Roswitha Scholz

 

NÃO DIGO NADA SEM A MINHA ALLTOURS

A identidade (masculina) pós-moderna entre a mania da diferenciação e a segurança da teoria marxista vulgar. Réplica às críticas à teoria da dissociação-valor

 

Introdução * O conceito de dissociação-valor * Igual originalidade e sujeito “autónomo” * Falsa historicização e falsa ontologização * Dissociação-valor como conceito da totalidade * O não-idêntico e a lógica da dissociação-valor * Princípio social fundamental e diferenças * A ausência do conceito de dissociação-valor na teoria feminista * Teoria, empiria e desenvolvimento histórico * Sexo e Género * Dissociação-valor e heterossexualidade compulsiva * Dissociação-valor e crítica da economia política * Diferentes planos de análise e pensamento positivista * Conclusão: O espírito do tempo pós-moderno na crise, os círculos de esquerda virados queer e a insustentabilidade de uma mentalidade de crítica ecléctica

 

Introdução

Passados nove anos desde a publicação do meu livro O sexo do capitalismo (2000), é tempo de pegar em determinadas críticas que têm surgido em discussões tanto orais como escritas. Uma lista de alguns dos principais argumentos contrários pode ser encontrada nos textos de Fritjof Bönold A crítica imanente ao teorema da dissociação-valor (2008a, 2008b) surgidos na revista de Viena Streifzüge. Por isso me vou ocupar deles, ainda que Bönold trabalhe de forma muito desleixada, misturando desordenadamente ideias e planos, pelo que é necessário um maior esforço hermenêutico para reproduzir os seus pensamentos em seu próprio sentido, mesmo que aproximadamente, o que é de resto bastante sintomático de grande parte dos círculos (políticos) feministas de esquerda hoje. Aproveito a ocasião para abordar também outras críticas não mencionadas por Bönold, ou que até quase contradizem o seu discurso.

O problema principal parece-me consistir na abordagem positivista, que disseca passagens isoladas do meu texto, confrontando-as apenas superficialmente com os argumentos contrários. Bönold considera, de facto, (ainda que condescendentemente) a teoria da dissociação-valor de algum modo justificada e gostaria, segundo diz o título, de fazer uma “crítica imanente” dela. Vou mostrar, no entanto, que ele se move precisamente em sentido contrário. Uma dificuldade particular para ele é, obviamente, o meu método dialéctico, que contraria o entendimento burguês da teoria e da ciência. Por outro lado, também para a “ortodoxia” marxista que se pode encontrar numa leitura de Marx ou de Adorno limitada à filologia, ela própria caída no positivismo, não constitui menor obstáculo conseguir perceber a elaboração teórica da crítica da dissociação-valor como qualitativamente nova. Barbudos do antigo marxismo e voluntaristas pós-modernos do pluralismo podem por vezes chegar a alianças notáveis, até numa e mesma pessoa. Tanto o sugestivo recurso a “certezas” pós-modernas como a interpretação positivista da teoria de Marx procedem mais ou menos de acordo com o mote “Não digo nada sem a minha Alltours” (1). Assim se sentem autorizados a meter no bolso a crítica da teoria da dissociação-valor. Esse é também o propósito de Bönold.

A elaboração teórica inovadora, em contrapartida, nunca se apegou servilmente à letra do “mestre”, pelo contrário, baseando-se no seu conhecimento e tradição, tenta simultaneamente produzir novas reflexões e formações teóricas – por assim dizer com o gosto pelo debate da dialéctica à maneira do Talmude; é claro que sempre desafiada e condicionada também pelo contexto histórico em que se move. A relação de género, como problema teórico, coloca aqui um desafio especial, porque se trata de apreender algo que realmente vai contra o conceito na elaboração teórica corrente, mas que ainda assim tem de ser “concebível”. Aqui Bönold recua (e não só ele). A crítica da dissociação-valor, ao tentar dar uma resposta a este problema, esbarra fundamentalmente em atitudes que se agarram ao entendimento tradicional da teoria, recusando-se em última instância a dar lugar a esboços de “grande teoria”, precisamente no que respeita à relação de género; mesmo se afirmam aparentemente o contrário, para dar satisfação ao “politicamente correcto”.

A posição em que de seguida vou argumentar é a do meu livro sobre o género de 2000, no qual já corrigi alguns erros de avaliação anteriores. Nos pontos essenciais, no entanto, mantive-me fiel ao que escrevera. Para não aumentar a complexidade, levei em conta apenas de passagem o que foi exposto nas minhas publicações posteriores a 2000. Se além disso me virei para “outros” temas, tal não constitui qualquer contradição com a posição teórica de fundo. A crítica da dissociação-valor pretende chegar ao todo social trazendo em si a sua auto-relativização, ao afirmar um princípio formal baseado na dissociação do feminino. Pois esta abordagem teórica proíbe um processo de derivação dedutivo a partir de um princípio estabelecido como absoluto, no qual a totalidade não fica absorvida. Nessa medida, para a crítica da dissociação-valor pode haver algo ainda mais importante do que a sua própria elaboração meticulosa da relação de género em sentido estrito, especialmente na actual crise mundial do capitalismo. Por exemplo, a preocupação com o anticiganismo, que tem de ser visto como um padrão fundamental escondido da modernidade, o que parece completamente absurdo à primeira vista (Scholz, 2007).

Com isto não pretendo de modo nenhum contestar a legitimidade da exigência de que a teoria da dissociação-valor seja elaborada detalhadamente. No entanto, creio que no meu livro sobre o género já foi definida e desenvolvida muita coisa com muito mais precisão do que pretendem reconhecer alguns críticos como Bönold. De seguida quero não em último lugar deixar isso claro. Portanto, se ocasionalmente cito o meu livro sobre o género não é para insistir obstinadamente no próprio projecto, mas para mostrar que uma leitura mais cuidadosa da parte de Bönold teria à partida retirado força a muitos dos seus argumentos. Em todo o caso, no entanto, a minha crítica da dissociação-valor deve ser reavaliada em aspectos importantes.

Há ainda algo que é preciso dizer desde já. Em rigor, a meu ver, não existe qualquer nível epistemológico abstracto, nem sequer no sentido da teoria de Marx de que a crítica do conhecimento já tem de ser sempre crítica social. Isto é particularmente válido para a teoria da dissociação-valor que, na verdade, só pode ser completamente entendida na referência ao conteúdo do desenvolvimento social e histórico real. Se aqui tenho de começar por me manter por longos períodos num plano conceptual e de crítica do conhecimento aparentemente “nu” e abstracto, isso acontece apenas para pelo menos dar a entender aos muitos círculos do tipo de Bönold que nem sequer no sentido de uma tal abordagem (em última análise ainda “com o método” geral) subsiste a sua argumentação, argumentação de que a teoria da dissociação-valor se liberta no seu desenvolvimento. Apenas escolhi este modo de discussão conceptual em parte abstracta, para efeitos de exposição de uma anti-crítica da minha parte “imanente”, a fim de voltar a reconduzi-la de certa maneira ao seu traço próprio.

 

O conceito de dissociação-valor

Já no plano básico da elaboração teórica Bönold interpreta-me de forma completamente equivocada. Ele imputa à crítica do conceito (conotado com a lógica da dedução) que assim “a ‘definição’ do dissociado do valor (seria) paradoxal e, em última instância, inviável” (Bönold 2008 a), pelo que esta teoria “(tornaria problemáticas) as possibilidades de reconhecer o dissociado em geral” (ibid.). A teoria da dissociação-valor deveria, portanto, considerar o seu objecto em última instância incognoscível. Na realidade, o que se diz é simplesmente que “definir” e, portanto, “compreender” consiste numa exposição que tem de considerar o que não fica absorvido no conceito, sem renunciar ao conceito. Isso significa, no entanto, não só no caso deste tema, mas no caso deste tema em particular, que o tradicional “conceito de conceito” teórico não é suficiente. Bönold, porque ele próprio continua preso nesse entendimento, pergunta: “Será ‘dissociação’ um não-conceito?” (ibid.). Isso já mostra que ele tem um problema elementar com o carácter dialéctico do tema e com a aproximação a ele, problema que, no entanto, pretende imputar à teoria da dissociação-valor como sendo “dela”.

Nada parece ser mais estranho a Bönold do que o pensamento dialéctico especulativo que constitui a base da elaboração teórica da crítica da dissociação-valor. A partir desta perspectiva, é um pouco absurdo fazer a pergunta que normalmente persegue uma pessoa nas discussões: O que é então a dissociação-valor exactamente? Diga-o claramente de vez em duas frases! A verdade é que a problemática do género e as relações de género no patriarcado produtor de mercadorias podem ser reconhecidos conceptualmente – o meu “livro sobre o género” é testemunha disso – mas não exactamente no sentido de definição formal. Pelo contrário, elas “existem” precisamente apenas no seu desenvolvimento e nos diferentes planos da simultânea separação e unidade que o acompanham no processo histórico.

Bönold não quer saber disso, porque aqui nada tem a ver “conceptualmente” com um pensamento formal racional em sentido positivista, profundamente enraizado na consciência androcêntrica, que ele gostaria de aproveitar, mesmo virado em (pseudo)crítico do género. Como de seguida é preciso tematizar ainda com mais frequência a crítica do pensamento da lógica formal, torna-se necessário desde já esclarecer um eventual mal-entendido. Trata-se aqui apenas da crítica de um pensamento que gostaria de resolver e “restringir” a determinação fundamental da relação de dissociação-valor e da sua contraditoriedade interna em definições formais. A lógica formal e a matemática não são per se idênticas ao positivismo, mas apenas quando são aplicadas a relações e a processos sociais com elas não apreensíveis. Isto não significa que seja impossível representar formalmente determinadas relações quantitativas (como dentro das categorias económicas ou em relação a aspectos empíricos). Também os cálculos matemáticos em tais contextos são adequados e podem de algum modo contribuir para uma argumentação lógica e precisa, desde que não se fique pelo momento assim apresentável em cada caso. Seria tolice rejeitar um pensamento lógico formal ou matemático onde ele pertence. Mas definições formais e matemáticas, pelo menos no que respeita à teoria social, têm o seu lugar apenas num contexto da totalidade histórico-social que como tal não é compreensível pela definição nem pela lógica formal e pela matemática.

Podemos formular o problema básico neste horizonte com as palavras de Ursula Beer, que escreveu já na década de 1980: “A clarificação científica da relação de género deve ser desenvolvida a partir de um corpus teórico (o de Marx, R.S.) que como nenhum outro enfatiza a unidade sistemática ou o carácter sistémico das relações sociais, mas não possui qualquer conceito de relação social fundamental. Procura-se analiticamente algo que não existe no plano conceptual, mas que terá de ser encontrado, se esta construção teórica tem razão ao apresentar a pretensão de ser capaz de se transcender a si mesma, ao reconhecer-se como inevitável e necessária na sua historicidade” (Beer, 1990, p. 23).

Também não me refiro à “… ocupação ‘masculina’ da ciência” de modo meramente superficial, como Bönold gostaria de entender (ibid.). Em vez disso, a dificuldade de exposição para a crítica da dissociação-valor é que, como se pode perceber também em Ursula Beer, a moderna elaboração teórica (da qual não podemos saltar imediatamente) já no seu acesso ao conceito reproduz a relação de dissociação. Para Bönold esse problema desfaz-se completamente quando ele diz: “Ora não se pode negar que o pensamento conceptual e o raciocínio lógico no Ocidente foram marcados pelos homens e (!) pela forma do valor. Por outro lado, é duvidoso que assim se chegue necessariamente a excluir outras possibilidades de conhecimento” (ibid., destaque de Bönold). Mas a questão não é que a lógica da ciência moderna, por um lado, tenha sido desenvolvida empiricamente principalmente por homens e, por outro, tenha sido moldada pela forma do valor. Pelo contrário, a teoria da dissociação-valor afirma centralmente que a forma do valor e a forma de pensar correspondente não são elas próprias como tais sexualmente neutras, mas são determinadas estruturalmente como masculinas. Portanto, “nesta” forma de pensamento chega-se de facto “necessariamente” à exclusão de possibilidades de conhecimento que pudessem reflectir o dissociado. Esse modo de conhecimento reduzido, no entanto, é simplesmente dominante na modernidade, gostemos ou não, e simplesmente assume histórico-socialmente a sua força de gravidade androcêntrica.

Depois de ter distorcido o fio central do pensamento, Bönold pergunta como “se pode então ainda reconhecer a identidade da forma de pensar e da forma da mercadoria se ela surge num contexto fetichista” (ibid.). Aqui ele salta da problemática da dissociação-valor para o velho conceito universalista de fetiche, e a sua pergunta mostra que já não tinha compreendido o conteúdo crítico deste. Ora o conhecimento só é possível precisamente através da crítica deste contexto e (na crítica da dissociação-valor) da crítica da sua ocupação sexual, o que inclui a correspondente crítica da lógica da ciência que lhe está associada. Para Bönold, no entanto, esta lógica e o respectivo entendimento do conceito representam obviamente a única possibilidade de pensar, na qual ele gostaria então de subsumir também o conhecimento da dissociação-valor.

O mesmo erro de interpretação continua quando Bönold me imputa ainda: “A relação de poder e de dominação entre os sexos, o patriarcado, resulta para Scholz de uma dominância do valor... em relação ao resto ‘menos valorizado’ da sociedade” (ibid.). Bönold gostaria de entender a coisa assim: com a referência à relação de dominância, eu própria diria que o valor é o “autêntico” e a dissociação é o subordinado e derivado. Ora a questão é que a relação de valor em si é simultaneamente uma relação de dissociação, ou seja, trata-se do próprio princípio constitutivo em si fragmentário da própria socialização do valor e não da sua relação com um “resto”. No que respeita à “dominância”, portanto, ela só surge através da estrutura de dissociação em si. O valor (ou a sua reflexão “na” forma de pensamento correspondente), apesar de ele próprio ser totalmente dependente, não sabe dos seus próprios pressupostos e julga-se autónomo, apresentando-se como o original precisamente por isso. Bönold volta a não perceber que a dissociação-valor tem de ser vista no sentido de uma relação dialéctica. Isso excede a sua capacidade de imaginação, como se mostra em toda a sua crítica à teoria da dissociação-valor e como se pode verificar em muitos pontos.

Ele cai mesmo atrás do entendimento hegeliano a ser criticado no sentido da teoria da dissociação-valor. Assim já Andreas Arndt escreve relativamente a uma recepção muito comum da dialéctica de Hegel: “Um dos equívocos persistentes é que ‘o Outro de si mesmo’ seja pensado a partir do absoluto e indique o acto de auto(re)produção da Ideia; de facto, para Hegel, cada Algo define-se em relação com um Outro, de tal modo que aquele define este como o Outro de si mesmo, nomeadamente da determinação do Geral que se pode encontrar nele, que então também é o Outro de si mesmo, portanto simultaneamente ele-mesmo e não ele-mesmo, ou a contradição existente” (Arndt, 2008, nota p. 43). Ora, em Hegel, o “algo como o Outro de si mesmo”, apesar desta definição, está ainda sob a égide do Geral, que no entanto não é concebido exactamente como um absoluto abstracto, mas como a “contradição existente”, que se pode entender como o Ser do valor. Para o pensamento positivista de Bönold, porém, uma “contradição existente” já é em si obviamente uma “impossibilidade lógica”, mesmo no sentido universalista de Hegel. Quando agora a teoria da dissociação-valor, indo além da concepção dialéctica de Marx (ela própria já trivializada e positivistamente retorcida no marxismo), através do conceito de dissociação vira novamente o paradoxo real já virado “materialistamente” no conceito de valor e de capital, então esta potenciação da contradição perfaz uma impossibilidade por assim dizer potenciada para a consciência positivista.

 

Igual originalidade e sujeito “autónomo”

Este pensamento de lógica formal, naturalmente, também não lida bem com a definição de uma “igual originalidade” de valor e dissociação, que resulta exactamente da dialéctica da “contradição existente”. Bönold escreve: “A relação entre valor e dissociação permanece pouco clara, porque o processo de dissociação (na psicanálise) pressupõe algo que se dissocia, assim conferindo ao feminino dissociado o estatuto de mero objecto. Isto é contrário (logicamente) à hipótese de igual originalidade e supõe afinal um ‘bom sujeito original’ (...), que seria de preservar. Que estatuto tem então verdadeiramente o dissociado?” (Bönold, 2008 b).

A confusão desses argumentos é difícil de superar, como já se vê no conceito de sujeito supostamente positivo que na realidade é o adoptado pelo próprio Bönold. De facto, não existe aqui qualquer fundamento primeiro original do sujeito, e só assim se constituem o valor e o sujeito (aparentemente) autónomo que corresponde ao valor, sendo como este estruturalmente conotado como masculino e inerente ao moderno patriarcado produtor de mercadorias. Essa percepção constitui precisamente o essencial da teoria da dissociação-valor. Bönold pergunta-se se essa crítica do sujeito é compatível com a referência a Adorno, pois este “não (gostaria de) negar a dicotomia sujeito-objecto, mas sim de eliminar a dominância do sujeito ou a hierarquia para com o objecto” (Bönold, 2008 b). O assumir da abordagem de Adorno da crítica do sujeito, porém, não impede dogmaticamente o seu desenvolvimento crítico. Nas reflexões de Adorno na Dialética Negativa sobre a tensão de um sujeito por ele redefinido e já não “autónomo” não vejo a sapiência da última palavra; elas pertencem a um certo tempo e, tal como em relação a essa realidade passada, também é preciso ir além da sua consciência teórica e do seu método. Isto também significa que não pode ser mantida qualquer relação sujeito-objecto em última instância ontológica; nesta conclusão (ao contrário do que supõe Bönold) estou completamente de acordo com Robert Kurz. Em minha opinião, não se pode antecipar hoje como irá parecer tal modo de pensar. Para chegar lá, no entanto – e aqui novamente com Adorno – é fundamentalmente necessária uma “(...) posição crítica para com a ciência” (Bönold, 2008 b) que ultrapasse o zelo positivista académico e as chatas rotinas do pensamento, coisa que no entanto mais uma vez obviamente não agrada a Bönold.

No que respeita a uma crítica mais ampla do sujeito “autónomo”, também nos textos originais pós-modernos ou pós-estruturalistas assoma perfeitamente o reconhecimento da sua existência não autónoma, pelo menos fenomenologicamente, embora eles não medeiem a relação de género com a relação de valor e nessa medida continuem deficitários relativamente ao todo social. É o caso de Judith Butler: “Em certo sentido, o sujeito constitui-se através de um processo de exclusão e diferenciação, possivelmente também de repressão, que em seguida é disfarçado e encoberto pelo efeito da autonomia. Nesse sentido, a autonomia representa a consequência lógica duma dependência disfarçada. Isto indica que o sujeito autónomo só pode manter a ilusão de autonomia na medida em que encobre a ruptura a partir da qual se constitui” (Butler, 1993, p. 44).

Tais formulações caíram entretanto em grande parte no esquecimento no caso de muitos/as seguidores/as destas teorias; nisto Bönold não está sozinho. Se nas décadas de 1980 e 1990 ainda era considerado como assente por muitas esquerdas, não em último lugar tendo como pano de fundo as hipóteses (culturalistamente redutoras) de Butler entre outros, que tais percepções abalavam fortemente o vigoroso sujeito, hoje vejo nas discussões muitas vezes uma certa reviravolta na argumentação. Este sujeito já não se sente agora particularmente abalado, agarra-se (novamente) aliviado a operações de lógica formal, ou seja, a um pensamento contra o qual outrora alinharam tanto a teoria crítica como também de outro modo o pós-estruturalismo (eu bem sei que há “muitos”).

Ouve-se então a questão virada contra a crítica da dissociação-valor (como acima em Bönold): Será possível representar a dissociação de forma independente do valor? Se isso não for possível e a inversa for verdadeira, ou seja, se o valor puder de facto ser pensado sem a dissociação, mas não a dissociação sem o valor, não se seguirá daqui “logicamente” que o valor é o primeiro e a dissociação algo de secundário, no fundo um mero derivado? Maravilha: se o valor e o sujeito só existem porque não conhecem os seus próprios pressupostos e se pertence necessariamente à subjectividade não os conhecer, então, do ponto de vista da lógica da exposição não pode ser de outra maneira: o sujeito ou o valor tem de surgir como o primeiro. Aqui se confunde a lógica da exposição universalista androcêntrica (ou o pensamento não-crítico desta maneira de pensar) com a lógica estrutural real e com o conteúdo (uma vez que este “Outro” já está sempre para além do Material), precisamente porque o valor e o sujeito, os quais na sua constituição correspondem ambos ao desenvolvimento capitalista, não poderiam sequer existir em geral sem o que é o seu Outro e a dissociação. No entanto, através de uma operação de lógica formal que falha completamente o objecto, uma pessoa já se imagina outra vez para lá do velho “descentramento” do sujeito e encontrou agora uma via “racional” para finalmente deixar que o valor e o velho sujeito voltem a surgir com um novo brilho, como um Hércules de feira com o peito inchado e fortes bíceps. Ah, e volta-se mais uma vez a dar bicadas com o pensamento lógico na mulher estúpida (e nos estúpidos “outros Outros”)!

Pelo contrário, no processo dialéctico não há “epistemologicamente” por princípio qualquer espécie de todo que se pudesse fraccionar e voltar a unir inteiro e restabelecido, como Bönold me imputa, porque a dialéctica já parte sempre de uma unidade contraditória do todo. É fundamental para nós que a partir desta perspectiva resulta uma “igual originalidade” que não pode ser analisada com hierarquia causal. Isso é o que parece apenas a um pensamento que se mantém preso nesta estrutura. O facto de ao feminino apenas ser reconhecido o estatuto de objecto é que constitui exactamente essa estrutura e assim – se se quiser – a miséria do sujeito, na verdade dependente, mas que se imagina autónomo. O valor como contradição em processo está assim fortemente dependente da dissociação do feminino e por isso a dissociação é completamente diferente de algo pendurado de modo meramente externo no valor.

 

Falsa historicização e falsa ontologização

Se há dificuldade com a dialéctica, é preciso construir uma “clareza” definidora positivista, não só no aspecto lógico, mas também no histórico (a qual depois é novamente resolvida nas teorias pós-modernas em “contingência” e “ambivalência”, apenas no plano superficial fenomenológico, sem perceber a contradição interna da relação subjacente; ver abaixo com mais detalhe). O conceito da relação assimétrica de género e particularmente do patriarcado é assim reduzido às condições pré-modernas. Assim se volta novamente às posições do antigo marxismo no que respeita à relação de género, como é o caso da formulação de Natasha Wilting na revista “Bahamas” contra a teoria da dissociação-valor: “Considerar isso como aditamento ‘não dogmático’ à crítica do valor levanta dúvidas sobre a capacidade lógica elementar desses críticos do valor (...) O valor, como não-objectividade par excellence, como forma em processamento imaterial, por um lado, coloca-se em oposição a todas as formas pré-encontradas de socialização e de modos de vida, de que ele se apropria e que acaba por dissolver; por outro lado, justamente por causa do seu vazio constitutivo, ele precisa de um material onde possa ilustrar-se ou representar-se em termos “de conteúdo”; onde esse material não está à sua disposição como produto grátis, ele estabelece-o fora de si. Então acontece que fenómenos arcaicos, na verdade há muito tempo extintos, são continuamente ressuscitados para uma segunda vida zombie no meio da civilização moderna” (Wilting citada em Scheit, nota da p. 540 s.).

O que Bönold intenta apenas indirectamente com os seus constructos sobre alegadas incoerências de lógica formal, nomeadamente, em última análise, a subordinação lógica dedutiva da assimetria sexual ao valor, é aqui promovido de forma bastante aberta a falsa historicização: a relação de género assimétrica, por mim entendida como relação de dissociação especificamente moderna (justamente em contraste com as formas pré-modernas de patriarcado), deve agora ser um “fenómeno arcaico”, um mero remanescente de tempos passados, que apenas se manteve um pouco mais. O valor e o trabalho abstracto mais uma vez aparecem sexualmente neutros de todo, como de costume, e são vistos implicitamente no contexto da habitual metafísica iluminista “anti-alemã” do progresso: no “vazio constitutivo” do valor, o patriarcado não estará objectivado, mas já progressivamente superado, e seria devido apenas a uma formação de reacção regressiva (principalmente ideológica) a esse “vazio” que os “fenómenos” patriarcais, sexistas etc. seriam “ressuscitados para uma segunda vida zombie”. A dissociação sexual, como momento específico da estrutura de reprodução especificamente capitalista, é ocultada e mergulhada pelo menos potencial ou tendencialmente na socialização total universalista do valor, que apenas teria de ser promovida positivamente para além de si mesma.

Precisamente ao contrário procede uma polémica com a teoria da dissociação-valor que se apresenta menos como crítica do que como usurpação universalista androcêntrica; é o caso de Ernst Lohoff no seu artigo Sem ponto fixo (Krisis 30). Ao contrário de Wilting, o conceito de dissociação é assumido (“naturalmente”, sem qualquer referência bibliográfica à teoria subjacente; Lohoff é sempre ele o inventor de tudo), mas, tal como no caso de Bönold, reduzido à “relação de subordinação” ao valor e ao sujeito correspondente. A “acção do sujeito” é posta em marcha pelo facto de que “... cada acção e cada comportamento cuja submissão à forma de sujeito é bloqueada são constantemente rebaixados a algo marginal, inferior e inessencial. Mesmo o que é indispensável para a continuação da existência de qualquer (!) sociedade é expulso para o ‘meramente privado’ e já por isso tratado como inferior” (Lohoff, 2006, 35).

Tal como acontece com Bönold, permanece implícita a auto-magnificência do valor, na medida em que fica escondida a dependência da socialização do valor relativamente ao seu “Outro” e só se vê a hierarquização na lógica formal. Mas, enquanto em Wilting este “Outro” da dissociação surge no elenco masculino da hierarquia como um simples remanescente de um arcaico mobilizado regressivamente, portanto negativamente, mas não como o reverso do próprio valor, no caso de Lohoff ele figura no elenco feminino subordinado como “o bom” sensível, portanto como positivo, e é ontologizado em conformidade como algo “indispensável” para a existência de “qualquer” sociedade (ou seja, sempre), que é constantemente degradado e rebaixado etc. pelo valor: “A depreciação de facto vai até à não-percepção e atinge em primeiro lugar as actividades desqualificadas como tipicamente femininas e assim tornadas ‘invisíveis’” (ibid., 35 ss.).

Lohoff usurpou a teoria da dissociação-valor só superficialmente, mas interpretou-a completamente mal no seu conteúdo. Não há aqui nenhuma determinação ontológica, mas apenas a relação histórica específica de dissociação-valor, como conceito do moderno patriarcado produtor de mercadorias. Correspondentemente, a dissociação, como o “Outro” do valor, não constitui de modo nenhum uma ocupação positiva, nem certamente um “bem” ontológico ou o “eterno feminino”, mas é tão negativa como o próprio valor, enquanto seu reverso. Portanto, não existe aqui qualquer base ontológica de sensualidade submetida para “salvar”, pelo contrário, valor e dissociação, como as duas faces da mesma moeda, são para rejeitar e abolir igualmente os dois – incluindo a respectiva afirmação positivamente identitária (portanto também do feminino). Os cumprimentos duvidosos de Lohoff ao “bom” feminino ontológico não passam de fantasias (masculinas), por exemplo relativamente a uma maternidade mitologizada. Se Lohoff reduz a dissociação a uma “depreciação da acção quotidiana que é incompatível com a forma de sujeito” (ibid., 36), ele inscreve-se de certo modo como homem de classe média “transformado em dona de casa” (Claudia von Werlhof), que agora espera poder pôr de lado a forma de sujeito como quem tira uma gravata, na medida em que revaloriza a “acção do quotidiano”. No entanto já aqui se mostra, precisamente nisso, que ele apenas gostaria de manter a supremacia, na medida em que assume o ceptro de forma perfeitamente masculina tradicional no dissociado usurpado e positivado e monta o verdadeiro “departamento criativo” (já como “definidor de conceitos” tão formalmente lógicos como equivocados). O que tem muito pouco a ver com a emancipação da relação de dissociação-valor.

Seja de modo “arcaico” ou “ontológico”, seja com sinais negativos ou positivos, no conjunto Lohoff e Wilting, apesar da oposição recíproca das respectivas abordagens, não se afastam entre si nem de Bönold, porque o denominador comum é a colocação do valor como “o primeiro” e a reprodução conceptual mental da hierarquização de género. Um ponto essencial aqui é a redução do conceito de dissociação a determinadas “actividades” ou, como no caso de Bönold acima, a um “resto”, assim se dizendo desde logo que o “autêntico” seria algo diferente.

 

Dissociação-valor como conceito da totalidade

Decisivo para entender é também o estatuto real e conceptual da dissociação em relação ao todo social e à sua repartição em diferentes “esferas”, domínios da reprodução ou sistemas parciais/subsistemas, como se exprime concretamente, por exemplo, na teoria dos sistemas. Ora tal como a “dominância” do valor é (mal) compreendida superficialmente como redução da relação de dissociação a um “resto”, e a “definição” de lógica formal igualmente superficial é (mal) compreendida como resultado de uma relação de derivação, assim também por maioria de razão a alegada atribuição do “feminino” a uma “esfera” totalmente diferenciada da sociedade, a uma área separada ou a um “subsistema” no mesmo sentido deveria ser considerada como outra “prova” de que o dissociado, de qualquer maneira, não passa de algo secundário e parcial, enquanto apenas o valor brilha como conceito do todo. Assim afirma Bönold sobre a teoria da dissociação-valor: “A génese histórica é tratada como separação de esferas (...)” (Bönold 2008 a) e chega-se quase ao ponto de “procurar” a definição do dissociado “em diferentes formas de actividade e ‘esferas’ daí resultantes” (ibid.).

Ora, no meu livro sobre o género, em contraste com publicações anteriores (Scholz, 1991), procurei mostrar que o ponto de partida fundamental para a crítica da dissociação-valor simplesmente não consiste num ponto de vista de teoria da diferenciação. A chamada separação de esferas da modernidade, numa esfera pública e noutra privada, é à partida conceptualmente secundária, ainda que esta definição tenha inicialmente desempenhado um papel mais importante, para se conseguir a aproximação ao conceito de dissociação. Sem dúvida é um facto que a sociedade da dissociação- valor se diferenciou em esferas, embora isso não deva ser compreendido no entendimento positivista reificado da teoria dos sistemas. E não há dúvida que algumas actividades reprodutivas conotadas como especificamente femininas estão localizadas na chamada esfera privada. No entanto, não é isso que determina o CONCEITO de dissociação. Reduzir a dissociação a uma esfera particular implica, além disso, um modo de proceder positivista, como de resto se pode ver também imanentemente no entendimento do valor do marxismo vulgar, quando o valor é reduzido economistamente à “esfera económica”.

No meu livro sobre o género pus a claro que a dissociação não “reside” apenas na esfera privada, o que continua a ser largamente ignorado por Bönold e não só. Pelo contrário, a dissociação-valor constitui um princípio fundamental abrangente que atravessa todas as esferas, ou seja, tanto a esfera privada como as várias esferas públicas. Portanto ela continua a manifestar-se, mesmo se as mulheres há muito tempo deixaram de se limitar a ficar fixadas simplesmente ao domínio da reprodução, sendo hoje, em contraste com a fase fordista, “duplamente socializadas” (Regina Becker-Schmidt) e desenvolvendo processos de individualização (ver abaixo). Isso não significa, no entanto, qualquer nivelamento da assimetria sexual; como já indica a expressão “dupla socialização”, as mulheres são individualizadas de forma bem diferente dos homens. O facto de o capitalismo ter constituído o “trabalho” como uma “esfera realmente abstracta” separada (como diz Robert Kurz na sequência de Polanyi) não coloca contradição absolutamente nenhuma. Tal como o trabalho abstracto não pode ser entendido como “campo viável” isolado, o mesmo se passa com a dissociação. No entanto, verifica-se repetidamente nas discussões que essa redução a uma esfera particular não passa de um estereótipo, precisamente porque o pensamento positivista só consegue perceber as esferas funcionais relacionadas exteriormente umas com as outras e perante as altas árvores deixa de ver a floresta da conexão interna, e portanto também qualquer princípio social fundamental abrangente. Voltaremos a este problema mais de uma vez.

O equívoco reducionista reflecte-se em Bönold também no facto de que, para ele, só é possível definir o papel de certas actividades das mulheres na ordem simbólica do patriarcado ou até nos processos típicos (?) de socialização quando se “relacionam directamente com o mercado e com o Estado” (Bönold, 2008 a). Porque há-de isso ser assim permanece um segredo seu e uma mera afirmação. Tal como já no caso do entendimento de “dominância” e no da “lógica da definição” formal, também aqui mais uma vez se supõe que mercado e Estado subsistem por si, enquanto a dissociação apenas poderia aparecer “em relação” com o mercado e o Estado. Pelo contrário, o facto é que também mercado e Estado se relacionam com a relação de dissociação per se invisível, na medida em que esta, por seu lado, também chega às suas “particularidades”, ocorrendo nestas esferas, de certa maneira, uma formação secundária, que só se pode explicar se a dissociação-valor for compreendida como princípio fundamental, que também se expressa nas esferas do mercado e do Estado, embora de modo diferente do da esfera privada ou de outros “domínios”.

Ao contrário das interpretações persistentemente repetidas, a dissociação-valor não constitui qualquer conceito de diferenciação, mas sim um conceito da totalidade, conceito este tornado anátema nas últimas décadas no contexto pós-moderno. Sem um conceito de totalidade, no entanto, não é possível entender criticamente o todo. O que constitui decididamente a teoria da dissociação-valor é que ela trata do todo e determina a relação de género ao mesmo nível de abstracção que o valor. Trata-se aqui, no entanto, de um conceito de “totalidade concreta”, já defendido por Lukács e Adorno contra um marxismo positivista, ou seja, de um entendimento da totalidade já não puramente dedutivo, sendo que, no entanto, para lá de Lukács e Adorno, a definição abstracta já não é universalista, mas sim fragmentária em si no sentido da dissociação-valor. Isto leva-nos à crítica de Adorno da lógica da identidade, que a este respeito também deverá ser reformulada.

 

O não-idêntico e a lógica da dissociação-valor

Da definição conceptual de dissociação-valor em termos de uma “contradição existente” que vá para além da dialéctica de Hegel e de Marx, segue-se também que ela não é de modo algum equiparável ao “não-idêntico” de Adorno. O facto de essa diferenciação feita por mim provocar irritações parte possivelmente da intenção mais ou menos inconsciente de que a dissociação do “feminino”, conceptualmente estrangulada e no sentido duma dialéctica marxista tradicional, deveria ser de novo deportada para o reino do não-essencial, meramente particular e colateral, onde ela na verdade pertence segundo esse entendimento. Em vez disso, a dissociação(-valor) – ceterum censeo – é pelo contrário uma estrutura basilar, uma lógica na dimensão processual, mesmo se nas atribuições a “a mulher” se mostra aquilo que representa estupidez e irracionalidade para um modo de conhecimento matemático formal, ou seja, que constitui uma pedra no sapato para a feitura da ordem formal.

Para Bönold a diferença entre dissociação e não-idêntico, devido ao seu mau entendimento e ao seu reducionismo já expostos, é mais uma vez incompreensível; na sua opinião, a minha argumentação sobre isto limita-se à “informação” lapidar de que os dois seriam simplesmente “não sinónimos” (Bönold, 2008 b). Da minha exposição, porém, ressalta uma fundamentação clara: a dissociação não é simplesmente o não-idêntico, nem tão-pouco pode representar qualquer espécie de “resto não reificável”, porque é justamente o reverso do valor, ou seja, é o próprio princípio fundamental da socialização do valor e não algo exteriormente não-idêntico ao conceito no sentido de Adorno. Isto implica, contudo, também um conceito modificado de identidade e não identidade. A crítica da lógica da identidade e o recurso ao não-idêntico pressupõe também em Adorno, mesmo na crítica, uma universalidade abstracta do valor (em todo o caso determinada negativamente), ainda que esta seja pensada como fragmentária. Esta reprodução conceptual, precisamente na medida em que o é, tem no entanto necessariamente um ponto cego na percepção da realidade, porque pressupõe a dissociação e, portanto, também reproduz a sua obnubilação. Se não se reflecte sobre este contexto, tal obnubilação no plano conceptual ameaça a insinuar-se também na crítica.

Por isso defendi já no meu livro sobre o género, contra uma posição de crítica da identidade meramente formal de Becker-Schmidt/Knapp nas décadas de 1980 e 1990, que “... não se pode evitar a impressão de que a insistência de Adorno na ‘não identidade’ (...) é sociologicamente degradada e transformada na constatação em todo o caso banal de que já é sempre tudo diferente e altamente contraditório, distinguindo-se sempre um dos outros, o que em última análise tem por consequência uma infinda enumeração (por exemplo, de diferentes mulheres e grupos de mulheres) (...). Essa crítica, portanto, é utilizada não só como certificado de inocência de uma arte de saltimbanco da diferença e da ‘diferenciação’, no fundo positivista, mas quase não se pode evitar a impressão de que ela tem de servir para racionalizar uma exaltação obsessiva da exactidão, que se esforça por ir mesmo além dos padrões habituais do trabalho científico (...) Precisamente o tema ‘especial’ da relação de género, que além disso também é uma relação social fundamental, precisaria agora ele próprio de um ‘conceito’ num plano teórico perfeitamente fundamental, pois significativamente tem sido aplicado apenas a essa relação e ao ‘feminino’ como ‘domínio obscuro’, que tem existido quase por oposição dualista ao conceptual (...)” (Scholz 2000, p. 66 e ss).

Aqui nos confrontamos novamente com o problema fundamental de que é preciso agarrar conceptualmente também o próprio não-conceptual da dissociação no pensamento androcentricamente universalista, precisamente porque não representa qualquer “resto”, constituindo pelo contrário um princípio basilar em correspondência com (e não em subsunção a) o valor; mas, com uma elaboração conceptual que rompe com o horizonte conceptual androcentricamente universalista e, portanto, também enquanto duplicação do princípio basilar da forma como princípio em si fragmentário (valor e dissociação), por assim dizer também a crítica da lógica da identidade tem de ser duplicada – ou seja, o seu próprio conceito não pode ser entendido no sentido da velha dominância do conceito. É isso que quer dizer ir com Adorno para além de Adorno. Daí que eu tenha escrito no livro sobre o género: “Torna-se necessária uma elaboração conceptual basilar como a da forma da dissociação-valor, que seja capaz de apreender mesmo este não conceptual e simultaneamente conheça os seus próprios limites (...) e que assim também consiga chegar às contradições da situação pós-moderna das mulheres (e às correspondentes estruturas) através da historicização” (Scholz, 2000, p. 66 e ss.)

Assim, como que num segundo passo, o não-idêntico de Adorno entra novamente em jogo também contra o conceito de dissociação, tal como ele está contido na caixa de Pandora desta teoria. Aqui a “crítica do valor” tem de se modificar e assumir uma qualidade completamente nova; não só no que respeita à decifração da relação de valor como simultânea e co-original relação de dissociação, mas também no sentido de que o entendimento da dissociação-valor como lógica fundamental por sua vez não pode ficar em si mesmo como um “sistema fechado” simplesmente alargado, pelo contrário, tem de dar seguimento também àquilo que o seu conceito não “consente” directamente. Foi isso que tentei mostrar no meu livro sobre o género. No entanto, na ausência do conceito do que é tornado não conceptual neste sentido pela relação de dissociação, então a consequência é essa degradação acima esboçada da crítica da identidade, que no seu modo de proceder formal já não constrói qualquer referência a um princípio social fundamental ou ao todo social e, portanto, dissolve também as questões de género em meras determinações empírico-sociológicas. Sem surpresa, este contexto por maioria de razão constitui para Bönold uma exigência excessiva, de tal modo que no seu caso nem consegue ser tematizado como tal, mas surge apenas indirectamente.

Pelo contrário, incluir o não-idêntico ao conceito contra o próprio conceito de dissociação-valor significa: se a crítica da dissociação-valor é forçada a pensar contra si mesma e, contra um (mau) entendimento universalista, se desmente a si mesma, então ela tem de dar seguimento igualmente a outras disparidades sócio-económicas, bem como a padrões ideológicos como o anti-semitismo, o racismo e o anticiganismo, como temas para “levar particularmente a sério”, ou seja: estes não podem ser derivados da dissociação, tal como a dissociação não pode ser derivada do valor, mas também aqui é preciso fazer valer uma pesada dialéctica negativa (ver em detalhe Scholz, 2005). Além disso, a crítica da dissociação-valor, colocando em questão dialéctica e negativamente de certa maneira a partir do seu interior tanto um pensamento de lógica formal positivista como um pensamento coberto com o universalismo, tem de procurar fazer justiça POR PRINCÍPIO sempre à própria “coisa”. Isso significa agrupar os conceitos em constelação em torno da coisa, para pretender a qualidade própria da coisa, o que não tem nada em comum com um procedimento de lógica formal, nem com um procedimento vitalista que abandona completamente o conceito.

Mesmo o “indivíduo não é o último”, como diz Adorno (Adorno, 1966, p. 165). Isso representa uma complexidade ainda maior: “Aquilo que no não-idêntico não pode ser definido em seu conceito excede seu ser-aí singular no qual ele não se concentra senão na polaridade em relação ao conceito, tendendo em direcção a ele. O interior do não-idêntico é a relação com aquilo que ele mesmo não é e que lhe recusa a sua identidade arranjada, cristalizada, consigo mesmo. Ele só se alcança a si mesmo na exteriorização, não em sua cristalização; isso ainda precisa ser aprendido com Hegel, sem fazer concessão aos momentos repressivos da sua doutrina da exteriorização. O objecto abre-se para uma insistência monadológica que é consciência da constelação na qual ele se encontra: a possibilidade de uma imersão no interior necessita desse exterior. (Adorno, 1966, p. 165). [2009, p. 141]

É precisamente nestes termos que a crítica da dissociação-valor tem de se desmentir como afirmação dum princípio social fundamental, no sentido de um “primeiro”, no entanto também tendo igualmente de persistir com veemência em si mesma, nomeadamente como objecto na verdade particular, que no entanto ao mesmo tempo apresenta um carácter de generalidade no sentido de um princípio fundamental, sobre o qual ainda assim nada deve nem pretende ser conhecido. Consciente da própria limitação, ela deve ainda assim expressar-se em voz alta e não ficar embotada com a “censura” (Jessica Benjamin), como uma orientação dominante queer ou de género que, à sombra do empreendimento académico, faz o obséquio de apanhar o que vem à rede modesta e insignificantemente (v. de certo modo semelhante Soiland 2003, p. 167). Caso contrário derreter-se-ia até mesmo o seu “carácter especial”, a sua própria qualidade, em prol de uma visão redutora e simples de “não-identidade”. Na indiferenciação ela seria apenas um dos múltiplos muitos, os quais estão todos apenas lado a lado. No entanto, assim já não teria lugar qualquer outro, enquanto dialéctica e negativamente Outro, independente, mas sem o qual ela própria não poderia mesmo existir de qualquer maneira. Deste modo também se aplica à teoria da dissociação-valor que não há idêntico sem não-idêntico, ao qual tem de ser dado seguimento incondicionalmente, como autónomo. Em contraste com a crítica “convencional” da troca, ou do valor, a crítica da dissociação-valor está impedida de permanecer em si e de se posicionar a si mesma como “primeira”. Mais tarde voltarei novamente à importância de pensar em constelação no sentido da crítica da dissociação-valor.

 

Princípio social fundamental e diferenças

Assim chegamos também ao problema que representa para a crítica da dissociação-valor a relação entre o conceito (de um princípio fundamental) e as famosas diferenças que nele não são absorvidas. Também aqui a crítica de Bönold se desmorona completamente na sua argumentação. Por um lado, ele até tenta tornar plausível a teoria da dissociação-valor, através de uma abordagem positivista que está exactamente na tradição de lógica formal especialmente visada pela crítica desta teoria. Naturalmente que isso nunca pode ser conseguido, de modo que Bönold também julga descobrir montes de absurdos e contradições. Basicamente, ele censura ao conceito de dissociação-valor não ser compatível com o entendimento do conceito universalista androcêntrico tornado positivista no seu desenvolvimento e, por assim dizer, não ser suficientemente “conceptual” de acordo com a corporação, ou seja, por lhe faltar exactamente aquela generalidade abstracta que é precisamente o objecto da crítica.

Por outro lado, ele também procede exactamente em sentido inverso, na medida em que, relativamente ao concreto, ao diferente, censura de certo modo o conceito de dissociação-valor por ser “demasiado” conceptual e operar ele próprio na lógica da subsunção. Atrás disto esconde-se naturalmente um pensamento que vê como “arrogância” atribuir um conceito sui generis ao que foi tornado não conceptual na relação de dissociação. Ele tem o mesmo problema já acima identificado na posição de Becker-Schmidt/Knapp, por exemplo, quando compara “sexualidades no plural,” “diferenças ou hierarquias entre as mulheres e entre os homens” e um entendimento da história como uma lista de “factos” (Bönold 2008 a) com uma visão da dissociação-valor como princípio fundamental em processo histórico. Uma vez que ele aqui subitamente já não quer saber para nada do conceito de totalidade, falta-lhe a si mesmo o carácter persuasivo de lógica formal que exige de mim presunçosamente. Ele tem “aqui” uma estrutura geral que reclama que seja determinada como sempre de modo formalmente definidor e que “aí” os “múltiplos” muitos sejam determinados como sempre, enquanto o contexto de mediação fica completamente no escuro.

A partir do “entendimento metódico” peculiarmente abstracto de Bönold deveria seguir-se que um “plural” de dissociações, homens, mulheres, sexos, etc. para começar tivesse “logicamente” como pressuposto a sua definição geral, antes que então, no seu pensamento típico e de certo modo no nível da classificação dos insectos, os pudesse voltar a diferenciar em “muitos”, encontrando os correspondentes “conceitos”! Na medida em que ele não percebe a outra definição do conceito de dissociação, não de lógica formal mas dialéctica, pretendendo no entanto, por outro lado, levar em conta o “diferente”, sem contudo conseguir percebê-lo em sua referência a um princípio fundamental, ele cai na falsa imediatidade. Uma vez que ele não consegue perceber o seu fundo positivista e simultaneamente insiste num “mandamento de multiplicidade” pós-moderno e a meu ver também insiste numa “proibição da realidade” relativamente ao todo social, o que inevitavelmente tem por consequência uma certa confusão, perante a sua crítica lembramo-nos involuntariamente do título de um livro de sucesso que expressa bem essa confusão: Quem sou eu e, se sou, quantos? (Richard David Precht).

Tanto quanto Bönold se lembra de um princípio social fundamental, ele pensa no valor como “marxista” (positivista) que é, para quem a dissociação parece sobretudo pavorosa e “ilógica”. No que diz respeito às diferenças, ele transforma-se num alegre “pós-moderno”, que também já não quer saber muito do valor abstracto para nada. Enquanto a teoria da dissociação-valor persiste no seu conceito e ao mesmo tempo (um paradoxo para o pensamento da lógica formal) se desmente a si mesma, uma vez que relaciona com ele o diferente sem ser numa lógica de subsunção, reconhecendo-o na sua própria particularidade, Bönold “esquece” o seu próprio conceito universalista do todo e imputa-lhe uma suposta anterioridade “lógica” face ao múltiplo, ao particular etc., sem ter em conta o conteúdo concreto, que no entanto é o que importa em primeiro lugar à crítica da dissociação-valor.

Em vez disso Bönold cai por sua vez na hipostasiação positivista da diferença que se pode encontrar em muitas teorias pós-modernas e que eu tinha criticado no meu livro sobre o género. Pois, como eu tinha escrito, acontece especialmente na pós-modernidade que “... a ideia do individual, do particular e do diferente fica novamente sob a égide do laço conceptual geral do cultural. Ao contrário dos modos de proceder do ‘velho positivismo’, que promovem uma equiparação do diferente na estandardização, (...) na visão pós-moderna o individual, o particular e o diferente tornam-se o ponto de partida calculadamente empírico da elaboração teórica culturalmente monista em si e para si. Poderíamos falar de um quase ‘positivismo da diferença’ pós-moderno, que renuncia às classificações e, em vez disso, tem prazer no registo das diferenças e/ou no “olhar” do individual/particular. Procura-se aqui expulsar o denominador comum abstracto tal, como antes se procurava expulsar a diferença nas posições positivistas clássicas. Desde meados da década de 1980, (...) no feminismo essa tensão tem sido mais claramente resolvida a favor da diferença. Após um período de generalização da hipótese de uma submissão universal e da tese oposta que repentinamente se seguiu de uma situação específica das mulheres de acordo com o contexto (cultural), que negava estritamente à partida de forma apodíctica qualquer possível comunidade, a meu ver existe hoje a possibilidade (e também a necessidade) de ter em consideração e fazer valer imparcialmente na sua tensão tanto as coisas comuns como as diferenças” (Scholz, 2000, p. 145).

Logo que Bönold faz valer as diferenças contra mim e na circunstância abruptamente posiciona como referência teorias pós-modernas/pós-estruturalistas, de repente para ele já não existe qualquer forma social fundamental em geral, e muito menos com referência de género, mas apenas vulgares sujeitos civis da negociação que fazem eles próprios interactivamente a sua sociedade na unilateralidade não dialéctica. O género aqui é em primeira linha “uma práxis de indivíduos modernos” (Bönold, 2008 a). Assim “desconceptualizado” Bönold pretende ter morto dois coelhos com uma cajadada só: de acordo com o seu entendimento universalista androcêntrico, que espreita em fundo, são supostamente revelados os limites do conceito de dissociação, conseguindo ele simultaneamente, por outro lado, alistar-se no navio pós-moderno e imaginar que assim mete tudo no saco, a estrutura e a acção em igual medida, e que no fundo está acima de tudo, quando se limita a manifestar a sua confusão.

De resto ele nem sequer está ao nível da literatura relevante sobre o tema, mas já um pouco atrás no tempo. A hipostasiação da diferença por ele infatigavelmente explorada há muito que vem sendo posta em questão em publicações feministas como Descentrado e arriscando muito (Knapp, 2001), Mão no coração desconstruído (Koppert/Selders, 2003), Diferenças entre mulheres. Para a determinação da posição e a crítica do feminismo pós-moderno (Sommerbauer, 2003), entre outras. Há muito tempo que se está novamente a tentar juntar marxismo e feminismo. Sobre isso Bönold não diz uma palavra, porque estas reflexões em sentido contrário não se encaixam no plano da sua esforçada crítica da teoria da dissociação-valor.

 

A ausência do conceito de dissociação-valor na teoria feminista

No plano conceptual, a teoria da dissociação-valor critica as posições feministas porque e na medida em que elas não determinam a relação de género ao nível do princípio social fundamental. Isto aplica-se de diferentes modos, tanto ao marxo-feminismo da década de 1970, quanto às teorias pós-modernas/pós-estruturalistas, como se viu. Ao mesmo tempo, no entanto, refiro-me evidentemente aos estudos feministas. Para Bönold isso já é mais uma contradição lógica; o “recurso ao feminismo” seria “em qualquer caso incompreensível” porque “o termo (dissociação, R.S.) também aí surge apenas marginalmente, não é central” (Bönold, 2008 b) e não seria possível encontrá-lo em enciclopédias relevantes ou livros introdutórios. Será este um critério?

Na minha opinião, no entanto, os resultados dos estudos feministas (pelo menos na medida em que assim possam ser designados e não se tenham transformado em estudos de género muito conciliadores com a situação sobre múltiplas/os mulheres-homens-sexos) apontam gritantemente no sentido de fazer do conceito de dissociação o conceito nuclear ou essencial. Os “exemplos” seriam tantos que aqui só difícil e rebuscadamente poderiam ser considerados argumentos contrários. É o caso quando Bönold pensa poder jogar contra o conceito de dissociação “o conceito de abjecção” (usado, por exemplo, por Kristeva e Butler) (Bönold, 2008 b), ou seja, pensa poder jogar rabulisticamente o “rejeitado” contra o conceito de dissociação. De certo ponto de vista, o “rejeitado” significa algo muito semelhante, ainda que num contexto limitado. O facto de aqui haver, por assim dizer, sinónimos espontâneos no âmbito de vários estudos aponta justamente para a situação de há muito tardar um conceito sobre o todo, tornado explícito e fundamentado num plano mais elevado de abstracção, quer isso agora agrade ou não ao empreendimento científico actual.

Se esse conceito central de dissociação-valor até agora não aparece nas enciclopédias isso é simplesmente irrelevante. Precisamente porque o contexto assim designado no quadro teórico geral é mais do que óbvio (ou o conceito de dissociação de vez em quando até é pronunciado explicitamente) esta ausência deveria ser vista como falha das enciclopédias, apontando para um enorme ponto cego, em vez de denunciar as teorias originais, que não podem ser responsabilizadas pelo que a scientific community agora aprova ou deixa de aprovar! Assim, é claro que a teoria da dissociação-valor constrói sobre as conclusões e os resultados dos estudos feministas (incluindo académicos), pois não há outros; mas é claro que não pode considerar um trabalho académico entretanto amplamente desdentado e sem graça (precisamente no que respeita aos “estudos de género”) como uma espécie de autoridade papal, de acordo com cuja observação e classificação a sua própria verdade ou falsidade teria de ser avaliada.

O conceito de dissociação-valor representa um hiperconceito que combina diferentes planos e dimensões na sua processualidade (mas simultaneamente também dá seguimento à sua autenticidade). Precisamente porque ele não se mantém por si, mas apenas pode ser pensado na mediação com o conceito de valor, ele vai para além de uma mera pesquisa da diferença (para a qual a linguagem e o discurso, como vazio geral e abstracto, representa de certo modo um substituto da totalidade), vai até ao todo social. Para ele trata-se, portanto, de fazer o famoso esforço do conceito; um esforço que ficou fora de moda perante o pano de fundo do declínio da dialéctica marxiana. Dada a predominância de um “marxismo cultural” em conjunção com o surgimento de teorias pós-modernas e pós-estruturalistas que se tornaram o mainstream, há anos que o pensamento dialéctico representado e reformulado pela teoria da dissociação-valor está sujeito a uma dificuldade de recepção. Torna-se aqui necessária uma crítica a esse mainstream que se anuncia como tudo menos idolatria cientificista.

 

Teoria, empiria e desenvolvimento histórico

A problemática da relação entre princípio social fundamental e diferenças está intimamente relacionada com a da relação entre teoria e empiria, embora seja importante notar que se trata de diferentes planos de abordagem. À semelhança da sua crítica à alegada falta de compreensão das diferenças pela teoria da dissociação-valor, Bönold também me acusa de ser empiricamente “descarnada” ou “não mediada com a realidade” (Bönold, 2008 a). A questão é apenas o que entende ele verdadeiramente por “realidade”. Em todo o caso, os chamados factos também não são reais se forem considerados descontextualizadamente; nesse caso eles são tão irreais como um mero conceito abstracto não mediado. A realidade é apenas o contexto conjunto, não imediatamente perceptível, que também só pode ser captado na reflexão por aproximação.

Ora é bem verdade que uma certa variedade de crítica do valor abstracta e androcêntrica se perde num “vazio matraquear do conceito” (como Bönold me acusa logo a mim, embora isso se aplique antes às suas próprias referências de “crítica do valor”) e coloca um chapéu do valor universalista sobre qualquer tema, independentemente da sua constituição concreta. Mas é precisamente à crítica da dissociação-valor que isto não se aplica, pois contradiz decididamente a sua essência. Ela tem de ser capaz mesmo de se auto-corrigir no confronto com os resultados da pesquisa empírica tomados a sério. Não se trata, porém, de que a teoria esteja unilateralmente submetida ao veredicto da empiria (que deve ser questionada ela própria no seu modo de entender). Trata-se, sim, de verificação e relativização cruzadas. Daí resulta uma insolúvel relação de tensão entre teoria e empiria no conhecimento da realidade, mais ou menos nos termos de Adorno: “(...) é próprio dos projectos (teóricos) que eles não coincidam simplesmente com os resultados da investigação; que se exponham contra estes, ousem ir mais longe, ou então, na linguagem da investigação social, que tendam para generalizações equivocadas. Por isso mesmo (...) foi necessário o desenvolvimento de métodos empírico-sociológicos. Sem esse ousar ir mais longe da especulação, porém, sem o momento inevitável na teoria, esta seria absolutamente impossível” (Adorno, 1995, p. 101).

Com isso também se aborda exactamente o que Adorno entende por “crítica imanente” e Bönold reivindica para si de forma diletantemente confusa, quando me critica sem ter em conta a referida relação de tensão. A invocação ingénua das pesquisas em ciências sociais, particularmente no que diz respeito à diferença de género, deve ser tratada com cautela, pois também aqui é possível uma distorção ideológica da realidade, tal e qual como no apelo ingénuo à pura teoria. Em Bönold está completamente ausente a problematização da ciência positivista dos factos. Em vez disso ele trata os estudos empíricos – ignorando a sua eventual natureza ideológica – como conhecimento já sempre seguramente sem pressupostos, no fundo permitindo-se confundir teoria e empiria.

Trata-se aqui simultaneamente da dimensão processual histórica da dissociação-valor, sendo que a acusação de Bönold a este respeito é de que os desenvolvimentos históricos em termos de “matéria de facto” seriam considerados inadequados, conceptualmente negados ou erroneamente definidos. Quanto a esta problemática, já não é suficiente qualquer discussão abstracta de crítica do conhecimento e de crítica social, mas exige-se a análise histórica concreta, que por sua vez não pode consistir numa acumulação positivista de “factos” descontextualizados. Também aqui é preciso distinguir entre essência e aparência, sendo que a própria essência não deve ser entendida como fixa, mas em processo histórico, a partir dos processos da constituição original.

Com este objectivo há muito existem suficientes estudos, mesmo históricos, sobre os quais se pode basear a teoria da dissociação-valor. Foi o que fiz, como é costume num trabalho científico, com referência entre outros a Heintz/Honegger (1981), ou também a Heidemarie Bennent (1985), a qual prova a culpabilidade dos grandes filósofos na “dissociação do feminino”, e tendo de facto como pano de fundo análises históricas reais. Fundamentei a minha teoria da dissociação-valor precisamente tendo esses trabalhos como referência. É novidade para mim que as investigações citadas teriam de ser repetidas sem fim – agudizadas na polémica – cem mil vezes, como num moinho de orações. Isto significaria rigidez e estagnação eternas na elaboração teórica. O mesmo se diga no caso das enormes “dúvidas empíricas” de Bönold em relação ao dimensionamento histórico da crítica da dissociação-valor. Ele próprio é que tem problemas com determinações e definições rígidas, por um lado, e mudanças sociais, por outro.

Assim também outras mudanças na relação de género até hoje têm de ser entendidas a partir dos mecanismos e estruturas da dissociação-valor em si. Nesta base da dissociação-valor, sobretudo o desenvolvimento das forças produtivas e a dinâmica do mercado (que em si já assentam na dissociação-valor) minam os seus próprios pressupostos, uma vez que as mulheres se afastam em grande parte do seu papel tradicional (cf. Beck, 1986) e agora, na pós-modernidade, a “dupla socialização” já sempre ocorrida torna-se-lhes consciente na sua contradição. A situação da dona de casa da década de 1950 na era fordista é muito diferente da de uma mulher “duplamente socializada”, de facto igualmente responsável pelo trabalho e pela família, como Regina Becker-Schmidt e muitas outras investigadoras nas últimas décadas apuraram em estudos empíricos (ver mais recentemente Gildemeister/Wetterer, 2007). Isto significa que a essência da dissociação-valor também tem de aparecer; não, porém, enquanto fixa, onde apenas a empiria seria acidental, mas dentro e através do processo histórico.

Aqui as mulheres empíricas não podem de facto ser simplesmente equiparadas à dissociação-valor como forma social fundamental, pois trata-se de um plano estrutural abstracto, abrangente e ele próprio em processo. A dissociação-valor aparece igualmente em estruturas sociológicas, em certa medida num plano mais próximo da empiria, assentando o teorema das ciências sociais da “dupla socialização”, em que eu me apoio no meu livro sobre o género, perfeitamente em estudos empíricos, ainda que tal proximidade à empiria da minha parte assim mediada não convenha a Bönold e ele goste de me empurrar simplesmente para a esfera das alturas ou me acuse de distorcer imagens mediáticas equivocadamente levadas a sério.

Mais uma vez, por outras palavras: a dissociação-valor, como princípio social fundamental em processamento histórico, está estabelecida num plano muito abstracto de teoria fundamental, mas a constatação da “dupla socialização” das mulheres (em que se manifesta a natureza da dissociação-valor numa determinada fase histórica) é dimensionada pela estrutura social, tal como a anterior atribuição das mulheres à “casa”; e o caso dos indivíduos isolados empíricos é por sua vez uma outra história, mesmo que não possam escapar à força da gravidade (historicamente variável!) das atribuições de género no contexto da dissociação-valor. Tais determinações diferenciadas na relação entre teoria e empiria relativamente à processualidade histórica constituem um grande problema para Bönold. A dissociação-valor não pode nem quer ser apresentada apenas como um esquema, nem significa qualquer estrutura atemporal, como Bönold gostaria de supor.

Já é preciso olhar obstinadamente para o lado, quase fazer-se de burro, para não ver o facto de serem hoje dominantes a “dupla socialização” das mulheres na mobilidade específica das posições de vida e o modelo de “pequenas actividades autónomas” por conta própria, situação em que também a análise de Schultz (1994), da qual retiro esta definição no meu livro sobre o género, é baseada em estudos sociológicos empíricos. Basta ver hoje o discurso sobre a política da família de von der Leyen, ou a alteração à Lei do Divórcio, em que agora as mulheres serão responsáveis pelo seu próprio sustento após o divórcio. A política, como também a publicidade e os média, têm aqui usado plenamente as descobertas dos estudos sociais (feministas). As mulheres empíricas, hoje, já na sua vida têm de ser em si “múltiplas” e “queer”, o velho modelo de família da mulher dona de casa está obsoleto. É exactamente nisso que se revela a nova face do capitalismo, do patriarcado produtor de mercadorias. Perante este pano de fundo, a questão relativamente a Bönold, que quer jogar as mudanças históricas empíricas contra o conceito de dissociação-valor, é: Quanta perda de realidade pode suportar a elaboração teórica das ciências sociais?, na formulação uma vez adoptada por Wolf Dieter Narr relativamente à hipótese de uma contingência quase ilimitada nas teorias pós-modernas (Narr, 1994).

Neste contexto, eu nunca afirmei que a constituição social e psicológica dos indivíduos (sexualizados) tenha permanecido rígida até à pós-modernidade, pelo contrário, ela tem de ser vista no contexto do desenvolvimento social global, como por exemplo uma melhor formação e empregabilidade das mulheres hoje, o surgimento do ideal das “pequenas actividades autónomas”, a “dupla socialização” da mulher e a sua construção como “pau para toda obra” (2). No meu livro sobre o género expressamente previ que, se a família nuclear muda, também algo terá de mudar nos pressupostos psicossociais. Por exemplo, quando, recorrendo a Kornelia Hauser, falo também de um “código de sentimentos do mesmo sexo” das mulheres na pós-modernidade.

Mas, se nunca afirmei de forma dualista uma rígida sexualidade de dois sexos, logicamente também não se pode chegar à sua inconsequente dissolução por mim na pós-modernidade, como alega Bönold. Em vez disso, tratava-se para mim de saber que mudança sofreram as relações de género no processo histórico da moderna dissociação-valor desde os seus primórdios na época moderna; até precisamente à “dupla socialização” das mulheres, ao risco de os homens “se transformarem em donas de casa”, bem como à decomposição das relações familiares e às correspondentes relações compulsivamente flexíveis no declínio pós-moderno do patriarcado produtor de mercadorias que hoje ocorre em todos os aspectos. Assim, apenas as tendências de individualização pós-moderna e a responsabilidade das mulheres simultaneamente pelo trabalho e pela família “levaram a uma diferenciação do papel feminino (...)” e “a que as mulheres interpretassem as contradições como tais e (se tornasse) possível o discurso da diferença entre mulheres” (Ostner, 1991, p. 202).

O próprio Bönold se torna aqui “empiricamente” a-histórico quando afirma que eu gostaria de “perpetuar acriticamente a tese da desintegração da família” (Bönold, 2008 a), enquanto ele a nega acriticamente. Em que material se baseia ele aqui e a que sociólogos/as se refere, isso ele não se sentiu obrigado a dizer, apesar de todas as outras picuinhices contra mim. De resto eu não reclamei simplesmente o modelo de família nuclear para o mundo inteiro, como Bönold afirma, mas falei, para as condições do chamado Terceiro Mundo, sobre a dissolução das relações familiares alargadas. Esta expressão também podia ser realmente insuficiente, mas na verdade eu não projectei de facto as ideias da dona de casa, do sustento da família e da família nuclear “em todo o mundo” (Bönold, supra; em sentido contrário ver Scholz, 2000, p. 122 e ss.)

Que a dissociação-valor como forma social fundamental seja um processo é o que mais uma vez indica o facto de ela ter de se desenvolver no plano da totalidade concreta. Hoje esse processo culmina com a fantasia da omnipotência “natural” das mulheres na sociedade, por exemplo em Frank Schirrmacher, que assim as vê como mulheres dos escombros (3), capazes de tudo, o que se poderia verificar repetidamente na história, uma vez que as mulheres sempre teriam lidado melhor que os homens com situações extremas e isso ainda seria sempre visível na cobertura social e na responsabilidade social por outras pessoas (cf. Schirrmacher, 2006). Para ele as mulheres não são construídas como donas de casa e mães: “Afirmar que as mulheres têm uma forte competência emocional e, provavelmente, são as fundadoras da nossa comunidade, não quer dizer que isso se aplique sem excepção a todas as indivíduas, nem que as mulheres devam ser forçadas ao papel de mãe (...) Não podemos fazer o tempo andar para trás (...) Investigações dos últimos cinquenta anos (Schirrmacher refere-se às “pesquisas sobre o cérebro”, e também à psicologia evolutiva, à antropologia e à psicologia, R.S.) mostram que as mulheres têm um papel fundamental na preservação das famílias e no desenvolvimento e estabilização de redes de amizade que no futuro tomarão cada vez mais o lugar da família tradicional” (Schirrmacher, 2006, p. 135 sg.). E continua: “O mais tardar até lá (na UE até 2050, R.S.) será exigido das mulheres que façam as duas coisas: fazer crescer o produto social bruto e dotar o país de descendência (...) Mas isso não é suficiente. As jovens mulheres têm de aumentar nas profissões científicas” (Schirrmacher, 2006, 149). Elas devem, portanto, exercer profissões que na história do desenvolvimento foram ocupados pelo sexo masculino e que estão à disposição do talento enfático das mulheres na concorrência. "O caçador”, basicamente o tipo de trabalhador assalariado do sexo masculino, não se tornou de facto supérfluo na sociedade do “mínimo”. No entanto, os filhos “não conseguem o que as filhas conseguem ultimamente: praticamente tudo de uma vez. As filhas podem ser socialmente competentes e ganha-pão” (Schirrmacher, 2006, p. 147 s.).

As mulheres, no fundo, são um paliativo na crise fundamental, podendo aqui supor-se com alguma justificação, portanto, um “modelo unisexo”: as mulheres são homens, apenas diferentes (Thomas Laquer). A apreciação evidente das mulheres hoje, de qualquer forma, deve ser encarada com a máxima desconfiança, não “apenas” por causa da dupla carga, mas também porque todas as estatísticas continuam a documentar como antes a discriminação das mulheres, simultaneamente com a estilização da mulher como super-hipermulher-homem. Assim, o filme aqui é basicamente o sujeito masculino da modernidade, completado com a dimensão social supostamente feminina. Nessa medida, a diferença absoluta de género apenas se relativiza num novo nível da dissociação-valor.

As mulheres devem – é esse o subtexto – ser ainda os melhores homens. Uma vez que são estilizadas como deusas com muitos braços, deve ser para elas gostoso carregar voluntária e orgulhosamente o jugo múltiplo, sendo notório que se espera delas modéstia, ultrapassando atitudes agressivas e pretensões de dominância. As considerações de Schirrmacher também mostram bem como se pode ser desconstrutivista, sem no entanto ter de renunciar a uma fundamentação biologista-essencialista, e mesmo nesta posição considerando ainda a mudança social fundamental. Ele aceita plenamente que nem todo o homem seja e tenha de ser egoísta, nem toda a mulher seja e tenha de ser social. Isso devia dar que pensar às orientações (des)construtivistas recentes. E também devia fazer ver a Bönold como até Schirrmacher o poderia perfeitamente repreender por ele próprio ter sido muito selectivo no seu recurso às pesquisas científicas, o que em Bönold constitui uma objecção cardeal às minhas exposições supostamente “descarnadas” da teoria da dissociação-valor.

 

Sexo e Género

Deveria ser óbvio que as definições da teoria da dissociação-valor são fundamentalmente histórico-sociais, recusando qualquer fundamentação ontológica ou biologista, como a que se pode encontrar repetidamente nos discursos sobre a relação de género. No entanto, pelos vistos basta juntar no mesmo plano de abstracção do princípio social fundamental a relação de género moderna com a relação de valor ou de capital para poder dar lugar à suspeita de que eu teria intrometido na lógica da formação histórica algo de biológico supra-histórico. Na verdade, esta é apenas uma indicação de que esses críticos e críticas pretendem consciente ou inconscientemente ligar a relação de género a uma “base biológica” pré-social. Assim, no mencionado artigo de Natasha Wilting, a ideia de que a teoria da dissociação-valor precisaria de uma “ontologia da feminilidade ‘sensual’” (ibid.), que ela me pretende imputar a mim, é consequência do seu conceito de valor sexualmente neutro, à maneira do antigo marxismo. Mas como o conceito de dissociação se relaciona com o moderno patriarcado especificamente objectivado em processo histórico e não com um mero “arcaísmo” ideologicamente invocado, tal conceito certamente não tem nada a ver com uma “sensualidade do feminino” (biológica) abstracta que pudesse ser retirada da socialidade histórica como um resíduo.

Isso para mim não quer dizer que as pessoas “em” sua socialidade não sejam simultaneamente também seres naturais; mas apenas que estas definições não podem ser separadas e que, portanto, o corporal ou sensual só existe na sua socialidade histórica. Pelo facto de eu (de resto novamente com Adorno) aderir em geral a uma dialéctica entre natureza e cultura em processo histórico, só poderia daí seguir-se a acusação de “biologismo” se o momento natural fosse totalmente engolido na socialidade sem deixar rasto. Isso não tem nada a ver com Marx nem com Adorno; nessa medida a insinuação de Wiltung não passa de rabulice interesseira que está em contradição com as suas próprias posições de referência. Não por acaso a mesma insinuação é feita contra a teoria da dissociação-valor também do lado do pós-estruturalismo. É assim que Bönold (na sua qualidade de pós-moderno) me acusa de ter ignorado o debate sexo-género da década de 1990.

Estava em questão nesse debate a tese culturalista baseada no livro de J. Butler Problemas de género [Gender trouble] (1991) de que o sexo já seria sempre género, isto é, na abordagem da lógica da identidade, teoricamente a natureza seria completamente absorvida na cultura. Justamente neste debate, no entanto, existem não poucas vozes contra tal ponto de vista. Escreve por exemplo Carmen Gransee: “Houve assim uma tendência para a argumentação (cultural) idealista, que ignora qualquer outra ancoragem em contextos histórico-sociais (da experiência e da estrutura), a não ser nos das abordagens simbólicas e formações discursivas historicamente variáveis, em que ‘natureza’ ou sociedade são pensadas, descobertas ou mudadas. Mas a análise das relações de género marcadas com especificidade histórica e em mudança pressupõe a focagem do contexto social estrutural” (Gransee, 1999, p. 41).

Bönold agora faz o seguinte: ele afirma bem pós-modernamente a construção incondicional do sexo, mas pretendendo por outro lado conhecer evidências sócio-históricas por mim fornecidas no apoio da minha tese da dissociação-valor. Bönold baralha-se aqui nos diferentes planos. Ele mistura sem rodeios considerações da teoria da cultura e da teoria social, sem se preocupar com os problemas “metodológicos” daí resultantes. Depois faz uma coisa de que me acusa sempre, como mestre picuinhas supostamente científico da diferenciação (Bönold, 2008 a). Mas, como esclarece Gransee, é algo completamente diferente se eu no fundamental argumento (des)construtivistamente e no plano da teoria da cultura, ou se o faço no plano da teoria social. Ambas as perspectivas estão interligadas, o que exige uma justificação mediadora. E uma mediação bem-sucedida é a meu ver a que se pode encontrar em Holland-Cunz (a quem tenho feito referência em diversas publicações), quando sugere um entrelaçamento dialéctico entre sexo e género: “Considero (...) a categoria marginalizada ‘sexo' (...) uma possibilidade categorial essencial para reimplementar e reintegrar (...) o material, o corpo, a sua finitude temporal e espacial, a sua lógica e modo de funcionamento definida de forma não exclusivamente social, o seu contexto de mediação com a natureza não humana, a sua identidade e não-identidade com a ‘naturalidade’ extra-humana. Se o ‘sexo’ fosse concepcionalizado de modo não-ontologizante, talvez com base nesse conceito se pudesse criar um acesso a uma mediação analítica, não-analogizante entre relação natural e relação de género. (...) Em ligação com Jaggar e Grimshaw gostaria de (...) sugerir o ‘sexo’ não como campo de sedimentação biologista para naturalizações, mas como conceito a re-estabelecer dialecticamente mediado com o género: o sujeito social torna-se pensável na corporalidade humana historicamente adquirida; em que a participação ‘do’ humano na natureza e na sociedade teria sido possibilitada; como contrapeso contra um conceito exclusivamente construtivista de 'género', como lugar de teorização não 'da natureza’, mas da relação dos indivíduos com a natureza, tal como consigo próprios” (Holland-Cunz, 1993, p. 206 e 208).

Neste ponto se vê que, com a referência a Holland-Cunz, eu não parto desajeitada e dualistamente dos factos biológicos que “depois” são culturalmente moldados e “valorizados”. A problemática natureza-cultura ou sexo-género poderia e deveria certamente também ser explorada com mais detalhe numa tematização basilar separada. Mas não era esse o meu tema. Eu estava preocupada em primeiro lugar com a constituição da relação de género no contexto capitalista, ou seja, no contexto de sua constituição estrutural fundamental e, portanto, com o segundo plano mencionado por Gransee, que ela designa sumariamente contexto social estrutural, por contraposição à orientação abstracta para a colocação do problema no plano da teoria da cultura. Esta estrutura (fundamental) é fundamentalmente diferente das condições pré-modernas. E para mim tratava-se desta nova qualidade. A minha teoria da dissociação-valor é essencialmente de natureza estrutural-conceptual; na medida em que, naturalmente, também queira e tenha de recorrer aos conhecimentos históricos, ela não pode simplesmente ficar de modo idealista numa totalidade abstracta, pelo contrário, para ela, com Lukács, a “totalidade da empiria” constitui uma preocupação.

Nessa medida também é absurdo supor que os géneros teriam de ser primeiro construídos para depois serem instrumentalizados pelo capitalismo, como por vezes já me foi objectado. Neste caso, de resto, vão na tradição da antropologia filosófica os próprios esquemas feministas que se concentram na “produção” do género na interacção, na vida quotidiana, e os quais Bönold invoca, entre outros, completamente em linha com o “ser corpo e ter corpo” de Helmut Plessner (cf. Gildemeister, 1992, p. 226). Em última instância, eles também não conseguem evitar uma dialéctica sexo-género. Do mesmo modo houve na década de 1990 um amplo debate em que muitos teóricos e teóricas se pronunciaram contra uma construção total do “sexo”. Sobre tais trabalhos por maioria de razão Bönold não diz uma palavra.

Por detrás da falsa acusação que igualmente se faz ouvir contra a teoria da dissociação-valor, de que esta operaria com uma ontologia biologista do sensual e do feminino, estão implicitamente concepções diferentes de “sexo” do lado da recepção por Bönold do desconstrutivismo e do lado da teoria do valor universalista nos termos do antigo marxismo de Natasha Wilting. Bönold favoreceu a este respeito aquele construtivismo total que faz desaparecer completamente o sexo no género. Wilting, por sua vez, apenas gostaria de salvar a pureza do valor da relação de género em geral. Mas, na medida em que ela atribui a respectiva assimetria a um “resíduo arcaico”, que nada teria a ver com o capitalismo, por detrás da sua crítica da teoria da dissociação-valor está a hipótese de que se trataria basicamente de um pedaço da natureza imutável, que entra no capitalismo como que de fora para dentro (Assim mais ou menos também em Schatz 2005, p. 21 sg.; para a crítica, ver Rentschler, 2006). Também esta posição não consegue fazer nada com a dialéctica sexo-género nem com a constituição específica da relação de género no patriarcado produtor de mercadorias. Assim ocorre uma naturalização do género, sendo perpetuada a correspondente estrutura de dissociação-valor.

É claro que a moderna relação de género não caiu do céu, mas tem a sua pré-história, como quer que seja considerada; a dimensão histórica, no entanto, não deve ser confundida com uma base natural isolável, pelo contrário, a dialéctica natureza-cultura, ou sexo-género, apresenta-se de forma diferente nas diversas formações históricas e tem um cunho inteiramente próprio e diferente no patriarcado produtor de mercadorias. Não admira que muitas vezes sejam precisamente naturalistas disfarçadas, como Wilting, que por outro lado constatam simultaneamente que o capitalismo, com o seu princípio da igualdade, provoca necessariamente uma aproximação dos sexos (analogamente, contra a teoria da dissociação-valor: Willutzki, 1995). Também assim virada a relação de género assimétrica já não desempenha qualquer papel. Homem e mulher parecem então absorvidos numa tendência de individualização supostamente neutra quanto ao género, devendo as funções por princípio ser intercambiáveis, mesmo no que respeita às actividades na esfera da reprodução (tempo de parentalidade também para o homem etc.); tal e qual como se se pudesse prosseguir a análise social “(escondendo) aí simplesmente um princípio central de diferenciação, de estruturação, de estratificação e de dominação”. Ao que se deve contrapor: “As relações de género entraram historicamente como constituintes na formação da cultura e da sociedade modernas e também foram transmitidas em sua figura actual através dessa formação. A forma historicamente específica de uma não pode ser compreendida sem a da outra” (Knapp/Wetterer, 2001a, p. 9).

Assim, se a falsa acusação de que a teoria da dissociação-valor iria pedir ajuda a uma “sensualidade do feminino” ontologicamente biológica está em Bönold ligada a uma recepção não assumida do construtivismo total, a mesma acusação em Wilting está associada não só ao universalismo do valor, mas também a um momento de naturalização do género, que no entanto não deve afectar a igualdade abstracta (no fundo da esfera da circulação) e deve ser reservada para determinadas necessidades vitais positivas (como a sexualidade). Vai um passo mais além uma ideologização do “sexo” que pretende tornar este decididamente positivo com argumentos simplesmente supostos ontologicamente biologistas. Só posso rejeitar vigorosamente esta visão reificadamente positiva de “sensualidade”, que ocasionalmente também me é imputada, como dado a-histórico e aparentemente “autêntico”, em que então as mulheres seriam melhores seres humanos, porque mais próximas da “natureza” e “com isso” da vida vivente.

Como já acima na discussão sobre a positivação sociológica da dissociação como esfera separada do “bom” ontológico, por maioria de razão se torna evidente na correspondente biologização que o que está aqui em acção são fantasias masculinas usurpadoras. A “sensualidade” dissociada em diferentes planos da reprodução deve ser entendida como já sempre historicamente devinda; ela, em sua preparação específica, não é de modo nenhum melhor do que o lado instrumentalmente orientado do valor abstracto, de que ela constitui simplesmente o contrapolo imanente, em entrelaçamento dialéctico. Isto também significa que as ideias da feminilidade de algum modo embelezada não servem para matriz utópica, como muito gostariam certas utopias rigidamente patriarcais (ver Thürmer-Rohr, 1987).

E, tal como no caso da inversão positivadora do conceito de dissociação reduzida sociologicamente à “separação de esferas”, o mesmo se passa com os representantes masculinos de uma crítica do valor redutora que pretendem deitar a unha a uma teoria da dissociação por eles deformada. Na senda da viragem para uma metafísica fenomenológica do quotidiano ocorre a celebração de uma nebulosa sensualidade, da vida, da “carne” etc. que devem manter resistências prontas para além do “valor”. Pelo mesmo diapasão afina, por exemplo, o autor vienense Franz Schandl, em grande parte já mutante duma crítica do valor redutora para uma ideologia de filosofia da vida. Precisamente na mesma edição da Streifzüge em que Bönold se permitiu apresentar a sua crítica desconstrutivista à sensualidade ontológica feminina supostamente afirmada pela teoria da dissociação-valor, Schandl expressa-se contra o monstro do pensamento intelectual: “O pensador como pensador só é simpático à distância. A sua certeza é um espantalho, é contagiosa, mas em última análise não convence. Quanto mais perto se lhe chega, mais ela perde o brilho. O teórico é masculino, mesmo que seja do sexo feminino. Isso tem menos a ver com a exclusão das mulheres do pensamento do que com o facto de os homens, diferentemente das mulheres, serem realmente instados a afastar-se da sensualidade. O sensual aqui, naturalmente, não pode ser considerado como o não deteriorado, ou o bom, mas apenas como agente de contraste” (Schandl, 2008; sobre isso, já similar, Lohoff, 2006). Recentemente, esta visão culminou em novos artigos com títulos como Sem teoria crítica sabe melhor! (Scheuringer, 2009), e temo que não se trate de uma paródia. Portanto, trata-se aqui, de facto, de uma “sensualidade” ontológica, que se revela agora ao pensador masculino do quotidiano tornado inimigo dos intelectuais, em sua existência precária; porém, essa “sensualidade”, já sempre considerada com conotação feminina, é apenas um “agente de contraste”, e as intelectuais do sexo feminino, no fundo, são ainda muito piores do que o “original masculino”. É escusado comentar.

 

Dissociação-valor e heterossexualidade compulsiva

Bönold acusa-me ainda de abordar a heterossexualidade compulsiva apenas de passagem. Esse é certamente o caso. O meu tema, naturalmente, era a relação de dissociação-valor. Sem o conhecimento teórico desta em toda a sua complexidade, que de facto tem de aguardar ainda o seu desenvolvimento, também não pode haver uma crítica adequada da heterossexualidade compulsiva, da homofobia, etc. Entretanto a teoria queer, a este respeito invocada implicitamente por Bönold, torna tudo muito simples. Na minha opinião, nas últimas décadas desenvolveu-se uma certa problematização da heterossexualidade normativa efectivamente conforme aos imperativos capitalistas de identidade flexível.

Assim, já o Foucault tardio, nas suas lições sobre “governamentalidade” (e isso quase não é referido na argumentação queer, como mostra Tove Soiland) soube observar criticamente que “... o que surge no horizonte (...), não é o ideal ou o projecto de uma sociedade disciplinar exaustiva, em que a rede de leis envolvendo os indivíduos de, digamos assim, mecanismos normativos seria continuada e prolongada. Também não existe sociedade sem um necessário mecanismo de normalização geral e de exclusão dos não normalizáveis. Pelo contrário, temos neste horizonte a imagem, a ideia ou o tema programático de uma sociedade em que haveria uma optimização dos sistemas de diferenças, em que se admitiria espaço livre para processos de mudança, em que haveria tolerância para admitir os indivíduos e as práticas das minorias” (Foucault, citado por Soiland, 2008, p. 73).

As teorias e as estratégias queer, que tiveram uma difusão inflacionária desde a década de 1990, nesse sentido me parece possuírem um carácter mais ideológico; na melhor das hipóteses apenas superficialmente passam a mão pelo pêlo às relações heterossexuais compulsivas. A alegria nos shows de travestis e no movimento queer na minha opinião tem pouco a ver com gays, travestis e transexuais, que afinal continuam a ser discriminados, mas tem muito a ver com a reprodução de estilos de vida da cultura heterossexual dominante, com tendências de individualização etc., numa determinada fase da era de consumo pós-fordista subsequente à “sociedade de classe média nivelada” (Helmut Schelsky) no pós-guerra (ver Scholz, 2008). Desde que nos últimos anos as (novas) classes médias ficaram cada vez mais com a corda na garganta, crescem os ressentimentos não apenas racistas, anti-semitas e anticiganistas, mas também contra os chamados elementos anti-sociais e não em último lugar contra gays e lésbicas, em paralelo com um simultâneo enfraquecimento ou mesmo negação do antigo entendimento do sexo; e é de temer que essas tendências se venham a intensificar ainda mais, na senda do colapso da modernização que agora se revela na sequência da crise fundamental do mercado financeiro.

A minha efectiva crítica ao desconstrutivismo e às estratégias queer, portanto, é que eles ignoram completamente estruturas sociais objectivas e dimensões psíquicas profundas e são simplesmente superficiais. Quem está realmente interessado na resolução de identidades compulsivas deveria pôr os olhos na sua persistência teimosa, mesmo na mudança pós-moderna. O problema da identidade não se pode simplesmente mandar pelo cano abaixo na casa de banho, à maneira desconstrutivista, como se vê por exemplo nos massacres masculinos, cuja fundamentação a partir da construção da masculinidade e da feminilidade é simplesmente insuficiente (mesmo assumindo a dimensão da institucionalização na ênfase dos rituais, ou seja, a célebre performatividade de má fama). Aqui já são exigidas explicações mais complexas. A ilusão desconstrutivista ainda pode vir a ficar cara às posições críticas da identidade.

Importa também considerar que a heterossexualidade e a homossexualidade como identidades são igualmente produtos da modernidade. Dado que a heterossexualidade funciona como norma, estabelecida com a estrutura basilar de dissociação-valor como princípio social e com a diferenciação das esferas da produção e da reprodução, surgem certas necessidades do sujeito. Portanto, falando livremente, são necessariamente usadas sexualidades “desviantes”, enquanto “diferentes”. É importante lembrar, como Foucault assume, que o poder não é apenas repressivo, mas também é produtivo. Apenas na modernidade, portanto, se constituem também tais sexualidades “desviantes”; para falar sobre isto pelo menos por alto, pois debrucei-me sobre o assunto no meu “livro sobre o género”. Portanto, esses desvios contribuem tão pouco para a transcendência social, seja nas condições passadas ou nas presentes, como por exemplo desafiar a construção positiva da feminilidade na sociedade androcêntrica. O queer está sempre aqui – de certo modo. Isso já era válido nos tempos anteriores à pós-modernidade e ainda hoje o é por maioria de razão. A “queerness” não tem hoje nada para contrapor ao novo ressentimento contra gays, lésbicas etc. e não apenas teoricamente.

Certamente que não há nada a opor se Bönold pretende mobilizar as diferenças históricas no interior da história do capitalismo no que diz respeito a orientações homofóbicas; no entanto, se é preciso constatar, por exemplo, que as correspondentes construções apenas no século XIX são “realmente” comprováveis, isso ainda assim não altera nada a constituição fundamentalmente heteronormativa da modernidade em sentido sexual. Mas tal exigência refere-se a um plano diferente da fundamentação categorial da teoria da dissociação-valor e só a sua comprovação em estruturas sociais reais, relações e normas com absoluta “cobertura empírica” é que fazem as sexualidades “desviantes” como tais.

Aqui se torna novamente claro o que a crítica de Bönold à teoria da dissociação-valor fundamentalmente assinala: ele confundiu a crítica da lógica da identidade com a afirmação de um positivismo tosco e com o patrocínio do pensamento factual, com isso falhando no fundamental a própria realidade social. Imagens tradicionais de género sobrevivem hoje precisamente na “queer politics”; elas são preservadas justamente na tentativa anacrónica de torná-las ridículas. O sexualmente desviante torna-se um acessório de moda, de forma meramente superficial e habitual, incapaz de apreender minimamente a verdadeira base do seu desprezo; bem no pulso de uma ilusória realidade da diferença positivistamente percebida, cujo ser-assim também deve ser justificado e legitimado através de uma matriz cultural pós-moderna.

 

Dissociação-valor e crítica da economia política

O conceito de dissociação-valor reivindica descrever o plano de abstracção do princípio social fundamental, indo assim além do marxismo. Nessa medida trata-se também, naturalmente, de uma referência aos conceitos básicos da crítica da economia política. Certamente que ainda tem de se verificar com cuidado a relação em que devem ser vistas as categorias e novos desenvolvimentos em O Capital de Marx perante o pano de fundo da teoria da dissociação-valor. O que terá de ser investigado em detalhe. Por outro lado, pode mesmo assim supor-se que as definições conceptuais originais essenciais da relação de capital como “valorização do valor” poderiam consistir na lógica de exposição em sua estrutura imanente e não teriam necessariamente de ser a cada passo “artificialmente” expandidas para a dimensão da dissociação. Na teoria da dissociação-valor estas determinações já estão sempre incluídas. Portanto, se por exemplo se fala de “capital fictício” em sentido estritamente económico, nem sempre será necessário anexar o conceito de dissociação externa e “automaticamente”; isso resultará de determinados aspectos dessa mesma coisa particular.

A situação é diferente, no entanto, se pretensões patriarcais megalómanas são incluídas num plano fundamental; e com isso pretensões androcêntricas de omnipotência que já são sempre necessariamente inerentes ao processo social (não só económico). O que também não é independente do facto de as mulheres se encontrarem estatisticamente menos que os homens em domínios públicos, como na esfera financeira entre outras, ao contrário de actividades por exemplo no domínio da assistência. Pelo menos isso é verdade enquanto as respectivas esferas de influência não forem ameaçadas pela queda. A crítica da dissociação-valor também já está sempre localizada num plano mais abrangente e mais fundamental, na medida em que não foi simplesmente deslocada, mas atravessa todos os domínios da sociedade desde o início. Em princípio e em pontos cruciais em Marx, no entanto, isso deveria ser identificado e corrigido. Mas para fazer isso é desde logo necessário fazer valer a dissociação-valor como forma fundamental abrangente, ainda antes de se empreenderem todas as voltas e reviravoltas analíticas em O Capital.

Em síntese: a dissociação-valor abrange as relações sociais como um todo. Aqui é preciso desde logo constatar que o trabalho doméstico não cria valor; trata-se de um equívoco fundamental que hoje está de novo repetidamente em discussão, como se nos famosos debates sobre o trabalho doméstico dos anos 1970 aos anos 1990 não tivessem surgido argumentos contrários decisivos. Só o trabalho produtivo de capital cria valor, de acordo com Marx. Alegar-se que o trabalho doméstico também poderia fazê-lo é chegar a uma confusão equivocada dos planos de abstracção e das referências de objecto, como já Ursula Beer sabe, a partir do ponto de vista do antigo marxismo (Beer, 1990, p. 48). A relação hierárquica de género tem de ser então a todo o custo redutoramente exposta como dimensão económica imediata. O dissociado no fundo não é dissociado, mas directamente parte do contexto funcional dominante. É escamoteada a dialéctica de dissociação-valor, a dissociação é privada da sua qualidade própria e é novamente concebida sob o valor, na lógica da subsunção e da identidade, o que além disso já pressupõe em regra um entendimento positivo e afirmativo da forma do valor. Aqui estaríamos nós de volta ao ponto de partida das nossas observações. Mais uma vez a relação de género seria privada do seu carácter de generalidade, como algo “meramente” particular. Note-se de passagem que assim também se privilegiaria um entendimento economicista da totalidade, permitindo considerar a cultura, a psicologia social etc. como mera “superstrutura” derivada.

Na teoria da dissociação-valor as mulheres são tão pouco idênticas à “dissociação” como os trabalhadores assalariados são idênticos ao fetichismo da mercadoria. No entanto, existe uma relação, que Marx explica em O Capital como desenvolvimento concreto, relativamente ao trabalho assalariado e à relação de fetiche; e o mesmo se aplica, indo mais além, também à dissociação-valor como princípio social fundamental e aos indivíduos sexualizados. Bönold não percebeu nada do meu recurso às determinações analíticas de duas lógicas de tempo em Frigga Haug: a lógica de gastar tempo no domínio da reprodução e a lógica de poupar tempo no domínio da produção (Haug, 1996). Embora estas estruturas sejam perfeitamente «perceptíveis» na vida prática, em que a lógica de gastar tempo, como no trato com crianças, tem o seu próprio potencial de stress. No entanto, estas duas lógicas de tempo conflituantes não constituem uma determinação que situe o valor e a dissociação apenas à superfície dos fenómenos. Pelo contrário, no caso da lógica de poupar tempo, trata-se daquela notoriamente infame “lógica de exploração da economia empresarial” (Robert Kurz), do tempo abstracto do trabalho abstracto, enquanto a lógica de gastar tempo se refere aos momentos dissociados do “trabalho de relacionamento” e do “trabalho de amor” sociais e às funções psicossociais de mediação e de amortecedor social, em ambos os casos historicamente delegados nas mulheres e que não é possível dissolver no tempo linear do trabalho abstracto com objectivos racionais.

Moishe Postone faz valer também uma outra forma de tempo, o tempo processual histórico do desenvolvimento das forças produtivas e da dinâmica capitalista, em que se expressa indirectamente o tempo abstracto da economia empresarial e que constitui uma historicidade interna do capitalismo. Não posso aqui entrar em mais detalhes. O que importa, no entanto, sendo isso uma lacuna real do meu livro sobre o género, é que ambas as formas de tempo por Haug designadas “estruturais”, mais o tempo processual histórico no sentido de Postone deveriam ter sido teoricamente relacionados e desenvolvidos em seu entrelaçamento. Mas Bönold está longe de reconhecer todo este contexto do problema. Em vez disso ele apenas tem em conta que também as actividades no domínio da reprodução exigiriam auto-disciplina e que algum dia de trabalho da economia empresarial teria de ser estragado com a interrupção do tempo linear abstracto (Bönold, 2008 a). O que é invocado com toda a seriedade, contra considerações estruturais com respeito a lógicas de tempo diferentes. O Manifesto contra o trabalho (Gruppe Krisis, 1999) ter-se-ia visto obrigado a ter em conta incondicionalmente este aspecto! Porque em ambas as lógicas temporais parecem emergir momentos do pólo contrário, elas deveriam ser de qualquer modo iguais ao litro e fundidas na lógica da identidade.

Mas, em primeiro lugar, Bönold não vê que o momento de auto-disciplina na lógica de gastar tempo é algo qualitativamente diferente do tempo linear do trabalho abstracto; e isso também se aplica às interrupções e ao “rodar em falso” que se apresentam de forma diferente nas duas lógicas de tempo mencionadas por Haug. Em segundo lugar, é preciso constatar de facto alguma sobreposição das duas lógicas de tempo especificamente no desenvolvimento pós-fordista (o que para Bönold não é historicamente específico, mas surge como identidade estrutural). É assim que, por um lado, se faz valer a lógica de poupar tempo da economia empresarial também no chamado domínio da reprodução, por exemplo, na medida em que as famílias são supostamente administradas como empresas e “a criança” é tratada como um “projecto” com objectivos racionais de acordo com as correspondentes “instruções de uso”. Por outro lado, surgem inversamente na economia empresarial momentos da lógica de gastar tempo que, a bem ou a mal, devem ser tornados funcionais para o tempo linear abstracto (“gestão da qualidade”, “competência emocional” etc., até chegar à prescrição de “tempos de meditação” e interrupções quase terapêuticas, para melhorar o desempenho e produzir “aceitação” através de atitudes auto-repressivas). O que foi exigido à socialização feminina na esfera do trabalho abstracto e do domínio público, de facto já para além do verdadeiro domínio da reprodução, porque a dissociação atravessa mesmo todas as esferas, é agora deliberadamente instrumentalizado nos esquemas de gestão. Mas, mesmo nesta duplicação e entrosamento, as duas lógicas de tempo permanecem contraditórias e não são simplesmente intercambiáveis; apenas nascem novos atritos em ambos os planos. De certo modo, a tentativa de por assim dizer reverter as duas lógicas de tempo e de as inserir instrumentalmente cada uma no pólo oposto já constitui por si só um fenómeno de crise da sociedade da dissociação-valor.

Por isso as duas lógicas temporais contraditórias também não são niveladas nem porventura dissolvidas na identidade do valor, mas a sua diferença mantém-se, constituindo precisamente o pressuposto para a tentativa da sua instrumentalização pela administração de crise a todos os níveis. Relativamente à sua definição fundamental é importante lembrar que qualquer elaboração teórica não avança em geral sem o elemento de “exagero” (Adorno), por muito empiricamente saturada que possa estar, como é o caso da teoria da dissociação-valor, por exemplo, com a referência a estudos empíricos sobre a “dupla socialização das mulheres” por Becker-Schmidt entre outros, como já mostrei. É o que escreve Cornelia Klinger: “Ainda que ao todo, à totalidade, à presença absoluta não pertença nada de empiricamente recuperável, nada da existência real, é precisamente por causa do lançar de pontes sobre as rupturas e buracos que a totalização do irredutivelmente parcial permanece uma tarefa necessária do pensamento. Sem estender um arco de generalizações sobre as profundezas da realidade (...), sem o elemento de especulação que não é coberto pela 'realidade' nem com ela poderá ser completamente tornado cobertura, não seria possível uma orientação no pensar e no agir” (Klinger, 1998, p. 249). Isto também se aplica à definição abstracta de lógicas de tempo diferentes, cujo emaranhamento e confusão na empiria histórica não podem ser jogados contra o seu próprio conceito. Pressupõe-se aqui, no entanto, um entendimento da “realidade” não coincidente com resultados parciais empíricos; tal como a oposição entre a lógica de poupar tempo e a lógica de gastar tempo se fazem valer tão completamente na prática quotidiana, o mesmo se passa com a sua penetração recíproca no processo de crise.

Esta relação também se faz notar relativamente ao consumo de mercadorias no plano dos bens de consumo (em oposição ao consumo de meios de produção directamente produtivo de capital no processo de criação de valor). Mesmo não podendo a dissociação sexual ser reduzida à esfera privada da reprodução, o “consumo produtivo” específico desta esfera, que cai fora da relação de valor, desempenha um papel como momento constitutivo do valor da mercadoria força de trabalho, estando nessa medida entrelaçado com a relação de valor. Por isso o valor da força de trabalho é produzido não somente através dos bens de consumo capitalistamente fabricados necessários à sua reprodução, mas também através da preparação destes bens e das actividades conexas conotadas como femininas na dissociação, incluindo os momentos não materiais, sendo que esta esfera do “trabalho de consumo”, como aspecto da dissociação-valor, tem em Marx uma importância significativamente apenas secundária (cf. Kurz, 1992). Ela é mencionada, mas não realmente considerada e a sua relevância para a reprodução geral não é tida em conta. Como é sabido, há muito tempo que este aspecto tem sido tematizado pelo feminismo no plano fenomenológico, sem referência à dissociação-valor como princípio fundamental. Estas actividades, enquanto dissociadas, não criam valor, mas são, como a dissociação, pressuposto do valor em geral.

Bönold pensa agora também aqui poder subsumir a dissociação ao valor, na medida em que traz a terreiro o consumo como campo de valorização próprio (“indústria do lazer”) e se refere a uma “atribuição de sentido ao consumo e à indústria da cultura” (Bönold, 2008 a). Mas ele aqui está mais uma vez a jogar fenómenos empíricos contra a determinação fundamental, apesar de uma coisa não poder ser pensada sem a outra. Pois somente com base na dissociação-valor em processamento histórico se pode conseguir no capitalismo avançado aquela “atribuição de sentido” socialmente mais abrangente, transformando uma parte do “trabalho de consumo” num campo de valorização próprio da economia empresarial. A relação de dissociação-valor é aqui modificada, mas não dissolvida, permanecendo pelo contrário como pressuposto, precisamente nas suas modificações e distorções.

Não admira que Bönold também separe da dissociação o tempo processual histórico do capital (sem referência a Postone e, portanto, sem entender o assunto), na medida em que atribui unidimensionalmente o desenvolvimento das forças produtivas ao valor. Ele permite-se perguntar: “Então não provém toda a dinâmica histórica do valor?” (Bönold, 2008 b). É sempre o mesmo problema: se o valor só existe por meio da dissociação, como pode então toda a dinâmica histórica provir apenas do valor? Especificamente no que respeita ao desenvolvimento das forças produtivas, por exemplo Elvira Scheich evidenciou muito bem que as ciências naturais ao longo da história se baseiam essencialmente na repressão do feminino (Scheich, 1993); e Frigga Haug tem o mérito de ter definido as relações de género como relações de produção (Haug, 1996). O facto de se tratar aqui de um contexto historicamente mediado não altera nada na determinação fundamental. A unidade negativa entre desenvolvimento das forças produtivas e desenvolvimento das forças destrutivas da modernidade, quer relativamente ao potencial de destruição ambiental e de técnica bélica, quer também na tendência sócio-economicamente auto-destrutiva do capital baseia-se, pois, não apenas na dinâmica do valor, mas também na dissociação a ele associada desde o início.

 

Diferentes planos de análise e pensamento positivista

Não é somente o problema da dinâmica histórica que leva mais uma vez de regresso às questões epistémicas, em termos dos diversos planos teóricos e analíticos. Fundamentalmente já se mostrou que Bönold se move totalmente no âmbito desse corpus teórico sistémico fechado de que fala Ursula Beer e só reconhece a validade dos seus princípios, ao carregar essa lógica para a estrutura da relação de género, assim negando o conceito de dissociação como conceito de totalidade e afirmando que apenas determinadas actividades das mulheres e processos de socialização típicos de género devem ser susceptíveis de reconhecimento, e somente na medida em que se relacionam com o mercado e com o Estado. Que um pensamento filosófico-especulativo, como o que a crítica da dissociação-valor reivindica para si, é para Bönold um livro fechado a sete chaves e que ele está vinculado a um ponto de vista positivista é o que se torna também evidente no facto de ele contrapor superficialmente o “método” ao conteúdo. Em vez disso, para um procedimento de dialéctica negativa, trata-se de inspeccionar o objecto particular, a “coisa em si”, sem a subsumir violentamente aos conceitos metodológicos gerais. Neste contexto, a sustentação de contradições e ambivalências é o eixo de tal procedimento, que até tem as aporias reais quase como base indispensável – mas de modo nenhum no sentido pós-moderno, como renúncia a um conceito da essência social e, portanto, a um entendimento crítico da totalidade. Contudo este conceito da essência e da totalidade não pode surgir positivamente em sentido hegeliano, como uma reprodução do “conhecimento absoluto”, mas apenas negativamente, como uma crítica da totalidade fraccionada, que dá seguimento à particularidade dos objectos e dos domínios numa abordagem não-universalista, sem ocultar a sua conexão interna. Crítica da totalidade negativa também significa, assim, que na elaboração teórica apenas pode ocorrer uma aproximação à “totalidade da empiria”, pois a pretensão da sua reprodução absoluta só a reproduziria na sua negatividade.

Bönold exige agora, supondo ter encontrado em mim diversos planos de análise e de teoria, que eu deveria fazer uma fundamentação “metodológica” destes planos no objecto, em vez de me limitar a afirmar a sua existência e a fornecer uma fundamentação puramente de conteúdo. Ele critica que falte “a relação entre sistematização e formulação dos planos no objecto” (Bönold, 2008 b). De algum modo ele registou que no meu caso se trata do objecto “metodologicamente”, com recurso a Adorno. Ora, para Adorno, excluem-se precisamente o objecto particular, de que ele pretende aproximar-se com um pensamento em constelação, e uma fundamentação metodológica abstracta no objecto, porque a singularidade da coisa com isto se afundaria de novo inevitavelmente numa fundamentação universalista. Assim constata também Jay que em Adorno “não (há) qualquer meio puramente metodológico contra a fragmentação do conhecimento que se exprime no caos de disciplinas individuais concorrentes. O objectivo de um projecto interdisciplinar plenamente integrado é, portanto, (...) inatingível. A filosofia deveria dar-se por satisfeita com a forma de ensaio e fugir à tentação de ser sistemática. A capacidade de assumir um conhecimento da totalidade significaria voltar a cair no mito de uma subjectividade transcendental” (Jay, 1982, p. 76).

Ensaio aqui, de resto, não significa simplesmente uma escrita jornalística, nem tão pouco um artesanato associativo do conceito – que, fazendo bluff, salta de pé ligeiro por cima de todo o conhecimento de difícil aquisição, na medida em que ignora em grande parte o conhecimento material, cuja profunda dominação apesar disso sugere, pavoneando-se – mas sim uma “tessitura” (Adorno, 1966, p. 44), que apenas exprime uma imagem na sua cognoscibilidade através do desenvolvimento concreto; por assim dizer, de certo modo justificado em si mesmo, e que só na aparência vive de meras afirmações. Portanto, também só dificilmente se lhe podem arrancar clichés.

Mas é precisamente neste sentido que Bönold pede agora a formulação e “mediação” dos planos diferentes enquanto “sistematização”: “Parece-me também uma contradição lógica quando Scholz, por um lado, no plano discursivo, se refere a estudos como os de Laqueur (1992), que argumentam com Foucault; por outro lado, no plano da psicologia social, refere-se à psicanálise, na figura da teoria da relação com os objectos de Chodorow. As duas abordagens excluem-se, por exemplo relativamente à ideia de sujeito” (Bönold, 2008 b). O facto de a crítica da dissociação-valor não poder ser transformada em chapeleira de forma fácil e prática ao quadrado é no entanto o seu princípio mais íntimo! A referência a posições opostas não é simplesmente alinhavada à pressa, mas sim integrada criticamente no processo da própria elaboração teórica posicionada de forma completamente diferente, sendo que as diferenças analíticas referem-se às contradições internas da própria coisa.

As objecções de Bönold mantêm-se agarradas ao ponto de vista positivista do método “sistematizador” meramente abstracto, que sempre foi fortemente questionado pelo pensamento da dialéctica negativa (palavra-chave: polémica sobre o positivismo, Adorno e outros, 1972). Porque Bönold na sua confusa crítica me imputa agora uma abordagem aditiva, ele assume que para mim os planos seriam multiplicáveis verdadeiramente à vontade. Porquê apenas três e não cinco ou mais? – pergunta ele (Bönold, 2008 b). Também esta pergunta corresponde a um entendimento da teoria reificado e reduzido à razão formal, precisamente o que a crítica da dissociação-valor tem especialmente em mira. Em vez disso, esta procura apenas acercar-se do objecto através de um pensamento em constelação, no sentido de Adorno, mas mais desenvolvido pela dimensão da crítica da dissociação; e na verdade como estrutura fundamental, por um lado, e como realidade esfarrapada, por outro, na medida em que diferentes conceitos e teorias (como os planos material, dos símbolos culturais e da psicologia social) são agrupados em torno da área temática da dissociação-valor. A história e a economia fornecem-lhe igualmente pressupostos constituintes de fundo.

Aqui o “como” da produção das relações de género não pode ser respondido simplesmente no plano da interacção, mas sim no contexto de um desenvolvimento da análise conceptual da totalidade histórica concreta, na sua natureza quebrada e fragmentária, que vai muito para além de uma interacção simbolicamente mediada, ainda que esta também se possa aqui encontrar. Enquanto os construtivismos da teoria do discurso podem servir de instância intermediária entre o nível macro da dissociação-valor e os indivíduos sociais, as abordagens interaccionistas, porém, hipostasiam à partida o plano da acção, razão pela qual os esboços da teoria do discurso também são objecto de mais atenção da minha parte. No entanto eu não nego que também do lado interaccionista possa haver contribuições parcialmente valiosas. Por exemplo, no que diz respeito à “reconfiguração da diferença” na mudança de género das profissões ao longo da história até hoje (Gildemeister/Wetterer, 1992, p. 222 sg.). Mas perante estes resultados o mais importante é saber qual o fundo social que desde logo tornou possíveis tais mobilidades de codificação. Assim, mesmo investigadoras feministas das profissões que se assumem vinculadas a um fundo interaccionista, como Angelika Wetterer, não podem deixar de notar: “A persistência da diferença de género está altamente dependente das respectivas condições de contexto e a reprodução de diferenciações de género consuma-se em grande medida num plano interactivo. Tem lugar lá, no entanto não consciente e deliberadamente (...), mas sim muito mais de forma encoberta e de uma maneira que evita e contraria a norma da igualdade discursivamente carregada (...) Elas (as pesquisas recentes, R. S.) na sua grande maioria fazem notar que as formas latentes e incorporadas de conhecimento do género, que se tornam importantes no plano da interacção, se adaptam automaticamente, assim continuando a ser tão naturais num nível pré-reflexivo em muitas áreas profissionais” (Wetterer, 2007, p. 201 sg.). E continua: “(Também) os arranjos na aparência sexualmente neutros, que contribuem de forma encoberta para reproduzir as distinções de género e as hierarquias tradicionais, recebem o seu potencial de formação de estrutura não do campo profissional sozinho, mas a partir da ligação contraditória entre o domínio profissional e o domínio da reprodução privada, e da persistente equação tanto virtual como real segundo a qual trabalho reprodutivo é igual a trabalho de mulheres” (Wetterer, 2007, p. 204).

Duvido, portanto, que as abordagens interaccionistas do doing gender tenham contribuído (pelo menos em dimensões-chave) para a percepção do essencial da relação de género; pois as observações de Wetterer mostram que elas têm de recorrer a fundamentações “não interaccionistas” (separação das esferas da produção e da reprodução) para explicar o que acontece no plano da interacção. Neste contexto, portanto, também é problemático que Bönold aposte em ideias de configuração de guiões, de profecia auto-realizável etc., ou seja, que ele pretenda, no que diz respeito à dimensão social e psicológica, saber fundamentadas em primeira linha cognitivistamente (não só) as actuais relações assimétricas (Bönold, 2008 b), em vez de visar as camadas profundas dos indivíduos socialmente sexualizados, para o que eu considero indispensável um instrumental psicanalítico. Mas, vendo com um olhar mais atento, torna-se óbvio o que pretende Bönold em relação à somadoria positivistamente mecânica de planos em geral: há nele claramente um sentimento contra a psicanálise e contra a hipótese de um “inconsciente psicogenético” (Regina Becker-Schmidt). Em Bönold consciente e inconsciente são equiparados na lógica da identidade, sendo em última instância absorvidos no consciente, cognitivo. A consequência dessa visão seria, no domínio pedagógico, por exemplo, que bastaria simplesmente apresentar aos indivíduos as suas opiniões incorrectas para eles se poderem modificar: “No entanto... são óbvios os buracos das abordagens construtivistas: estas não podem explicar os processos afectivos que acompanham e promovem a diferenciação de género e a escolha do objecto sexual. Na minha opinião isso pode dever-se nomeadamente à exclusão total do ‘desejo’. O que na psicanálise de certo ponto de vista é talvez demasiado determinante, o inconsciente, já não aparece de todo nas teorias construtivistas” (Ott, 1998, p. 19).

Tais orientações positivistas, no entanto, representam metodológica e epistemologicamente um problema, não apenas em termos de crítica da dissociação-valor, mas mesmo em termos de uma crítica do valor “simples”. Por isso Bönold deveria pedir a si mesmo os esclarecimentos que ELE exige constantemente de mim. Sua opinião teria de facto consequências de grande alcance “metodológico” para o conceito fundamental de fetiche de Marx em geral. Como é sabido, este pressupõe – e isto constitui quase a questão central – que as pessoas constituem elas próprias realmente as suas relações, mas isso acontece inconscientemente, nas suas costas, embora de maneira diferente do sentido freudiano. Assim se comprova repetidamente que Bönold não tem nada em mente um entendimento dialéctico da totalidade e está a bordo dum barco completamente diferente, ou seja, a bordo dum barco sociologista, cognitivista e cientificista, no qual tudo aquilo que não se pode ver nem comer simplesmente não existe. As observações de Bönold apontam afinal numa direcção que conhecemos muito bem, a partir da história da filosofia e da ciência meramente positivistas: aí o conceito de fetiche é denunciado como um disparate metafísico. Não é preciso muita imaginação para saber como Bönold “entende” então Lukács, Adorno, Kurz e Postone...

Mas também no plano da psicologia social as atitudes, opiniões e conteúdos conscientes poderiam ser especificamente susceptíveis de decifrar o conteúdo do que está acontecendo NOS indivíduos sociais, também em conexão com os contextos dos símbolos culturais. Para abordagens limitadas pela perspectiva cognitivista, no entanto, tal perspectiva interna é apenas uma “caixa negra”. O que me preocupa não é procurar de modo “muito prático”, com qualquer tipo de intenção terapêutica psicanalítica, um sujeito curado, de algum modo reconciliado com o seu outro. A psicanálise é para mim um instrumental teórico para a análise social crítica da má realidade capitalista. Perante mim não está directamente um paciente deitado no divã, que possa/deva ficar curado pelas minhas intervenções terapêuticas (embora também para a psicanálise, mesmo nesse sentido prático, se possa defender uma dialéctica entre o eu e o outro/recalcado. Mas não vou agora entrar por aí, pois não é essa a minha intenção). O conceito de dissociação-valor, na circunstância, não está de modo nenhum limitado apenas à dimensão psicanalítica. Reporto-me aqui muito mais a Frigga Haug que, num contexto marxista (embora problemático, tradicional), fala em primeiro lugar de uma dissociação das actividades femininas, de modo completamente independente da psicanálise.

A partir desta perspectiva, a dissociação-valor como princípio fundamental também não pode ser entendida de modo simplesmente concretista, no sentido de subordinação “da mulher” em termos do modelo de repressão, mas representa o princípio de base social, que abrange tanto homens como mulheres, fundamentando ao mesmo tempo a assimetria desta relação. Aqui, num plano concreto de desenvolvimento da crítica da dissociação-valor, contei muito com ambivalências e contraditoriedades na situação de “dupla socialização” das mulheres em termos de psicologia social, recorrendo, como tem sido frequentemente mencionado, a Regina Becker-Schmidt. Mas defendo que tais situações e as correspondentes sensibilidades e necessidades devem ser tratadas pelas mulheres em termos de crítica da ideologia, uma vez que correspondem a exigências de flexibilidade completamente inaceitáveis para as mulheres e, na realidade, trazem consigo sobretudo uma coisa: trabalho, trabalho e mais trabalho, mais uma difusa competência geral. Nesta situação a questão para mim era precisamente criticar a colaboração das mulheres, hoje, bem longe de vê-las como vítimas em termos de um simples modelo de repressão. No caso de situações com boas condições elas até agora têm descarregado esta problemática em cima de empregadas domésticas migrantes. Com a queda das classes médias tal posição está em vias de sobrar novamente para elas. Minhas objecções a pontos de vista como o de Becker-Schmidt eram contra o facto de eles apontarem a dança na corda bamba das mulheres como “resistência” contra uma suposta imposição do papel de dona de casa, que há muito passou à história.

Fiz um grande esforço para apresentar criticamente os diversos planos teóricos e analíticos num contexto de mediação, no entanto não apenas no sentido de uma “sistemática” exterior “metodológica”, mas sim quanto ao conteúdo, com base na relação contraditória do próprio domínio do objecto. Neste ponto, relativamente ao problema dos “planos”, é preciso voltar mais uma vez ao desenvolvimento das forças produtivas. Bönold sobre isso vira-se contra mim no seu estilo habitual: “Scholz, no entanto, contradiz-se a si mesma quando, por um lado, parte de uma independência dos planos (...), por outro lado, na sua tese sobre o asselvajamento, fundamenta ainda assim o plano dos símbolos culturais e o psicológico (! R.S.) a partir do plano material (mercado mundial globalizado, crise político-económica)”. Para o efeito, cita-me falsamente: “(O) desenvolvimento das forças produtivas e a dinâmica de mercado... têm por efeito que as mulheres se afastam em boa medida dos seus papéis tradicionais e passam a ter consciência duma ‘dupla socialização’ já sempre existente, com as correspondentes contraditoriedades, na senda das tendências de individualização” (Bönold, 2008 b). No original, no entanto, o que se diz é o seguinte: “Assim o desenvolvimento das forças produtivas e a dinâmica de mercado, QUE ASSENTAM ELAS PRÓPRIAS NA DISSOCIAÇÃO-VALOR, socavam sobretudo O SEU PRÓPRIO PRESSUPOSTO, uma vez que têm por efeito...” (Scholz, 2000, p. 119, destaque meu). Bönold não cita aqui os pontos principais, mas omite-os. Deste modo (como já ficou claro acima) ele faz da dinâmica de mercado e do desenvolvimento das forças produtivas pensados apenas a partir do valor os verdadeiros sujeitos da mudança e, com uma citação forjada, atribui-me isso a mim e à minha teoria da dissociação-valor! Ele simplesmente não percebe que a dissociação-valor, como princípio social fundamental, no seu desenvolvimento histórico, por um lado, abrange os planos dos símbolos culturais e da psicologia social (e isto é constitutivo precisamente também para a dinâmica de mercado e para o desenvolvimento das forças produtivas), por outro lado, no entanto, estes planos não podem ser compreendidos em sua qualidade própria na dimensão macro, constituindo por isso uma dimensão de análise própria, e sendo precisamente por isso também indispensáveis uma exposição ensaística, um pensamento em constelação, etc.

Como se viu, isto não tem nada a ver com um saltitar superficial e descomprometido, nem tão pouco com alegações infundadas, sem nexo interno. Portanto, não faz sentido atribuir-me o argumento de que a dinâmica do mercado e o desenvolvimento das forças produtivas produziriam uma mudança das relações de género no plano cultural e psicológico apenas na pós-modernidade, para então interpretar isto como auto-contradição. É urgente aconselhar a Bönold uma leitura e uma formulação mais cuidadas. Isso é tanto mais pertinente quanto ele na sua crítica exige constantemente de mim uma argumentação mais detalhada.

É um completo equívoco, quando Bönold me censura que eu tenha partido de mudanças profundas, mas que isso não tenha tido quaisquer efeitos nas minhas exposições “metódicas” (Bönold, 2008 b). Contra isso tem de ser dito resumidamente, neste contexto, que a teoria da dissociação-valor em seu desenvolvimento já é em si uma abordagem completamente nova, que incide sobre a relação dos vários planos da sociedade no seu nexo interno. Nessa medida, não pode ser satisfeita a Bönold a reivindicação “de um método” isolado, porque isso se opõe fundamentalmente à abordagem da crítica da dissociação-valor; situação em que Bönold, sempre que se trata desses diferentes planos, pretende avançar “de qualquer maneira” para uma elaboração teórica, uma metodologia etc. inteiramente diferentes, ou seja, desconstrutivistas.

Pelo contrário, nunca postulei uma relação dos vários planos como um puzzle que pudesse ser construído numa figura fechada, uma vez que, na melhor tradição da Escola de Frankfurt, assumo que o “método” já é sempre a consciência da forma social e do dissociado dela, como conteúdo exposto na sua contraditoriedade interna. E, porque a dissociação-valor deve ser entendida como um princípio social formal precisamente no sentido de um processo histórico, a elaboração teórica também tem de ser feita em torno da totalidade concreta. Isto significa, por um lado, dum ponto de vista analítico, implicar os esquemas construtivistas (que tradicionalmente faltam na teoria crítica) e, por outro, deixar simultaneamente a descoberto a sua limitação categorial e histórica concreta. Se se quiser estar de algum modo fundamentalmente actualizado do ponto de vista “metódico”, “metodológico” e materialmente empírico, a teoria crítica e a ciência social críticas terão agora de voltar a apoderar-se de um método histórico dialéctico, em vez de se contentarem com os ideologemas positivistamente delineados da interacção e da teoria do discurso, como continua a ser o caso ainda hoje amplamente nos chamados estudos de género.

Assim, aplica-se “metodologicamente” à argumentação de Bönold (e justamente também no que diz respeito aos seus pressupostos no fundo palidamente marxistas na crítica à minha abordagem analítica) o que Lukács já formulou na década de 1920 no prefácio de História e Consciência de Classe e até hoje permaneceu incompreendido, onde ele insiste que “aos conceitos é dada a sua significação correcta menos pela definição do que pela função metodológica que recebem na totalidade enquanto momentos superados... Quando, portanto, aqueles que se profissionalizam em ‘ultrapassar Marx’ falam de uma ‘falta de precisão conceptual’, de ‘simples imagens’ em vez de ‘definições’ etc. em Marx, eles oferecem um espectáculo tão desolador quanto a ‘crítica de Hegel’ por Schopenhauer, a tentativa de apontar nele ‘erros lógicos’: apresentam o espectáculo da sua total incapacidade para compreender pelo menos o ABC do método dialéctico” (Lukács, 1967 a, p. 12) [2001, p. 60].

Deveria ser verdadeiramente claro que “método” aqui não deve ser mal entendido num sentido positivista exteriormente “sistematizador”, mas ainda assim é preciso sublinhá-lo, como mostra por exemplo a crítica da teoria da dissociação-valor feita por Bönold. Se esta teoria também ultrapassa a tradição de Lukács (tal como a de Adorno) na dimensão da dissociação, por isso mesmo ela tem de ser posta “organicamente” em relação com aquilo que inclui necessariamente uma nova qualidade e modifica a arquitectura da teoria como um todo; sempre consciente de que conceito e teoria sempre têm de aceitar a priori o facto de nunca poderem ter “tudo” na mão. É perante essa tarefa que esteve e está a teoria da dissociação-valor, para além da dialéctica negativa de Adorno. Bönold, pelo contrário, regride para trás do nível de reflexão tanto de Lukács como de Adorno; e é justamente deste modo que ele quer pôr em causa a teoria da dissociação-valor!

 

Conclusão: O espírito do tempo pós-moderno na crise, os círculos de esquerda virados queer e a insustentabilidade de uma mentalidade de crítica ecléctica

É algo enigmático o que será “imanente” na crítica de Bönold, se ele passa ao lado de todos os principais percursos do pensamento e regride para um entendimento positivista de lógica formal, com o qual gostaria então de medir uma elaboração teórica que tem criticado em profundidade justamente esse entendimento. O seu procedimento parece dever ser entendido no sentido de: agora é que vou ver o que me vem à cabeça, a mim e a outros, contra a Scholz (e também contra o Kurz), em brainstorming associativo, de modo que tudo isso se traduza em objecções e questões, sem ter tido de compreender o pano de fundo “metodológico” da teoria da dissociação-valor em geral. Parece ser para ele uma pedra no sapato o facto de aqui se reivindicar mesmo uma elaboração teórica nova e original, que ele gostaria de diluir de preferência noutras abordagens teóricas mais antigas (em parte marxistas tradicionais, em parte pós-modernas, entre si por sua vez incompatíveis) e na usual “cientificidade” académica, à qual a “antiga” dialéctica já era completamente alérgica e com razão.

Aqui desempenha também um papel a exigência impertinente, há muito caída em descrédito generalizado, de “proibição da polémica”, orientada para “encontrar a verdade” e para a disponibilidade para o debate, em certos meios pós-modernos de esquerda teoricamente desarmados. Assim, para Bönold, o meu livro sobre o género “não convida propriamente à discussão” porque contém “demarcações rígidas” que teriam de provocar a correspondente reacção (Bönold 2008 a). Sem sequer começar a apresentar a sua própria concepção, ele gostaria de ter misturado eclecticamente isto e aquilo, mais aquele “é assim”, tudo numa caixa de trabalhos manuais teóricos, sem responsabilidade pelo conteúdo.

O eclectismo de Bönold, que é simplesmente uma tendência geral no contexto da esquerda, é certamente muito apropriado para um trabalho científico burguês, quando ele aparece como crítico do género numa tacanhez de lógica formal, mas não esclarece nada. No seu surfar associativo nas ondas dos discursos falta a dignidade “metodológica” em si, mesmo em seu próprio sentido positivista. Bönold não assume nenhuma tese, tudo está de algum modo simultaneamente certo e errado e, nessa medida, uma pessoa também se pode ligar a tudo. Isso é sintomático dos nossos tempos; e só por isso a desconstrutivista Judith Butler já é de novo simpática na sua típica “insubmissão” (Fraser, 1993, 68). No início da década de 1990 ela teve de impor na luta as suas teses sobre o gender trouble (sim, ela ainda tinha teses!). Isso ainda custou alguma coisa e ainda circulou durante algum tempo, até que acabou por se instalar nos círculos de esquerda de modo animadamente queer o pós-moderno anything goes que se refere a ela. É assustador ver no que isso se tornou para grande parte dos seus seguidores e seguidoras, a partir da ênfase e disponibilidade para fazer trouble. Se hoje algo é considerado impróprio, então é certamente, apesar de todas as poses superficialmente de Riot Grrrl (4) em contrário, a “butch” (para “quem não sabe”: a lésbica habitualmente masculina que insiste em não ser feminina e tem uma “posição” própria), entre todos os tipos de masculinidade e feminilidade desconstruídos e reconciliados, até ao pretenso neo-feminismo que se “abraça” hoje. De resto, assim se relacionam também nas actuais habitações comunitárias de esquerda, todos multicolores lado a lado, o simbolismo da batata de subsistência, o poder das mulheres, o queer, a causa anti-imperialista, a solidariedade com Israel, a crítica da globalização da ATTAC etc. Anything goes, porque já não se trata de nada.

Com a actual crise económica mundial fundamental qualitativamente nova também tais ideias e ideologias provavelmente chegarão ao fim. No entanto, isso não é motivo de alívio. Por detrás da caricatura de queerness heterossexual, não em último lugar do homem queer transformado em dona de casa, poderia em última análise estar à espreita uma orientação à la Carl-Schmitt, já sem o colorido estatista; o que, obviamente, não deve ser entendido a priori como atribuição identificadoramente personalizante aos representantes do discurso corrente. Hoje é mais difícil olhar para trás da máscara queer patriarcal pós-moderna do que olhar na cara o velho patriarcado moderno que ainda existe e volta a crescer de novo. As velhas reivindicações de supremacia, no entanto, também se disfarçam sob novas vestes, como se a anterior guerra dos sexos estivesse obsoleta apenas na medida em que se quer o mesmo que “as mulheres”. Como se o maldito “tecto de vidro” (5) não tivesse equivalente nas condições de concorrência entre (jovens) homens e mulheres, comportando-se o homem queer como mulher ainda melhor e como pesquisadora do género ainda melhor; porque, agora, supostamente trata-se apenas da “coisa(-género)”, “neutralmente quanto ao valor” e imparcialmente. Nada seria tão perverso como aceitar a oferta superficial de paz, alegria e panquecas dos príncipes queer hetero, que andam atrás da reputação (académica) excitados como uma cadela no cio, mas ao mesmo tempo não deixam de piscar o olho e sacudir as madeixas loiras (naturalmente que tudo isto é dito apenas metaforicamente).

É preciso lembrar também que para o “homem que tudo quer” o habitual modo positivista de pensar facilmente pode virar no irracional, místico, de que ele é o reverso (talvez não nas mesmas pessoas); possivelmente ainda justificado com as condições da própria pós-modernidade, de repente já não aceites, de “bajuladores” tornados queer. Hoje é muitas vezes postulado de modo ainda indeterminado um “muitos” que se impôs – por agora. Racismo, anticiganismo e anti-semitismo, entretanto, surgem aqui na melhor das hipóteses como secundários – e o sexismo de qualquer maneira é gradualmente “esquecido” no circo do discurso pós-moderno. Embora ele devesse ser a questão supostamente mais no âmago da crítica, apenas é tematizado implicitamente, “com seriedade científica”, de modo fatigado e sem garra. Isto também se aplica à homofobia que, aparentemente mudada com um olhar para cima falsamente feminino, pode estar bem instalada na posição queer de estar no meio. Ela já não dá muito nas vistas no amorfo “muitos”, encobre-se nas fraseologias de círculo e em cross dressing parties.

Curiosamente, agora, sob a impressão da crise, são precisamente as feministas que tentam, em parte contra e em parte com Butler (que ela própria reconheceu há muito a importância da dimensão psicanalítica) destacar de novo fortemente a má relação que continua a existir entre os sexos; e mesmo expressamente contra a perspectiva que em tempos assumiram da ideologia Beck-Giddens-New Labor da década de 1990 (ver McRobbie, 2010). Isso mostra que seria fatal pretender “desconstruir” de modo meramente culturalista a questão da identidade sexual e não só. Pelo contrário, ela tem de voltar a ser apresentada de forma actualizada, na sua dimensão profunda, tendo como pano de fundo a dissociação-valor enquanto princípio fundamental. É por isso que é decisivamente crucial ver o modo como as abordagens feministas queer, na necessidade da crise, voltam a descobrir a “economia”, supostamente com o “avô Marx”; na circunstância, no entanto, ignorando amplamente as categorias fundamentais do valor e da dissociação e pretendendo apenas emparelhar de modo demasiado barato a tematização feita pelo antigo feminismo da relação de produção e reprodução (trabalho doméstico etc.) com a perspectiva de nova pequena burguesia de uma “economia solidária” (desde as pequenas cooperativas alternativas até às “reformas monetárias” regionais) e até mesmo com os correspondentes planos de redes de hacker-nerds dominadas por homens.

Contra isso, têm de ser postas numa nova relação recíproca a multiplicidade e a diferença de situações sociais, por um lado, e o conceito de capitalismo como princípio da dissociação-valor, por outro, para procurar saídas para além de queerizações superficiais. Na queerness amorfa esconde-se uma renovada “cumplicidade” das mulheres (Christina Thürmer-Rohr), se as relações capitalistas e patriarcais forem percebidas em decomposição e, na senda do estado de excepção, se propagandear um poder das mulheres (dos escombros) (3) em que a “dupla socialização” da feminilidade se transforma em co-gestão da crise. É “hora de luta”, mais que nunca agora, quando o tempo dos pseudo-projectos se esgotou. Oscar Wilde e Virginia Woolf, que aparentemente passam por padrinho e madrinha das tendências pós-modernas, estão amplamente ultrapassados na sua classe subversiva.

 

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Notas do tradutor:

(1) “Não digo nada sem a minha Alltours”, constituindo um óbvio “desvio” da frase “não digo nada sem a presença do meu advogado”, era o spot publicitário da agência de viagens Alltours (= “todas as voltas” em inglês), que assim pretendia combater as marcações directas pela Internet (contra a mania da diferenciação, a segurança…).

(2) A expressão idiomática alemã eierlegende Wollmilchsau diz literalmente “a porca que põe ovos e também dá lã e leite”. Traduz-se aqui por “pau para toda obra” à falta de melhor, embora a expressão idiomática portuguesa, na sua conotação sexualmente neutra ou mesmo androcêntrica, não faça plena justiça ao original.

(3) Mulheres dos escombros (Trümmerfrauen) eram as mulheres que, após a Segunda Guerra Mundial e na ausência de milhões de homens mortos ou prisioneiros de guerra, procuravam nos escombros das cidades alemãs e austríacas bombardeadas o que fosse aproveitável para a reconstrução e para a sobrevivência.

(4) “Riot grrrl: movimento feminista punk underground norte-americano dos anos 1990 com forte activismo.

(5) “Tecto de vidro”: conceito cunhado nos EUA na década de 1980 (glass ceiling) em referência a uma espécie de barreira invisível que impede a ascensão profissional das mulheres aos lugares superiores, mesmo onde a discriminação sexual foi aparentemente varrida em termos legais e sociais.

 

Original OHNE MEINEN ALLTOURS SAG ICH NICHTS in www.exit-online.org. Publicado na revista EXIT! Krise und Kritik der Warengesellschaft, 7 (12/2010) [EXIT! Crise e Crítica da Sociedade da Mercadoria, nº 7 (12/2010)], ISBN 978-3-89502-310-1, 272 p., 13 Euro, Editora: Horlemann Verlag, Grüner Weg 11, 53572 Unkel, Deutschland, Tel +49 (0) 22 24 55 89, Fax +49 (0) 22 24 54 29, http://www.horlemann.info/. Tradução de Boaventura Antunes em 09/2011, revista em 05/2015.

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