também um bem valioso para o proletário [...] Ele opõe-se à fórmula do Manifesto Comunista: 'Os trabalhadores não têm pátria'. Mas talvez Jaurès, e todos aqueles que usam esta frase na interpretação habitual, a entendam mal. Talvez Marx pretendesse apenas dizer: 'O trabalhador de hoje não tem pátria'. E isso era correcto no seu tempo [...] Mas desde esse tempo até hoje, ocorreu uma enorme mudança. Hoje o trabalhador tem uma pátria [...] Jaurès aponta em terceiro lugar o valor cultural da nação [...] Para ele, nacionalismo e internacionalismo não são opostos [...] Apenas aqueles que estão cheios do sentimento da nação, da visível e efectiva pertença a uma comunidade concreta, podem elevar-se daqui à ideia de cidadania mundial [...] Para o Partido Social-Democrata Alemão será, portanto, uma primeira necessidade professar novamente a pátria e a nação sem quaisquer segundas intenções. Só então o seu compromisso internacional será genuíno e verdadeiro (!) [...] Mas muitas coisas aparecerão a uma nova luz para o trabalhador alemão ao ler este documento. Em particular, abandonará as frases internacionalistas e, tal como tem defendido nos últimos tempos a pátria, fá-lo-á com consciência e sabendo que ao fazê-lo não só não viola os deveres do internacionalismo como logicamente os cumpre (!)" (Pernerstorfer 1916, 1-12).

 

A perfídia ideológica e a rabulice francamente jesuítica aqui visíveis, no meio de toda a inépcia da expressão linguística, é verdadeiramente sem igual. Como se não bastasse que em França as explosões nacionalistas, que tinham levado à execução de Jaurès, fossem celebradas como um "triunfo" das suas "tácticas", os seus comentários edificantes sobre o dever patriótico, a reforma do exército e as necessidades militares teriam de servir agora também para motivar os "hostis" socialistas alemães a massacrar os seus camaradas do partido francês, em nome do superior progresso da humanidade. Raramente houve uma figura mais infeliz e miserável na história do que este líder socialista, que foi literalmente acossado até à morte e perseguido para além da morte pelas fúrias das suas próprias ideias patrióticas. Mas o salário do medo já estava a acenar em toda a parte para os socialistas democráticos: porque tinham pago fielmente o dever de sangue e provado ser carne da carne do mundo capitalista, foi-lhes agora concedida a tão esperada entrada nos centros do poder, ou pelo menos nos seus vestíbulos e pátios das traseiras; o ímpeto leviatânico da social-democracia encontrou finalmente o seu campo de actividade prático na co-administração democrática dos alunos do matadouro de humanos. Os líderes socialistas, até então marginalizados, transformaram-se nos parceiros juniores dos estadistas da "bela" máquina que permaneceram até aos dias de hoje. Só depois de as vítimas humanas terem sido empilhadas a grande altura é que a participação socialista no governo poderia tornar-se parte de um negócio político normal. Em França e na Bélgica, os principais funcionários do movimento operário juntaram-se aos gabinetes de guerra como ministros. Na Alemanha não se foi assim tão longe, mas no órgão consultivo informal do "Comité Intergrupos" a social-democracia maioritária era um membro bem visto e fervoroso; e deste modo, pelo menos as portas das traseiras e as entradas dos fornecedores do aparelho estatal capitalista abriam-se aos defensores socialistas do ABC do poder:

 

"Esta suavização do isolamento político foi uma das mudanças político-sociais essenciais da guerra. As exigências da guerra colocaram os social-democratas em estreito contacto com o governo, as autoridades e os funcionários, especialmente em numerosas comissões e na Comissão Permanente, o órgão mais importante entre as sessões do parlamento. Isto foi para além do quadro parlamentar normal. Os social-democratas, outrora estigmatizados como inimigos do Reich, foram aceites pelo governo e pelos partidos como parceiros de discussão e negociação. Este processo foi sentido ainda mais fortemente a nível municipal. Os representantes do SPD tiveram acesso a gabinetes públicos e a deputados municipais, que tinham sido amplamente negados no período pré-guerra; na Prússia, pela primeira vez os social-democratas foram confirmados pelas autoridades estatais, após a sua eleição para conselhos municipais não remunerados. O reconhecimento crescente nos municípios foi registado pelos social-democratas com satisfação interior [...]" (Mühlhausen 1994, 664).

 

Mas certamente: a maior alegria é sempre a satisfação, especialmente a satisfação interior; e a social-democracia teve de ser simplesmente um "partido no interior do parlamento", e de tal modo os social-democratas foram tão bem sucedidos no avanço do progresso democrático, através de alguns milhões de miseráveis sacrifícios humanos, que até conquistaram os primeiros cofres municipais. Foi então desta forma encantadora que a tradição de participação e mesmo de domínio social-democrata foi estabelecida no aparelho administrativo de muitas grandes cidades, e desde então produz a sua própria camarilha corrupta. Embora as indecorosas manchas de sangue nos trapinhos da dominação desta nova classe de dignatários nunca pudessem ser completamente lavadas, elas foram sempre deliberadamente ignoradas.

De uma forma muito peculiar, o conceito social-democrata de socialismo foi mais desenvolvido neste contexto. Sendo o socialismo, para o movimento operário marginalizado mas já "domesticado como porco", nada mais do que capitalismo com a participação socialista nas formas leviatânicas, esta ideia de base desenvolveu agora novas flores de socialismo de guerra, misturando-se com o que na Alemanha foi geralmente chamado "as ideias de 1914". Estas "ideias" não eram mais do que uma ideologia de comunidade de guerra, tão vaga como irracional, propagando a "ideia imperial alemã" contra a "pérfida Albion" (Grã-Bretanha) e contra as "almas de merceeiro" da Europa Ocidental. Não só tinha um forte elemento anti-semita, como o Imperador Guilherme II o formulou repetida e abertamente, mas também a esquizofrenia específica da formação atrasada da nação alemã desde o início do século XIX: O "capitalismo alemão" não deveria ser realmente um capitalismo, mas algo bastante diferente, na verdade algo essencialmente heróico e transcendente, mas funcionando no entanto sob as formas de um sistema capitalista industrial de produção de mercadorias, para os mais elevados propósitos do sanguinário germanismo que simultaneamente tinha fantasiado.

Este constructo ideológico herdado, que já tinha sido rodado ao longo de muitas gerações, fundiu-se agora com as "necessidades" da economia de guerra, a invocação da "unidade interna" e a aceitação ou mesmo glorificação do "trabalho" abstracto nas condições da guerra mundial industrial, para formar aquelas "ideias de 1914", que incluíam um socialismo de Estado irracional e aberta ou implicitamente anti-semita de um novo tipo. Tal como o liberalismo e o socialismo já tinham as mesmas raízes históricas, também lhes foi permitido desenvolverem-se juntos como irmãos inimigos numa estrutura nova, ainda desconhecida, como resultado do impulso da grande guerra. E não só isso – ao mesmo tempo, eles foram capazes de acolher outro monstrozinho ideológico-político como irmãozinho inimigo na acolhedora família da história da modernização: o radicalismo de direita do século XX, que como caricatura cruel do velho conservadorismo rastejou para fora do mesmo buraco de lama e sangue donde saía a nova democracia de massas ainda imprecisa nos seus contornos. Por muito hostil que seja a relação entre os partidos e ideologias concorrentes, a participação da social-democracia no Estado e o nascimento do moderno radicalismo de direita resultaram da mesma convulsão estrutural da sociedade capitalista que a guerra mundial tinha acelerado tremendamente.

Na Alemanha, este desenvolvimento teve um impacto particularmente forte, muito para além social-democracia, porque aqui uma atracção ideológica que já vinha produzindo efeito há muito tempo foi directamente reforçada através das linhas partidárias pela específica situação de guerra: A Alemanha foi sujeita a um bloqueio marítimo pelos seus inimigos e teve de mudar para a gestão estatal das matérias-primas. O principal organizador deste projecto para toda a sociedade foi nada mais nada menos que o industrial judeu liberal, director da AEG e ideólogo do imperialismo alemão, Walther Rathenau, que se tornou assim o chefe dos "defensores da pátria" entre os membros judeus das elites funcionais capitalistas. Para ser capaz disso, teve de se encapsular numa ignorância quase admirável do tom anti-semita da comunidade de sangue da guerra alemã. Em 20 de Dezembro de 1915, apresentou numa palestra a grande experiência social da economia estatal nos seus traços fundamentais:

 

"Meus senhores! Gostaria de vos informar sobre um período da nossa condução económica da guerra sem precedentes históricos que terá uma grande influência no curso e no sucesso da guerra, e que terá provavelmente um efeito de longo prazo. É um acontecimento económico que toca de perto os métodos do socialismo e do comunismo, e no entanto não no sentido que as teorias radicais previram e exigiram. Não é a construção teórica de um sistema rígido que gostaria de vos dar, mas um pedaço de vida vivida, que [...] finalmente levou a uma conversão completa da nossa vida económica, e deu origem a uma autoridade que cresceu dos muros do antigo Ministério da Guerra da Prússia para colocar a economia alemã ao serviço da guerra [...] A 4 de Agosto do ano passado, quando a Inglaterra declarou guerra, aconteceu algo monstruoso e sem precedentes: o nosso país tornou-se uma fortaleza sitiada. Bloqueado em terra e no mar, dependia agora de si mesmo [...] Quatro caminhos eram possíveis e tinham de ser percorridos para reorganizar a economia do país, para forçar a relação com a defesa. Primeiro: todas as matérias-primas do país tinham de se tornar compulsivas, não era permitido seguirem a sua própria vontade e arbitrariedade [...] Segundo: tínhamos de forçar todos os materiais disponíveis para além das fronteiras a entrarem no país, na medida em que pudessem ser forçados [...] A terceira possibilidade que se nos abria era a produção. Tínhamos de garantir que tudo o que era indispensável e estava indisponível fosse produzido internamente [...] E agora a quarta via: tínhamos de substituir materiais difíceis de obter por outros materiais mais fáceis de obter [... Para resolver a tarefa que nos tinha sido confiada, precisávamos da cooperação de muitas autoridades [...] A solução era, antes de mais, criar novos conceitos jurídicos [...] Tinha de ser encontrado o conceito básico que nos permitisse reorganizar o ciclo económico. Criámos um novo conceito de confisco [...] Este conceito de confisco não significa que um bem se torne propriedade do Estado, mas apenas que está sujeito a uma restrição, que já não pode fazer o que ele ou o seu proprietário querem, mas o que um poder superior quer [...] Por um lado, tinha sido dado um passo decisivo em direcção ao socialismo de Estado; a circulação de mercadorias já não obedecia ao livre jogo de forças, mas tornou-se compulsiva. Por outro lado, as novas organizações estavam a lutar pela auto-administração da indústria, e em grande medida através das novas organizações [...] Assim, o conceito de economia de guerra nasceu da essência da auto-administração, (!) mas não da liberdade ilimitada. As sociedades de material de guerra foram fundadas com rigorosa supervisão oficial [...] Deste modo, constituem um elo intermédio entre a sociedade anónima, que encarna a forma livre da economia capitalista, e um organismo oficial; uma forma económica que talvez aponte para o futuro [...] Este é um produto alemão [...] Mais uma vez, é uma glória do sistema alemão e também do prussiano [...]" (Rathenau 1929/1915, 25-58).

 

A economia de guerra estatal alemã não era a única, claro; em todos os países envolvidos na guerra havia formas semelhantes de subordinação do mercado à política nacional. Embora na Alemanha também tenha permanecido um remanescente económico liberal, na medida em que (como mostra Rathenau) não foi imposta a propriedade total do Estado, mas apenas um dirigismo estatal abrangente, este maior controlo económico estatal pareceu à maioria dos intervenientes ser um enorme "passo para o socialismo": a identificação directa do socialismo com o dirigismo estatal já estava ancorada nas mentes da maioria deles. Já em Novembro de 1914, a Revista dos Metalúrgicos se regozijava: "Socialismo para onde quer que olhemos" (citado em: Schönhoven 1994, 675). Rathenau também disse numa conversa: "Já estamos metade no comunismo" (citado em: Bieber 1981, 141). Do mesmo modo, um representante do governo alemão, nas negociações com os sindicatos sobre a política alimentar em tempo de guerra: "Já temos metade do Estado socialista – certamente que não vão exigir a totalidade!” (ibid.). Assim, os revolucionários bolcheviques na Rússia, com Lenine à cabeça, puderam também referir-se repetidamente ao milagre organizativo prussiano-alemão da economia de guerra, e propagar o socialismo "pleno" apenas como a sua extensão à propriedade total do Estado sob auspícios "proletários". Até o general prussiano Hans von Seeckt ficou satisfeito com este emergente socialismo de caserna:

 

"Na minha opinião, duas coisas são inevitáveis: um forte crescimento da ideia de Estado e, portanto, do poder do Estado, ou seja, um maior socialismo de Estado depois de o povo se ter tornado o exército [...]" (citado de Klönne 1981, 137).

 

Assim, a grande guerra, com a forte cooperação do movimento operário e da social-democracia, trouxe também um novo surto de socialismo de Estado, no sentido de Adolph Wagner. Os sindicatos e o SPD também participaram (à semelhança das organizações dos antigos confrades entre os opositores à guerra) nos debates sobre os objectivos da guerra, indo até à exigência de anexações, novas colónias, supremacia alemã na Europa, e mesmo uma espécie de dominação mundial do Reich alemão. Os fundos sindicais foram investidos em títulos de guerra em grande escala. E a ideologia socialista da legitimidade da solidariedade nacional mudou, da alegada ameaça às conquistas democráticas pelo czar russo e suas "hordas" para a ameaça aos interesses alemães no mercado mundial por parte da Grã-Bretanha, cujo "principal objectivo" na política de guerra, como afirmavam muitos funcionários sindicais, seria "o prejuízo económico para a Alemanha" (citado de: Bieber 1981, 889). Tal tendência era de facto lógica, porque depois de o "trabalho" abstracto ter sido adoptado como um valor positivo do socialismo e, nesta base, os "interesses dos trabalhadores" terem sido definidos em termos de economia nacional e de socialismo de Estado, o interesse nacional da concorrência com o mundo exterior (seja na dicção revolucionária jacobina ou na reformista) teve de ser necessariamente adoptado. Esta integração dos interesses dos trabalhadores assalariados e dos sindicatos nos respectivos interesses concorrenciais nacionais, na ausência de qualquer pensamento de um diferente paradigma alternativo de raiz, que permaneceu em vigor até hoje, produziu as primeiras flores exuberantes na grande guerra. O líder sindical Theodor Leipart (1867-1947) reconheceu subtilmente que os objectivos sindicais tinham sido sempre "orientados não só para a representação enérgica dos interesses dos trabalhadores, mas também para os interesses da indústria e da economia alemã" (citado de: Bieber 1981, 222). E o social-democrata de direita August Winnig (1878-1956) chegou mesmo a dizer mais tarde:

 

"A força motriz da nossa penetração nos mercados mundiais não foi o capitalismo, mas sim o trabalhador alemão. Não foi o militarismo alemão que esteve na origem da tensão política que agora irrompeu na guerra, mas sim os 20 milhões de alemães que tinham de viver do trabalho das suas mãos" (citado de: Bieber 1981, 889).

 

Com tanto em comum sob a bandeira das "ideias de 1914", era inevitável que o entendimento social-democrata e sindical do socialismo fosse carregado com conceitos em parte reinventados e em parte retirados do arsenal do anti-semitismo, o irmão supostamente menor e mais estúpido da crítica do capitalismo, que até então tinha sido ridicularizado. O social-democrata Paul Lensch (1873-1926) foi o primeiro a falar de "socialismo de guerra", um termo que foi logo utilizado também pelos círculos conservadores e liberais de direita, e que mais tarde reapareceu na Revolução Russa. Em contrapartida, a ideia da "Volksgemeinschaft" (comunidade do povo), há muito popular entre os anti-semitas e no movimento juvenil, entrou no vocabulário socialista; foi neste contexto que o termo "Gemeinwirtschaft" (economia social), provavelmente criado por Rathenau em 1915, se tornou mais tarde o termo utilizado para descrever o sistema de empresas municipais e sindicais produtoras de mercadorias. Socialistas, liberais e conservadores de direita juntos lançaram a ideia de uma "cooperativa popular" para um "Estado do trabalho nacional"; e por isso não admira que o termo "socialismo nacional", usado pela primeira vez pelos liberais de esquerda de Friedrich Naumann, tenha reaparecido em textos sindicais social-democratas como "nacional-socialismo" (vulgo "socialismo de guerra"): Quase todo o vocabulário básico do partido nazi foi "criativamente" trazido ao mundo durante a Primeira Guerra Mundial, com a participação activa da social-democracia e dos sindicatos. E não eram meras coincidências de nomes, mas sim uma relação estreita (para não dizer de identidade) de ideias, separadas apenas por divisórias tangenciais de hostilidade organizativa externa e de tradições ideológicas diferentes. Certamente as mais duras ideias "nacional-socialistas" não foram apoiadas por todos os socialistas, mas havia um vasto espectro de gradações na social-democracia, incluindo os poucos opositores abertos à guerra. Mas dentro deste espectro havia misturas ideológicas de nacionalistas de direita, "radicais de esquerda", biologistas sociais, "comunitaristas populares" e militaristas do trabalho, que muitas vezes só mais tarde se mascararam de irreconciliáveis. No entanto, no final, a iniciação democrática das massas, a integração estatal da social-democracia e o nascimento do nacional-socialismo formaram uma unidade interna da ruptura estrutural desencadeada pela guerra mundial. Como foi o caso do socialismo de estado de Bismarck, a Alemanha voltou a liderar o caminho, enquanto fenómenos semelhantes tenham aparecido também noutros países capitalistas com expressão mais reduzida.

Flanqueada pelo poder organizativo da social-democracia e dos sindicatos, que frequentemente faziam o trabalho sujo a níveis mais baixos, a economia de guerra de Rathenau manteve o Reich alemão com mão de ferro e a máquina de guerra a funcionar, apesar do isolamento alemão. Em conjunto com a organização deste "socialismo de guerra", o Comando Supremo do Exército (OHL), chefiado pelo Marechal de Campo Paul v. Hindenburg (1847-1934) e pelo General Erich Ludendorff (1865-1937), sofreu cada vez mais uma mutação para verdadeiro centro do poder, enquanto o governo do Reich e mesmo o Imperador perderam importância. Ludendorff foi considerado como um génio militar e organizativo em ascensão; à medida que a guerra continuava, o seu regime tomou cada vez mais a forma de uma ditadura militar, antecipando assim muitas características das ditaduras modernizadoras de vários tipos no século XX.

Mas quanto mais tempo durava a guerra, mais precária se tornava a situação de ambos os lados, especialmente no gradualmente esgotado Reich alemão. Nenhum dos países capitalistas beligerantes tinha previsto e preparado uma guerra industrial tão grande que duraria anos. Cada vez mais recursos tiveram de ser atirados pela goela abaixo da máquina de guerra. A produção de alimentos afundou-se para mínimos incríveis:

 

"Na agricultura, que foi particularmente afectada pela partida dos trabalhadores, a produção caiu entre 50 e 70% na Alemanha, 50% na Rússia e 30 a 50% em França, entre 1913 e 1917. A consequência foi o racionamento dos bens alimentares para a população, com a introdução de cartões de racionamento para pão, carne, batatas etc. De todos os países beligerantes, a Alemanha foi o primeiro a sofrer de escassez alimentar [...] A partir de 1914, o Comité dos Cereais determinou a composição da farinha do pão, acrescentando uma certa proporção de farinha de batata e limitando o consumo de pão. A utilização de gorduras para a produção de glicerina também limitou o consumo de gorduras comestíveis, e logo se seguiram restrições de outros produtos [...] A Inglaterra [...] só teve de racionar alguns produtos ultramarinos, como o café e a manteiga. Em França, a carne e o açúcar estavam entre os produtos afectados [...] No seio da Dupla Monarquia, a Hungria não teve dificuldades especiais, ao contrário da Áustria, dos países eslavos e do exército particularmente mal alimentado. 'Os vermes na comida não fazem mal ao estômago", anunciou um comunicado ao exército em 1918. O tifo era galopante na população subnutrida e, tal como na Turquia, a mortalidade estava a aumentar rapidamente. Nas classes trabalhadoras das cidades alemãs e austríacas, foram sobretudo as mulheres as mais afectadas pela escassez de alimentos; devido à desnutrição, a menstruação mensal falhava e, quase sem excepção, ocorreu infertilidade temporária" (Ferro 1988/1969, 215s.).

 

Estas são palavras bem conhecidas que ouvimos sobre os alimentos e a sua qualidade. O que o capitalismo sempre tinha conseguido em paz, alcançou na guerra, claro, ainda mais: nomeadamente, apesar do aumento ininterrupto e enorme das forças produtivas, reduzir a satisfação mesmo das necessidades mais elementares a um nível deplorável para grandes massas de pessoas. Em Remarque, um jovem soldado queixa-se: "De manhã pão de nabo, ao meio-dia legumes de nabo, à noite costeletas de nabo e salada de nabo" (Remarque 1952/1928, 34). Uma velha raposa experiente responde-lhe: "Pão feito de nabos? Tiveste sorte, eles já o fazem de serradura" (ibid.). Até um Ernst Jünger se agita: "À noite chegou a cozinha de campo a cambalear e trouxe uma papa miserável, provavelmente cozinhada a partir de nabos congelados" (Jünger 1990/1920, 15). Não era melhor "em casa", como se pode ver em inúmeros documentos, tais como a carta de uma mulher de Hamburgo em 1917: "Vai-se para a cama com fome e sai-se da cama novamente com fome [...] Apenas os eternos nabos, sem batatas, sem carne, cozidos só em água" (citado de: Ullrich 1994, 609). Na carta de uma mulher australiana que teve de passar a guerra retida em Leipzig, diz-se (também em 1917):

"Sobrevivemos uma semana estranha [...] praticamente sem nada para comer – parece não haver mais batatas – foi dado a todos meio quilo dos chamados flocos de batata [...] Parecem-me ser peles secas de batata [...] Está para além da minha capacidade de entendimento como os pobres se dão com isto aqui. Qualquer outro povo da Terra se levantaria contra um governo que o conduzisse a tal miséria [...]" (citado de: Schulin 1994, 15).

 

Por outras palavras: depois de quase cem anos de industrialização, a economia de mercado "de melhoria do bem-estar", na sua gloriosa capacidade especial como máquina de guerra, sentiu-se compelida e legitimada a retirar mais uma vez o padrão de comedor de batatas, que acabara de ser misericordiosamente reinstituído a muito custo, e a substituí-lo em grandes partes da humanidade capitalista, mas especialmente na Alemanha, por um padrão de casca de batata, nabo dos porcos e serradura. Um artista amador da guerra como Ernst Jünger conseguiu transformar a miséria da trincheira e da batalha do material numa "estética do terror"; no seu penoso ensaio "A Guerra como Experiência Interior" celebrou a matança mecânica como "um jogo magnífico e sangrento" e incensou "o grande destino, livre das questões da necessidade quotidiana" (Jünger 1925, XV). Aqui a "imundície" gostaria então de aparecer apenas como um adereço entre muitos, na encenação da grande obra de arte total. No entanto, para as pessoas comuns, não abençoadas com tais qualidades da estética do terror, agora – demasiado tarde – coisa começava a ir longe demais.

Em 1918, ocorreram pela primeira vez motins no exército francês, que foram sangrentamente reprimidos e encobertos. E então, finalmente, até os alemães começaram a amotinar-se, porque nem sequer uma meio decente última refeição de condenado lhes era permitida, enquanto "especuladores de guerra" e oficiais do Estado Maior se banqueteavam descaradamente. Aconteceu o que todas as crianças sabem dos livros escolares: o Reich alemão entrou em colapso porque, depois de os Estados Unidos terem entrado na guerra (1917), não tinha mais nada para se opor aos recursos superiores dos aliados. As coroas imperiais rolaram na poeira, a revolução russa abalou o mundo. Mas como poderia o material humano domesticado, que tinha engolido quase todas as exigências irracionais até à morte, agora depois de tudo isto, pensar ainda na sua libertação da assassina máquina mundial? As décadas de auto-entrega não podiam ser varridas tão rapidamente. Na sua visão de 1912, Wilhelm Lamszus tinha também previsto o colapso e a revolução, não porém como um final feliz, mas como uma zombaria final:

 

"Procissões através da cidade [...] prisões [...] discursos rebeldes [...] as mulheres marcham em frente à câmara municipal e exigem o regresso dos maridos [...] Para quê, agora é tarde demais. Agora é tempo de se estar satisfeito e contente com o que a bala deixou. Basta apertar ao peito com amor o coto deixado pelo tiro [...]" (Lamszus 1928/1912, 147).

 

E, de facto, o material humano democraticamente remodelado e batizado com sangue, que durante muito tempo apenas pôde pensar as suas próprias ideias de liberdade e felicidade nas categorias capitalistas, acabou por se contentar com o que a bala lhe deixou. No total, a máquina de guerra tinha sido alimentada com quase dez milhões de mortos. Como se quisesse executar a previsão desprezível de Lamszus, uma viúva de guerra do Allgäu escreveu ao imperador em 1918:

 

"Vossa louvável Majestade! Eu gostaria, se me fosse permitido, de fazer um pedido a Vossa Majestade. O meu marido estava na frente desde 2 de Agosto de 1914, e participou em tudo [...] Agora ele [...] morreu pela pátria na frente ocidental [...] uma vez que eu simplesmente não tenho posses, é-me impossível conseguir transferir o corpo [...] tomo a liberdade de pedir a Vossa Majestade que Vossa Majestade me ajude a obter o corpo do meu bom homem com poucas despesas [...]" (citado de: Ulrich/Ziemann 1994, 209).

 

Este foi mais ou menos o estilo em que também a revolução teve lugar. O curso posterior da história capitalista após a "catástrofe primordial do século XX" foi antecipado, como que num espelho distorcido, pelo destino pessoal dos dois principais protagonistas e principais organizadores do "socialismo de guerra" alemão. O antigo Chefe do Estado-Maior General Erich Ludendorff, génio militar e protótipo do ditador industrial (o político e mais tarde Ministro dos Negócios Estrangeiros Gustav Stresemann tinha-lhe chamado o "Cromwell alemão"), fica literalmente louco e combina a sua paranóia pessoal com a social: Sacudido pelo choro e pela paralisia histérica (Poliakov 1988, 25), desenvolve uma mania da perseguição clínica, torna-se um anti-semita enfurecido, começa a acreditar no deus germânico Wotan (Tschuppik 1931, 424) e vagueia pela história alemã até à sua morte em 1937; depois de ter sido membro e deputado ao Reichstag pelo NSDAP, zanga-se com todos os seus camaradas da guerra mundial e camaradas de sangue étnico, apenas para acusar até mesmo Hitler de ter traído a raça germânica a favor dos judeus e do Papa Romano (Poliakov 1988, 29). Walther Rathenau, que deve ter trabalhado de perto com Ludendorff como chefe da economia de guerra alemã, torna-se Ministro dos Negócios Estrangeiros e em 1922 é abatido como um cão por asselvajados oficiais da direita radical como um "traidor", um "político que cumpriu o tratado de paz" e um "porco judeu".

 

 

Original Die Geschichte der Zweiten industriellen Revolution, pags. 189-205 de Schwarzbuch Kapitalismus. Ein Abgesang auf die Marktwirtschaft. Integral online: www.exit-online.org/pdf/schwarzbuch.pdf. Tradução portuguesa em curso em http://www.obeco-online.org/livro_negro_capitalismo.html. Tradução desta secção de Boaventura Antunes (1.2021)

 

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