Robert Kurz

 

O Livro Negro do Capitalismo

 

Capítulo 8

História da Terceira Revolução Industrial

 

… … …

Secção 1

Visões de automatização

Tanto os utópicos negativos como os teóricos económicos e os "fazedores" da gestão estavam naturalmente bem conscientes da tendência furtiva para a substituição tecnológica da força de trabalho. Mesmo o sonho da automatização total já há muito tinha ocorrido. Contudo, esta mesma ideia não foi necessariamente entendida como negativa, por muito distante que a sua realização parecesse estar no futuro. Em 1908, Walter Rathenau comentou de passagem:

 

"Uma fábrica ideal seria aquela que funciona automaticamente como um relógio gigante e requer apenas um único trabalhador como supervisor. A indústria de produção de energia e a química industrial estão a aproximar-se deste estado. Este trabalhador-supervisor, contudo, teria de se dedicar exclusivamente ao trabalho intelectual e seria confrontado com uma responsabilidade muito grande [...] o empregador [...] tem um vivo interesse em que o homem seja bem alimentado, tenha vagar para pensar, esteja feliz e bem disposto" (Rathenau 1925/1908,304).

 

Mas o idílio de harmonia que Rathenau aqui cultiva refere-se apenas ao "empregador" e ao seu único trabalhador remanescente – estranhamente, não se coloca minimamente a questão quanto ao que aconteceria se este estado de coisas se generalizasse e os "trabalhadores contentes" com o seu "bom humor" se reduzissem a um grupo minúsculo, enquanto as grandes massas abandonariam a reprodução social como uma multidão restante capitalistamente "supérflua".

Quando então Henry Ford fez furor com a Segunda Revolução Industrial, havia algo como uma certeza implícita de que, apesar da racionalização da linha de montagem e da "ciência do trabalho" taylorista, a força de trabalho humana não poderia desaparecer do processo de produção numa escala realmente grande. Claro que o desemprego em massa durante a crise económica mundial foi certamente associado aos novos processos técnicos (e muitas vezes num tom acusatório para fins de agitação). Mas estava obviamente para além da imaginação dos contemporâneos pensar na crise do capitalismo como uma fundamental "crise da sociedade do trabalho" e, portanto, como uma crise do próprio "trabalho abstracto".

De um ponto de vista puramente lógico, esta ideia poderia ter sido bastante óbvia: Afinal, se o ser humano das indústrias fordistas tinha de se transformar num robô, então apenas seriam necessários mais alguns passos de desenvolvimento até que pudesse realmente ser substituído por um robô. Estranhamente, os autores das utopias negativas ou não previram isto ou, pelo menos, não viram aqui qualquer explosividade social, mas basearam o seu pessimismo histórico noutros problemas. Quase mais estranho, porém, é o optimismo dos poucos teóricos que olharam mais para o futuro e reconheceram que o fordismo fora apenas o precursor de uma automatização que até então não tinha sido considerada possível.

Keynes, em particular, foi um destes optimistas históricos da Terceira Revolução Industrial, ainda escondida no regaço do futuro, que acabaria por substituir o fordismo. Em 1930, ainda no meio da crise económica mundial, exprimiu-se espirituosamente sobre as "possibilidades económicas para os nossos netos", embora a entrada da sua argumentação soasse desde logo crítica:

 

"Estamos a ser acometidos por uma nova doença, cujo nome alguns leitores podem ainda não ter ouvido, mas da qual ouvirão falar bastante nos próximos anos: o desemprego tecnológico. Isto significa desemprego porque a nossa descoberta de meios para poupar trabalho está a progredir mais rapidamente do que a nossa capacidade de encontrar novos usos para o trabalho. Mas esta é apenas uma situação temporária de falta de adaptação. A longo prazo, tudo isto significa que a humanidade está prestes a resolver os seus problemas económicos. Prevejo que dentro de cem anos o nível de vida dos países avançados será quatro a oito vezes superior ao actual. Mesmo à luz dos nossos conhecimentos actuais, isto não teria nada de surpreendente. Mas também não seria absurdo pensar que é possível um progresso ainda mais rápido [...] Assumindo que não ocorrem guerras importantes nem um aumento considerável da população, concluo que a solução do problema económico estará pelo menos à vista dentro de cem anos. Isto significa que a tarefa económica, se olharmos para o futuro, não é a tarefa perene da raça humana. Podem perguntar, porque é que isto é tão excitante? É excitante porque descobrimos – quando olhamos para o passado e não para o futuro – que a tarefa económica, a luta pela preservação, foi sempre a primeira e mais urgente tarefa da raça humana, de facto, não só da raça humana, mas de todo o reino dos vivos, desde os primórdios da vida nas suas formas mais elementares. Evoluímos (!) assim – com todos os nossos motivos e impulsos mais profundos – da natureza expressamente com o objectivo de podermos resolver o nosso problema económico. Quando o problema económico estiver resolvido, a humanidade ficará privada de um dos seus objectivos convencionais. Será isto uma bênção? Se acreditarmos nos valores reais da vida, pelo menos abre-se a perspectiva da possibilidade de um benefício. No entanto, penso com horror na conversão dos hábitos e instintos do homem comum, que nele foram criados durante gerações incontáveis, e que ele vai agora ter de abandonar em poucas décadas. Para utilizar a linguagem comum hoje em dia, não teríamos de esperar um ‘colapso nervoso’ generalizado? [...] Pela primeira vez desde a sua criação, o ser humano será assim confrontado com a sua real e constante tarefa de como usar a sua libertação dos cuidados económicos opressivos, como preencher o seu lazer, que a ciência e o juro composto ganharam para ele, para que possa viver sabiamente, agradavelmente e bem [...] No entanto, creio que não há país ou povo que possa ansiar pela era do lazer e da abundância sem medo. Porque fomos educados há demasiado tempo para nos esforçarmos e não para desfrutarmos. Para o homem comum sem um talento especial, é uma tarefa assustadora manter-se ocupado [...] Um turno de três horas ou uma semana de quinze horas pode adiar a tarefa por um longo tempo ainda. Para a maioria de nós três horas por dia é suficiente para satisfazer o velho Adão que há em nós [...] Poderemos finalmente nos livrar de muitos dos falsos princípios morais que nos têm atormentado como um pesadelo há duzentos anos, e que nos levaram a promover algumas das qualidades humanas mais repulsivas à posição de virtudes supremas [...]" (Keynes 1956/1930, 267 e seguintes).

 

É verdadeiramente espantoso: o único problema que o grande economista burguês Keynes vê no contexto de uma possível automatização e "desemprego tecnológico" é um problema cultural e psicológico – a questão de saber se as massas "libertadas" pela prevista Terceira Revolução Industrial serão capazes de lidar de forma significativa com o lazer despreocupado que lhes será oferecido pelo desenvolvimento capitalista. Quase a mesma argumentação pode ser encontrada 28 anos mais tarde na filósofa americana Hannah Arendt, na sua obra "A condição humana", embora formulada de forma muito mais crítica:

 

"[...] decisivo é um [...] ameaçador acontecimento da última década, a difusão da automatização, ainda na sua fase inicial. Já sabemos, sem realmente o podermos imaginar, que dentro de alguns anos as fábricas terão sido esvaziadas de seres humanos e que a humanidade estará livre dos antigos laços que a ligam directamente à natureza, ao fardo do trabalho e ao jugo da necessidade. Também aqui se trata de um aspecto fundamental da existência humana, [...] o desejo de uma vida fácil, semelhante à dos deuses, livre da labuta e do trabalho, que é tão antigo como uma história que nos foi transmitida [...] Assim, pode parecer que aqui, através do progresso técnico, apenas está a ser realizado aquilo com que todas as gerações do género humano apenas sonharam, mas não foram capazes de alcançar. Mas esta aparência é enganadora. A era moderna começou no século XVII com a glorificação teórica do trabalho, e terminou no início do nosso século com a transformação da sociedade como um todo numa sociedade do trabalho. A realização do sonho antigo encontra, como na realização de desejos nos contos de fadas, numa constelação em que a bênção sonhada acaba por ser uma maldição. Pois é uma sociedade do trabalho que deve ser libertada dos grilhões do trabalho, e esta sociedade já mal conhece por ouvir dizer as actividades superiores e mais significativas em prol das quais valeria a pena a libertação [...] O que enfrentamos é a perspectiva de uma sociedade do trabalho que ficou sem trabalho, ou seja, sem a única actividade que ainda sabe fazer. O que poderia ser mais fatal?” (Arendt 1989/1958, 11s.).

 

Obviamente, os ideólogos do capitalismo conhecem muito mal o seu próprio sistema. Isto deve-se principalmente ao facto de o verem a priori e desistoricizado, ou seja, de operarem com categorias ontológicas supratemporais da economia, o que já tinha impedido Keynes de ver os problemas por ele analisados como resultado de um processo irreversível de desenvolvimento e não como "casos possíveis" de uma forma social intemporal. Enquanto Hannah Arendt ainda sabe que pelo menos a glorificação do trabalho só começou no século XVII, Keynes, bastante na tradição do liberalismo, volta a traduzir a ominosa "tarefa económica", que não é outra coisa senão o sistema de imposições capitalistas, numa "condição natural" geral, de tal modo a que mesmo as "formas mais elementares de vida" se esfalfam a trabalhar de acordo com critérios capitalistas de autopreservação (na realidade, porém, todos os animais teriam então de ser chamados de preguiçosos, porque a sua "autopreservação" é dirigida a tudo menos a uma actividade sem descanso e de fim-em-si).

 

Keynes também repete inconscientemente a antiga mentira liberal do aumento permanente do bem-estar através da economia de mercado, coisa que a esmagadora maioria das pessoas não notou nada até hoje; e por isso a futura superfluidade do "trabalho" parece-lhe ser um mero prolongamento do mesmo aumento do nível de vida a que supostamente "a ciência e o juro composto" têm conduzido desde tempos imemoriais. Ele finge que a obsolescência futura do "trabalho" em termos económicos não é senão um pequeno problema de ajustamento dentro da ordem social existente, quando na realidade o fim da "tarefa económica" só poderá ser o fim do próprio capitalismo. Será que Keynes acreditava seriamente que este sistema iria simplesmente largar o seu material humano e adormecer em paz?

Certamente que a disciplina internalizada do trabalho não pode ser subestimada como problema psicológico e cultural, quando o sistema de "trabalho abstracto" se reduz a si mesmo ao absurdo. Mas a tarefa de "mantermo-nos ocupados" não é tão terrivelmente assustadora se já não dever ser entendida como actividade alienada para o fim em si mesmo da "bela máquina". O facto de uma pessoa que se tornou capitalistamente "desempregada" só ficar a olhar estupidamente pela janela até finalmente cair morto e ser libertado do seu sofrimento é muitas vezes bastante verdadeiro para as carcaças esgotadas por uma vida inteira moída na economia empresarial até atingirem o limite de idade; mas, apesar de todos os condicionamentos, são muito poucos os que se encontram tão exaustos desde o início e durante todo o tempo que só se deparam com "trabalho" porque de outra forma não saberiam absolutamente nada que fazer consigo próprios. A principal razão para a servidão voluntária sob o jugo de mercados anónimos continua a ser essa "compulsão muda de condições" (Marx) que leva as pessoas, despojadas de todos os meios e relações sociais auto-determinados, a entregarem-se a uma forma detestada de actividade, pois de outra forma ficarão privadas das suas condições de existência.

O que é internalizado não é tanto o "trabalho abstracto" como tal, mas a forma geral de relações de "fazer dinheiro" e de concorrência que dele resulta. É por isso que a inelasticidade cultural dos seres humanos na obsolescência do "trabalho" só pode constituir um problema secundário; o problema principal é que os permanente e estruturalmente "supérfluos" são expulsos do sistema de "ganhar dinheiro" e da concorrência sem que este sistema deixe de ser a sua condição de existência. Tanto Keynes como Arendt ignoram completamente o facto de a racionalidade da economia empresarial ser fundamentalmente incapaz de traduzir a automatização numa diminuição correspondente do "trabalho abstracto" (no caso de Keynes para quinze horas por semana, e isso também apenas por razões terapêuticas!). Este erro grandioso só é possível porque a compulsão moderna ao trabalho deriva, segundo a ilusão ideológica liberal, da necessidade "natural" de aumento material do bem-estar, em vez de do fim-em-si abstracto da máquina mundial, de modo que então o fluxo altamente automatizado da riqueza material tem de continuar, como que "naturalmente", a reduzir o tempo de trabalho quase ao ponto de desaparecer.

No entanto, o caso é exactamente o contrário, pois o robô de cálculo da economia empresarial preferiria apressar mesmo o último trabalhador restante (como no caso de Rathenau) 24 horas por dia, enquanto cospe os "supérfluos" e, em princípio, já não lhes concede um pedaço de pão. Este é o único curso logicamente possível da automatização no capitalismo: o desemprego em massa aqui nunca significa lazer agradável em massa, mas sim pobreza em massa ou, na última consequência, até mesmo morte em massa. É precisamente esta lógica, desde o início inerente à racionalidade da economia empresarial, que terá de romper no caso de automatização extensiva e invalidar os anteriores mecanismos de compensação do crescimento industrial. Hannah Arendt tem razão quando descreve como profundamente desastroso que a sociedade do trabalho moderna esteja a ficar sem "trabalho" – mas a sua afirmação só se torna verdadeira quando é lida como um prognóstico de uma grande crise, não meramente cultural, mas sobretudo social e económica; e não apenas uma crise temporária, mas um verdadeiro colapso sistémico histórico, pois o "trabalho" que está a esgotar-se não é senão a substância fetichista do próprio capital.

Mas a esfera pública e as instituições burguesas, que são permeadas até ao tutano pelo serviço à máquina social capitalista e dela retiram a sua razão de ser, não poderiam (nem podem até hoje) admitir tal pensamento, tal como não o pode a massa de trabalhadores assalariados, que são calibrados à forma de sujeito e de relacionamento do sistema produtor de mercadorias. No entanto, houve vozes isoladas que alertaram para uma possível nova e inédita catástrofe socioeconómica do capitalismo na sequência da automatização, ainda que ignorassem a ligação formal interna (e a identidade fundamental) do "trabalho", do dinheiro e do capital , e os seus argumentos fossem de natureza essencialmente moral. É de mencionar aqui em primeiro lugar Norbert Wiener (1894-1964), provavelmente o mais notável dos fundadores da cibernética. Na primeira edição do seu famoso livro sobre esta nova ciência, publicado pouco depois da Segunda Guerra Mundial, previu consequências radicais e mostrou-se profundamente pessimista porque, no que diz respeito aos potenciais de automatização, sabia mais do que Keynes ou Arendt do que estava a falar:

 

"A fábrica automática e a linha de montagem sem operação humana estão apenas tão longe de nós na medida em que falta a nossa vontade de colocar um esforço tão grande na sua construção como, por exemplo, no desenvolvimento da tecnologia de radar na Segunda Guerra Mundial [...] Pode muito bem ser bom para a humanidade possuir máquinas que a libertem da necessidade de tarefas menores e desagradáveis, ou pode também não ser bom. Não sei. Não pode ser bom avaliar estas novas relações de poder em termos de mercado, do dinheiro que fazem [...] Posso talvez explicar o contexto da situação actual dizendo que a Primeira Revolução Industrial, a revolução das ‘negras fábricas satânicas’, foi a desvalorização do braço humano pela concorrência da máquina [...] A revolução industrial moderna está semelhantemente destinada a desvalorizar o cérebro humano, pelo menos nas suas decisões mais simples e mais rotineiras. Claro que, tal como o hábil carpinteiro, o hábil mecânico, o hábil alfaiate sobreviveu até certo ponto à Primeira Revolução Industrial, também o hábil cientista e o hábil administrador podem sobreviver à Segunda. Mas se pensarmos na Segunda Revolução como concluída, o ser humano médio com medíocre ou ainda menos conhecimento não tem nada para vender que valha dinheiro para ninguém. A resposta, evidentemente, é que temos de ter uma sociedade baseada em valores humanos, e não na compra e venda. Para alcançar esta sociedade precisamos de muito planeamento e luta, que, se for pelo melhor, será ao nível das ideias, e se não for – quem sabe como será? [...] O melhor que podemos fazer é tentar que um vasto público compreenda a direcção e a situação do trabalho actual [...] Estou a escrever em 1947, e devo dizer que essa é uma esperança muito ténue [...]" (Wiener 1992/1948,59ss.).

 

Para Wiener, a já visível Segunda Revolução Industrial esbate-se aqui com a ainda invisível Terceira Revolução Industrial, que ele considera como uma mera consequência da Segunda. É claro que as revoluções industriais se constroem umas nas outras, e há fases intermédias e transições, uma vez que a concorrência força constantemente as inovações tecnológicas. Mas, vistos em grande escala de desenvolvimento a longo prazo, podem ser discernidos padrões coerentes que, numa base tecnológica muito específica, constituem uma época socioeconómica correspondentemente específica.

Se a Primeira Revolução Industrial se caracterizou pela aplicação do carvão e do vapor, que provocou a ruína dos produtores artesanais tradicionais, a Segunda Revolução Industrial baseou-se no motor de combustão interna, na linha de montagem, e na "ciência do trabalho" da economia empresarial, combinada com uma divisão socioeconómica da época nos períodos das guerras mundiais industrializadas e da prosperidade fordista do pós-guerra. A Terceira Revolução Industrial deveria ter a sua base tecnológica na electrónica e nas "ciências da informação", levando a uma fase qualitativamente nova de desemprego em massa e, consequentemente, a uma crise sistémica. O pessimismo inicial de Wiener acerca da possibilidade, surgida tecnologicamente na sua investigação, de que o desenvolvimento da produção com base na electrónica e na informática já não poderia ser compatível com o modo de produção dominante com base nos "mercados de trabalho" era apenas mais que justificado; mas as suas indicações, nas quais ainda não era capaz de distinguir claramente entre a Segunda e a Terceira Revoluções Industriais, permaneceram ainda sem efeito – não admira, uma vez que em 1947 a plena implementação do fordismo ainda estava para vir.

Em 1965, ainda no auge do boom, o sindicato alemão da metalurgia IGM, um dos maiores sindicatos do mundo, realizou uma conferência intitulada "Automação – Risco e Oportunidade", que foi documentada em dois grossos volumes. Embora já se falasse de computadores electrónicos e de novos potenciais de racionalização, o futuro da Terceira Revolução Industrial foi visto através dos olhos fordistas de emprego em massa "saturado". O optimismo prevaleceu, como se pode ver pelo próprio facto de ter sido adoptada a eterna retórica capitalista sobre "riscos e oportunidades", em que os "riscos" figuram sempre apenas em função de grandes "oportunidades" para justificar a priori o curso dos acontecimentos capitalistas. Otto Brenner (1907-1972), então presidente do IGM, disse com todo o à-vontade:

 

"Na República Federal, apesar da automatização e mecanização, temos tido pleno emprego há anos [...] Os sindicatos não estão de modo nenhum entre aqueles que esperam que a automatização e outras formas de progresso técnico conduzam ao inevitável desemprego em massa [...] Os sindicatos consideram o progresso técnico como um instrumento necessário para alcançar um nível de vida mais elevado para todos [...] Um futuro altamente mecanizado também coloca novas tarefas aos sindicatos. Os sindicatos, contudo, afirmam já ter dado contribuições significativas para assegurar o pleno emprego no passado através das suas bem sucedidas políticas salariais, de organização e de horário de trabalho. Ainda não foi possível assegurar as reivindicações dos trabalhadores tecnicamente dispensados para empregos equivalentes [...]" (Brenner 1965,16, 22, 26ss.).

 

Claramente, a visão de futuro dos sindicatos consistia apenas em se apegarem à ainda vaga revolução tecnológica do capitalismo, como tinham feito no debate sobre a racionalização fordista dos anos 20, em reinterpretá-la eufemisticamente e em alimentar a esperança de que uma nova época de racionalização e automação pudesse também ser dominada através de uma participação positiva. Ainda mais optimista, eufórica mesmo, foi a opinião expressa nesta conferência por representantes de instituições internacionais, tais como Jef Rens, um dos principais membros da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Genebra:

 

"O tremendo progresso técnico no passado recente torna possível produzir uma inundação cada vez maior de bens para satisfazer os desejos e necessidades da humanidade. Podemos agora considerar como nunca antes como utilizar esta produtividade crescente [...] Com a extensão do tempo livre, como é previsível, haverá também mais oportunidades para a sua utilização construtiva. Os sindicatos, em particular, podem desempenhar um papel significativo neste desenvolvimento. São formados e dirigidos pelos próprios trabalhadores e estão, portanto, numa posição ideal para estabelecer e realizar programas que possam abrir uma vida mais rica e satisfatória para o ser humano trabalhador. O movimento sindical está mais bem colocado para determinar que actividades de tempos livres são do interesse dos seus membros e para moldar os seus programas em conformidade. Aqui o movimento sindical de hoje tem certamente ainda uma grande tarefa" (Rens 1965, 49s.).

 

Muito dentro deste espírito absurdamente optimista, que queria conceber o sindicato do futuro como uma espécie de organização que confere sentido à futura sociedade de tempo livre, Michael Harris, Secretário-Geral Adjunto da OCDE, apoiava:

 

"Talvez tenha sido dada menos atenção às possibilidades da tecnologia moderna do que aos seus perigos. Mas os avanços na produtividade até à data levaram a um aumento constante do nível de vida nos países que adoptaram as novas técnicas. Nada justifica a suposição de que deveria ser diferente com a automatização" (Harris 1965, 54).

 

Ignorando em grande medida todos os contextos económicos, o esforço para ver a próxima Terceira Revolução Industrial apenas em termos do boom fordista, que já estava em declínio, e portanto como uma extensão do mesmo, é aqui expresso com força. Tais expectativas foram também alimentadas por muitos cientistas sociais. Entre os optimistas profissionais mais conhecidos a este respeito estava o sociólogo francês Jean Fourastié (1907-1990), que extrapolou imediatamente as reduções das horas de trabalho estritamente limitadas aos centros da prosperidade fordista para o próximo século:

 

"Acredita-se geralmente hoje que já num futuro próximo o homem médio nos países economicamente mais desenvolvidos poderá satisfazer as suas necessidades com uma ocupação de 30 horas por semana [...]; em todo o caso, os progressos da ciência e da tecnologia nos países ocidentais nos últimos dez anos fazem com que tais perspectivas pareçam bastante justificadas [...]; sem [...] fixar um ponto exacto no tempo, pode assumir-se que 30 horas de trabalho por semana podem ser conciliadas com 40 semanas de trabalho por ano. Isto faz com que 30 x 40 seja igual a 1200 horas de trabalho por ano [...] Uma vez que a esperança média de vida do homem será então de cerca de 80 anos [...], os nossos descendentes dedicarão apenas seis horas em cada 100 ao trabalho de produção, que durante milhares de anos consumiu quase toda a força física e actividade mental de milhões dos nossos antepassados. Actualmente, então, estamos a assistir à mudança do ser humano de uma situação de estar preso pelo tempo para uma situação de ter tempo [...]" (Fourastié, sem data/1965, 7ss.).

 

Fourastié, que chamou à sua visão optimista do futuro "As 40 000 Horas" (no futuro, uma pessoa não precisaria de trabalhar mais durante toda a sua vida), ignora completamente a lógica capitalista, tal como os seus colegas das corporações económicas e filosóficas, a fim de equiparar imediatamente "progresso técnico" e "tempo de trabalho" – e de passagem falsificar a história social da humanidade, assumindo que os humanos pré-modernos passaram "milénios" com "trabalho" em quase todo o seu tempo de vida, quando na realidade foi exactamente o contrário que aconteceu; foi o capitalismo que desenvolveu a tendência absurda de aumentar o poder produtivo com o único objectivo de converter o máximo possível da vida em "trabalho". E se Keynes e Hannah Arendt pelo menos ainda discutiram os problemas culturais e sociopsicológicos de um desenvolvimento das forças produtivas que cresceriam para além da "sociedade do trabalho", já em "Fourastié" encontramos apenas a ingenuidade de uma desenfreada crença tecnológica em milagres, que na perspectiva actual parece bastante estranha:

 

"Agora também será possível 'aperfeiçoar' o ser humano normal, aumentar as suas capacidades, reduzir ou mesmo abolir a sua fadiga (!) e influenciar a sua herança genética [...] Na biologia animal e vegetal já temos gado de abate que os nossos antepassados teriam considerado fabuloso, temos pêssegos com 500g, maçãs com 1kg [...]; em 1965 a central nuclear de Hanford entrará em funcionamento, e nela se pode ver como serão as enormes centrais eléctricas do futuro próximo [...]" (Fourastié', op. cit., p. 4), 13).

 

Esta euforia tem algo de fantasmagórico, se se considerar que a fé liberal e socialista do século XIX no progresso tecnológica e tecnocraticamente reduzida já tinha ardido catastroficamente nos tempos das guerras mundiais industrializadas e da crise económica mundial. A breve fase de prosperidade fordista após 1950, no entanto, de certo modo produziu mais uma vez uma imagem persistente desta esperança tecnocrática na consciência social. Fourastié, com o seu optimismo superficial, estava certamente no contexto das utopias tecnológicas fordistas, que entretanto se propagavam por toda a parte ao nível intelectual mais baixo. A "abolição da fadiga" tecnologicamente concebida, por exemplo, corresponde a ideias contemporâneas em revistas populares de tecnologia ou romances de ficção científica de uma redução da ingestão de alimentos à forma de comprimidos, uma auto-estrada através do Lago de Constança, ou máquinas de barbear alimentadas por reactores nucleares miniaturizados.

 

 

Original Visionen der Automatisierung, pags. 340-346 de Schwarzbuch Kapitalismus. Ein Abgesang auf die Marktwirtschaft. Tradução de Boaventura Antunes (5.2021). Original integral online: www.exit-online.org/pdf/schwarzbuch.pds. Tradução portuguesa em curso em http://www.obeco-online.org/livro_negro_capitalismo.html.

 

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