exit! Crise e Crítica da Sociedade das Mercadorias, nº 23
(Sai na Primavera de 2026, na zu Klampen Verlag. 22 euros (ISBN 9783987370595) ou assinatura)
Índice
Robert Kurz: Supressão e conservação do homem branco
Justin Monday: A descontinuidade do colonialismo – Sobre a filosofia da história e a história real do pós-colonialismo e da decolonialidade – Parte II
Herbert Böttcher: Não há libertação sem o conceito de uma totalidade social (mundial) – Sobre a filosofia da libertação de Enrique Dussel como contradiscurso da libertação
Norma Mattarei: O governo de direita em Itália como desesperada tentativa de salvação do colapso social
Nils Meier:A cisão de Raskólnikov no contexto da crítica da dissociação-valor – A imagem literária de Dostoiévski da ‘razão sangrenta’
Norbert Walz: O recalcamento da filosofia em Marx e as tarefas de uma pós-filosofia do presente
Roswitha Scholz: A heterossexualidade compulsória e o queer no patriarcado capitalista
Editorial e apelo a donativos
Nova opacidade e viragem autoritária
A situação mundial mudou desde meados da década de 2010, após o crash de 2008. Começou uma maciça viragem à direita. A política é agora dominada pelas tarifas, que até os economistas burgueses consideram extremamente problemáticas, e pelo isolacionismo. Também surgiram constelações sem precedentes a nível geopolítico. Trump foi eleito pela segunda vez em 2025. Desde então também tem reafirmado intenções expansionistas (Panamá, Gronelândia, Canadá, Venezuela…), como resposta ao facto de a potência mundial EUA estar em declínio (Make America Great Again). Está a ser evidenciado um comportamento que muitas vezes não é claro se será seguido de uma acção real ou não, embora Trump tenha demonstrado com várias intervenções militares que é capaz de tudo, como mais recentemente no ataque à Venezuela. No que diz respeito a demonstrações de poder, Putin não lhe fica atrás, como mostra a invasão da Ucrânia. Após a queda da União Soviética e a demissão dos EUA de hegemonista mundial, quer-se voltar a mostrar quem manda.
Tanto a guerra da Ucrânia como a guerra de Israel-Gaza são guerras por procuração. Após o fracasso dos EUA nas suas guerras de ordenamento mundial, é bom para a alma de Trump poder atacar noutro lado, e o que poderia ser mais óbvio do que o “bom e velho” conflito do Médio Oriente? Não se trata de um conflito entre superpotências (como na Guerra da Coreia, por exemplo), mas aparentemente pretende-se que os fracassos anteriores sejam agora compensados noutro lugar. O massacre do Hamas em 7 de Outubro de 2023 veio na altura certa.
Se Trump apoia a extremamente problemática política de guerra de tábua rasa de Netanyahu após o brutal ataque do Hamas, provavelmente está menos preocupado com o direito de Israel à existência, que é plenamente legítimo devido à perseguição e extermínio dos judeus no Holocausto, e mais preocupado com a sua própria demonstração de poder. Porque a actuação marcial de Netanyahu não teria sido possível sem o consentimento dos EUA. Era vantajoso conspirar com Netanyahu depois de Israel, como outros países, ter sido apanhado no turbilhão de uma viragem à direita por todo o mundo. Seria totalmente errado interpretar como amigo de Israel o apoio de Trump à guerra de Netanyahu que levou à destruição da Faixa de Gaza.
Esse comportamento inevitavelmente evoca o conceito psicanalítico de formação reactiva: finge-se estar do lado de Israel, mas na realidade nutre-se ressentimento anti-Israel e anti-semita, e no fundo deseja-se prejudicar Israel. Pois Trump e a direita nos EUA podiam ter previsto que a destruição de Gaza iria virar o mundo inteiro contra Israel e libertar as energias anti-semitas já existentes. Embora o Hamas certamente tenha contribuído para prolongar a guerra e causar o maior número possível de vítimas, a intervenção militar de Trump e de Netanyahu também expressa uma sede de destruição e niilismo – as consequências não importam.
Por isso não se pode tratar de apoiar o procedimento de Israel e de Trump, como fizeram alguns anti-alemães. Toda a situação tem de ser colocada num contexto diferente, especialmente quando se trata do direito de Israel à existência, em que “Israel” não fica absorvido na política de direita de Netanyahu. A guerra foi seguida de uma falsa paz, também apoiada por alguns Estados islâmicos aliados, comprada sobretudo com a libertação de muitos membros do Hamas que estavam presos em Israel. As consequências desta operação são ainda imprevisíveis para o futuro no Médio Oriente, e também a nível mundial. O ataque anti-semita em Sydney pode indicar que o fundamentalismo islâmico está a deslocar as suas actividades para o exterior ainda mais do que antes, ou seja, a intensificar as suas actividades fora do Médio Oriente.
Está a tornar-se cada vez mais claro que o anti-semitismo é tudo menos estranho à direita nos EUA e noutros países. Não só Trump e outros republicanos há muito que fizeram declarações a este respeito, mas também se tornaram ainda mais ruidosos recentemente, como mostram as discussões em torno do fã de Hitler e negador do Holocausto Nick Fuentes, entre outros. No entanto as explicações tradicionais têm hoje uma utilidade limitada. Estão a surgir contradições. Hoje, nos EUA e não só, a direita preocupa-se com isolacionismo e construção de fortalezas, e com a defesa contra os migrantes, muitas vezes de origem islâmica, que vêm até “nós” depois das guerras de ordenamento mundial falhadas. Daí o conflito no interior da direita em relação a Israel e ao anti-semitismo (Trump retirou o financiamento a universidades e intimidou-as, argumentando que toleravam o anti-semitismo e eram “woke”).
Atitudes racistas e um acentuado filo-semitismo vão aqui de mãos dadas. Isto distingue os regimes autoritários actuais do nacional-socialismo, por exemplo. É necessário reflectir sobre estas contradições para analisar adequadamente o anti-semitismo actual e para o combater. De um modo geral ele está a tornar-se um lubrificante para a actual política de direita, à medida que o capitalismo continua a declinar e o empobrecimento material se torna ainda mais generalizado, embora isto possa mudar também de uma perspectiva oficial. É provável que o anti-semitismo aumente ainda mais no futuro. Entretanto a Venezuela parece ter substituído Israel/Palestina na sua posição de procuração. Provavelmente os interesses petrolíferos também desempenharam um papel na sua anexação, mas é provável que o lema “Make America Great Again” também tenha sido central neste caso, na oposição à Rússia e à China, cuja influência Trump quer fazer recuar. Mas até a Gronelândia também está cada vez mais na sua mira. Trump nem se coíbe de fazer ameaças militares no âmbito da NATO.
Por outro lado, está a evidenciar-se uma guerra por procuração na guerra da Ucrânia. Putin fala muito abertamente sobre o facto de se tratar, na realidade, de um conflito com a NATO. A Ucrânia está a ser dilacerada entre interesses geopolíticos e bombardeada pela Rússia, que, como já referido, está a afirmar as suas reivindicações de poder, após o fim da União Soviética e dos EUA como hegemonista mundial. De facto não deveria importar se a Ucrânia pertence à Rússia ou se, “independente”, pertence ao Ocidente, uma vez que, de uma maneira ou de outra, é provável que haja uma tendência descendente em termos de condições materiais de vida, especialmente porque o Ocidente também está a caminhar para a direita no seu declínio económico e social. Trump apresenta-se cinicamente em toda a parte como um mediador e um anjo da paz que tem o mundo no coração, apesar da sua política aduaneira e do seu MAGA.
A Europa, por enquanto, pode sentar-se na mesa das crianças, tremendo perante Trump, não só devido à sua política aduaneira, mas também devido à sua tendência de retirada da NATO, que implica um aumento exorbitante das despesas militares, o que vai de par com uma mobilização ideológica. Entretanto está a espalhar-se uma prontidão para a guerra – quase uma ânsia pela guerra – que é de estarrecer. Até os membros da NATO, veja-se o caso da Gronelândia, são alvos potenciais para Trump, como já referido. Quando se torna evidente em toda a parte que o sistema capitalista está a rebentar pelas costuras, a guerra é uma velha manobra de diversão, bem conhecida da história, para evitar ter de enfrentar este facto e ter de procurar um sistema social diferente de um ponto de vista emancipatório. Trump está a fazer de Carl Schmitt também para o interior, enviando militares em resposta à “agitação interna” em várias cidades dos EUA
As despesas sociais estão a ser cortadas em toda a parte – e também aqui na Alemanha. O número de sem-abrigo está a aumentar, incluindo mulheres e crianças, na Alemanha o rendimento dos cidadãos foi convertido num “rendimento básico” com condições rigorosas etc. Os idosos improdutivos, entre outros, são repetidamente objecto de escrutínio. Será que ainda vale a pena prestar-lhes cuidados médicos dispendiosos? O darwinismo social está a espalhar-se universalmente.
Por enquanto, a China está sentada à beira do rio, à espera que os cadáveres passem a flutuar, mas está atormentada por problemas internos (crise da dívida e do imobiliário, elevado desemprego juvenil, queda demográfica previsível etc.). Mantém-se relativamente calma em termos de política externa (mesmo que haja escaramuças com Taiwan e com o Japão), procurando cerrar fileiras com o Sudeste Asiático e os Estados BRICS alargados, bem como com a SCO (Organização para Cooperação de Xangai), devido à situação geopolítica caótica (tarifas, política europeia solitária etc.). Também está a estender os seus tentáculos a África, não só por motivos extractivistas, mas também porque os países africanos têm de pagar as infra-estruturas, o que faz aumentar a dívida pública. A dívida pública e a inflação que lhe está associada são um problema gerador de crises com potencial de colapso em todos os países. Em termos de IA, a China está agora à frente, o que irrita profundamente os EUA, levando-os a subsidiar o sector de alta tecnologia. O mundo tornou-se muito mais complicado do que nos tempos da Pax Americana, quando os EUA ainda eram o hegemonista mundial incontestado. Agora assemelha-se a um barril de pólvora. É o que mostra este esboço mesmo incompleto. Existe agora uma “crise de hegemonia” (Tomasz Konicz).
Mais ainda do que no tempo da boa e velha globalização, a sociedade (mundial) apresenta-se aos indivíduos como um aparelho pronto a usar, uma relação que caracteriza o capitalismo em geral e não apenas na esfera geopolítica, mas que se exprime mais claramente do que nunca na sua actual fase de declínio. “Já não percebo nada” é uma queixa frequente. Os interesses geopolíticos estão hoje de facto a desmoronar-se após o declínio dos EUA. E é de facto difícil prever o que vai acontecer a seguir, devido à complexa situação nada clara e à confusão dos actores políticos. Temos de estar sempre preparados para todo o tipo de coisas.
***
É precisamente esta complexidade que leva a uma visão personalizadora das coisas. E, à primeira vista, isso parece ser correcto. Trump rodeia-se de megalómanos bilionários da alta tecnologia que, na sua loucura, querem transformar o mundo num grande negócio. O neoliberalismo falhou e agora é suposto vir a ser salvo por um disparatado neoliberalismo autoritário. Fala-se muito de oligarcas e de dominação dos bandos (alguns falam mesmo de feudalismo tecnológico). Alguns (ex-)anti-alemães podem assim juntar-se à retórica conspirativa agora comum, com referência à ainda rudimentar teoria dos “rackets” de Horkheimer. Não se trata de negar que a economia das cliques, do compadrio e do nepotismo se está a espalhar cada vez mais universalmente. A “rede de contactos” é hoje uma condição de sucesso a todos os níveis, para se conseguir um emprego, um apartamento ou uma consulta antecipada com um especialista. Como Robert Kurz escreveu em 2005: "A resposta neo-existencialista ou neo-situacionista ao niilismo da modernidade se revela, assim, uma resposta ela própria niilista. A ‘individualização’ (Ulrich Beck) pós-moderna [...] torna-se cada vez mais obsoleta. Mas os indivíduos atomizados, que precisam abdicar como reis de si mesmos no reino do consumo pessoal de mercadorias, não voltam a ser sociáveis. O resultado é a aglomeração casual que forma o populacho. Não é só a campanha racista e anti-semita que tem uma nova conjuntura a nível mundial, em múltiplas formas de manifestação, sob as condições de crise da globalização. Em toda parte se formam aqueles que se sentem ter ficado para trás, que não podem mais satisfazer sua ambição e que não são mais solventes. Só que eles não se formam para a solidariedade, mas sim para a auto-afirmação, tão descompromissada quanto militante, em contextos mafiosos, isto é, inteiramente independente de qualquer conteúdo. As leis do ‘milieu’ criminoso se generalizam em todos os grupos e instituições sociais. Trata-se de mais do que a mera corrupção tradicional. No empresariado, nos partidos políticos, na actividade científica e mesmo nos círculos teóricos de esquerda, a personalização dos problemas, a intriga, a patologização recíproca e o escândalo encenado estão na ordem do dia. No nível do cotidiano, a guerra de todos contra todos se converte em ‘estado de excepção molecular’" (Kurz: Weltkrise und Ignoranz, 2013, 172s.) [Ensaio em Português: O Estado de excepção molecular, online: http://www.obeco-online.org/rkurz202.htm].
No entanto, seria completamente errado explicar a actual situação social simplesmente em termos de dominação dos gangues, de acordo com o velho lema da esquerda: por detrás dos fascistas está o capital. Já no passado era verdade isto: "Os interesses dos políticos fascistas e de certas facções capitalistas podem ter-se sobreposto, e houve certamente alianças entre eles, mas o fascismo não actuou em nome do capitalismo. Pelo contrário, tinha como objetivo uma renovação fundamental [...] com base na comunidade nacional. O fascismo também não era um movimento de sedutores e seduzidos obscuros [...] As pessoas convertiam-se voluntariamente em massa ao fascismo, porque este oferecia calor, identidade e um sentimento de pertença num mundo frio“ (Amlinger/Nachtwey: Zerstörungslust, 2025, 251) – até à eliminação dos ”Outros", seria preciso acrescentar.
Uma visão de esquerda tradicional também perde de vista o facto de muitos dos cidadãos (eleitorais) se identificarem com figuras como Trump, Musk ou Thiel. "Os indivíduos superiores são legitimados como vanguarda que tem o direito a liderar a sociedade. Hoje as pessoas identificam-se novamente com uma figura sagrada de líder, mas de maneira modificada. Os seus seguidores reconhecem-se em Trump e na sua racionalidade cínica; os bilionários da tecnologia são admirados pelas suas capacidades supostamente excepcionais, especialmente pelo seu elevado QI" (ibid., 25ss.).
A crítica social de hoje não pode deixar de analisar a relação entre “ralé e elite” (Hannah Arendt), bem como uma visão complexa e sistémica do desastre, quando a sociedade e o capitalismo se desintegram e simultaneamente se pretende “salvá-los” com absurdas medidas autoritárias e proteccionistas. A subjectividade capitalista e a determinação da forma sem sujeito são interdependentes.
***
Actualmente um grau considerável de irracionalidade domina o espírito do tempo. Não é por acaso que a ideologia dos Trumps, Musks, Thiels etc. é designada por “iluminismo das trevas”. Depois de 2008 o capitalismo entrou numa nova fase de decadência. Um “ponto de viragem” já ocorreu após o crash de 2008, e não apenas em 2022 com o ataque da Rússia à Ucrânia, como disse Olaf Scholz. Numa espécie de movimento dialéctico de viragem, tentou-se passar da globalização para a desglobalização, o que correspondeu a uma viragem à direita e às consequências associadas. Não era de modo nenhum improvável para a crítica da dissociação-valor "o processo da crise levar a uma ‘desglobalização’, na medida em que se ensaia a retirada para o egoísmo proteccionista das economias nacionais já meramente formais; tudo isso acompanhado de ideologias neonacionalistas. Com isso a crise não será vencida, mas sim agravada" (Kurz: Weltkrise und Ignoranz, 2013, 227s.) [Entrevista em Português: Entrevista à revista brasileira “IHU online”, 20.03.2009, online: http://www.obeco-online.org/rkurz327.htm]).
As análises da crise feitas pela crítica da dissociação-valor nos últimos 40 anos, naturalmente, estavam inicialmente preocupadas com a situação na era da globalização neoliberal. Tiveram toda a razão na previsão de um crash, que se concretizou em 2008. Este crash conduziu a novas distorções, contradições e “disrupções”, como se diz em novo Alemão, e resulta do facto – e este é um elemento central da crítica da dissociação-valor – de cada vez mais trabalhadores se tornarem supérfluos devido à racionalização com aumento da produção, o que acaba por conduzir ao colapso do sistema. O irracionalismo, o niilismo e a ânsia de destruição, que também aceita a autodestruição, estão a fazer-se sentir por toda a parte. As pessoas estão a votar na direita, mesmo que elas próprias sejam as perdedoras em resultado das medidas correspondentes. A AfD está actualmente (25 de Dezembro) a par da CDU/CSU, com 27%. Insistir na boa e velha democracia não ajuda muito; a maioria dos investigadores do fascismo concorda que as tendências de direita hoje têm origem na própria democracia. As contradições actuais já não são contradições capazes de fazer subir o desenvolvimento capitalista a um novo patamar, como na transição para o fordismo, mas são completamente díspares e opostas entre si, por assim dizer não dialecticamente.
Isto é visível, por exemplo, quando se promove a IA e ao mesmo tempo se pretende recuperar a indústria, embora os postos de trabalho estejam a ser racionalizados em resultado da IA. Pretende-se que o neoliberalismo seja prosseguido após o seu fim de maneira proteccionista, mas isso contradiz o credo neoliberal do mercado livre e conduz a uma crise ainda maior. O nacional-socialismo conseguiu ainda assim proporcionar benefícios aos “camaradas do povo” através das despesas sociais na fase ascendente do fordismo e do keynesianismo. O neoliberalismo autoritário, por seu turno, pretende abolir em grande parte o Estado social, o que mais cedo ou mais tarde é susceptível de provocar uma agitação, que pode incluir também antigos apoiantes da direita. O declínio do hegemonista mundial, os EUA, não conduzirá a um equilíbrio harmonioso numa ordem mundial multipolar. A ascensão da China é uma ascensão relativa, porque ocorre no contexto de um capitalismo em declínio; o mesmo se aplica às ambições de grande potência da Rússia. Existe agora uma “crise de hegemonia” e não um ressurgimento de relações mundiais hegemónicas estáveis. Estas são apenas algumas das contradições e constelações de problemas que deviam ser aqui explicitamente nomeadas mais uma vez e que já não podem ser ultrapassadas de forma imanente; porque também não há nenhum regresso ao modo de globalização, que há muito foi desacreditado, e ao qual a política de desglobalização já é uma reacção. A actual crise económica e social manifesta-se designadamente numa redução das exportações que leva a um declínio da actividade de investimento, numa redução das importações com a consequência de aumentos de preços, recessão, elevado endividamento nacional sobretudo devido às despesas militares, perigo de um grande crash nos mercados financeiros, pobreza em massa e ameaça de guerra. A guerras e as ameaças de guerra contra outras nações deveriam aqui também servir para desviar a atenção dos conflitos e tensões sociais internos. Tudo isto anda de mãos dadas, ceterum censeo, com o niilismo, a irracionalidade e a sede de destruição.
Hoje a nova direita, que paradoxalmente se apresenta em geral como filosemita, também é contraditória, nomeadamente na sua oposição aos refugiados do Médio Oriente, o que há muito tempo leva a conflitos no campo da direita. No entanto, à medida que esta crise se for desenvolvendo, é bem possível que também as velhas visões anti-semitas do mundo, em todo o caso já em circulação, se tornem ainda mais proeminentes. Já se fala de uma aliança entre Wall Street e Silicon Valley. Se houver um colapso financeiro ou se se tornar cada vez mais claro que a IA está a liquidar muitos postos de trabalho, os bilionários da alta tecnologia e os super-ricos também poderão ser vítimas do ressentimento, por muito que tentem retirar-se para ilhas. A IA, com a sua extensa suspensão de pessoas, é particularmente adequada para a denúncia pública do abstracto. As condições sociais são deixadas de fora da equação. Assim estão a surgir hoje novas contradições. Neoliberais, super-ricos e especuladores autoritários estão a agitar-se contra os especuladores, o Estado profundo e afins. George Soros continua a ser o ponto central de ataque dos Trumps, dos Orbans e dos Netanyahus. Eles podem acabar por ser vítimas do seu próprio veredicto e a autoritária revolução da alta tecnologia pode devorar os seus filhos. O capital como “sujeito automático” (Marx) também não se se detém perante eles. O declínio do capitalismo não se manifesta apenas na economia, mas também na tão discutida policrise, ou seja, também a nível ecológico, social e político, e de facto é a própria continuação da existência da civilização ocidental (se é que se pode chamar assim) que está em declínio. Isto já foi explicado em vários textos da crítica da dissociação-valor. Também nos países ocidentais o resultado deste processo pode ser guerra civil, guerra, ainda mais administração do estado de necessidade e uma economia de guerra, uma vez que as contradições já não podem ser resolvidas dentro do sistema e o capitalismo não pode ascender a um novo nível de desenvolvimento. Acima de tudo, há uma (re)masculinização mundial, que é não só resposta a uma maior igualdade de género, mas também expressão do facto de que a relação hierárquica de género é uma forma basilar da socialização capitalista patriarcal e não pode ser ultrapassada dentro do capitalismo, como alguns pensavam ou ainda pensam, mesmo que a roda não possa certamente voltar para trás, como sugere a ideologia da esposa tradicional (tradwife). Esta tendência torna muito claro que há que partir da dissociação-valor e não do valor, como princípio basilar que afinal estrutura não só a relação hierárquica de género em sentido estrito, mas a sociedade como um todo.
***
Ora como é que a esquerda reage a tudo isto? Como sabemos, a esquerda está actualmente marginalizada. Depois de 2008, surgiram movimentos como o Occupy, o Podemos ganhou fama em Espanha, na Grécia o Syriza chegou ao poder; inicialmente também se depositaram esperanças na “Primavera Árabe” e, mais recentemente, o movimento climático atraiu muita atenção. Todos estes movimentos falharam ou não deram em nada. No entanto, as pessoas continuam a sentir-se animadas com os mais pequenos acontecimentos, como a eleição para presidente da Câmara de Nova Iorque de Mamdani (que, por acaso, também tem uma tendência anti-semita). Na Alemanha, a Esquerda obteve 9% dos votos nas eleições para o Parlamento, contra todas as expectativas. Tudo o que rasteja e se arrasta na esquerda parece estar hoje a refugiar-se no partido “Die Linke”, sobretudo para enviar um sinal contra a direita. A alta inflação, o aumento dos preços dos géneros alimentícios, das rendas e dos cuidados de saúde são um problema grave em muitos países, o que também terá impulsionado o “Die Linke”. No entanto, é bem possível que surjam conflitos no seio do “Die Linke”, devido ao seu carácter de partido do movimento e simultaneamente de participação parlamentar, o que há muito é evidente na questão Israel-Palestina, levando a divisões, mesmo havendo um amplo acordo na crítica às extravagâncias de Trump. Em todo o caso, nestas condições será provavelmente difícil estabelecer uma posição semelhante à dos Verdes.
Em termos ideológicos, há anos que se assiste a um retrocesso, de volta ao anacrónico pensamento tradicional das classes. Está-se a adoptar uma posição populista de “esquerda”, numa tentativa de roubar o apoio à direita. Algumas pessoas estão agora alarmadas com o facto de a direita estar a atacar maciçamente as chamadas minorias. No entanto, a própria esquerda mainstream contribuiu maciçamente para isso, com a sua afirmação da “classe” como a contradição principal, transformando em contradições secundárias o racismo, o sexismo, a homofobia, a transfobia e o anti-semitismo (sendo este último também evidente no anti-semitismo de esquerda). Nancy Fraser está agora a apelar a um novo partido de esquerda, tendo em conta o fracasso dos Democratas e do populismo de esquerda nos EUA. Isto é demasiado míope, pois em termos gerais é nomeadamente necessária uma esquerda completamente nova, que esteja plenamente consciente da obsolescência da economia e da política e da necessidade de um novo modo de socialização, porque os problemas já não podem ser tratados de forma imanente. É de esperar que, mais cedo ou mais tarde, se abram aqui fissuras e contradições que apontem numa direcção emancipatória e libertem as forças correspondentes. Afinal de contas, já houve grandes protestos contra Trump, por exemplo, e na Alemanha contra a AfD.
Mas também alguns “críticos do valor” estão a acompanhar os tempos – tempos reacionários – e voltaram-se para o pensamento transversal, como a exit! tem criticado repetidamente. Não se furtam a pressupostos darwinistas sociais e malthusianos. Isto aplica-se sobretudo ao Wertkritik.org e aos Streifzüge. Entretanto, queixam-se também de que antigamente era possível dizer qualquer coisa sobre “Israel” no Wertkritik, o que agora é tabu. Não em último lugar, o conceito de anti-semitismo estrutural é para eles um espinho na garganta. O facto é que a importância do anti-semitismo na crítica do valor foi minimizada durante muito tempo. Só em meados da década de 1990 é que isso mudou gradualmente e a importância deste problema foi reconhecida. Os trabalhos de Moishe Postone há muito que sugeriam que o valor e a abstracção foram erradamente combatidos no anti-semitismo, levando ao extermínio dos judeus na Alemanha nacional-socialista. Pretende-se agora voltar a um ponto de vista que há muito foi ultrapassado. Com isto também se ignora a transmissão intergeracional no que respeita ao extermínio dos judeus no Holocausto.
Não é este o caso da Krisis. No entanto, o foco aqui é principalmente a “mediação” e a actuação em redes correspondentes. Mas a questão é: mediação de quê? Entretanto, a homepage da Krisis contém uma grande variedade de artigos que não são de todo claros quanto ao que ainda têm a ver com a crítica de valor. Também continuam a ser prosseguidas pseudoconcepções utópicas, como a economia solidária e considerações práticas relacionadas com os cuidados. “Participar é tudo” parece ser o lema.
Em vez disso, hoje o foco deve ser ir ao cerne da actual situação desoladora e confusa. Como é ela e porquê? Isto não exclui de modo nenhum o empenhamento prático, seja em relação ao antifascismo, ao sexismo, ao racismo, ao anti-semitismo e ao anticiganismo, mas também ao antimilitarismo, à ecologia, à habitação etc. As alianças também são necessárias (excluindo os pensadores transversais e as frentes transversais).
Textos que não se enquadram exactamente nos pressupostos da dissociação-valor devem ser publicados, se contiverem ainda assim ideias que levem mais longe; no entanto, não se deve deixar perder o domínio do conceito, como pressuposto para poder intervir de forma significativa – também em termos práticos. Caso contrário, a crítica do valor não passará de meros destroços de naufrágio nas relações capitalistas patriarcais asselvajadas.
Quando aqui se apontam diferenças entre diversas orientações da crítica do valor, não se trata simplesmente de lutas sectárias. É importante deixar claro que posições problemáticas da “crítica do valor” atraem de facto a atenção internacional, como é o caso de Anselm Jappe, com as suas implicações retrógradas e vitalistas, ou de Fabio Vighi, que entre outras coisas coloca a crítica do valor no contexto da teoria da conspiração, bem ao contrário das suas intenções originais. Aqui é importante não deixar de se demarcar e esclarecer que a exit! segue um caminho completamente diferente (ver Böttcher, Herbert: Du musst Gesundheitsdiktatur sagen! Wer ist der beste im Regredieren?, 2022, em exit-online.org) [Em Português: Tens de dizer "ditadura da saúde"! Quem é o melhor a regredir?, online: http://www.obeco-online.org/herbert_bottcher26.htm].
Para o conseguirmos continuamos a necessitar urgentemente de donativos.
***
O pós-colonialismo e a decolonialidade são actualmente temas importantes. Enquanto o pós-colonialismo foi hegemónico a partir dos anos 80, desde os anos 2010 que se fala cada vez mais de decolonialidade. No entanto as diferenças entre os dois conceitos nem sempre são muito claras. Grosso modo o pós-colonialismo tem a ver com a problematização das estruturas de poder colonial e a (desconstrução) das identidades culturais num contexto universitário. Em contraste a decolonialidade é anti-académica, passando para primeiro plano os movimentos sociais fora da universidade, embora com justificações académicas. A crítica dos “subalternos” é quase sempre omitida.
Como “visão geral e introdução” ao tema, é republicado o ensaio de 1993 de Robert Kurz “Die Aufhebung des weißen Mannes” (Supressão e conservação do homem branco), (1) no qual Kurz se centra no colonialismo e no anti-colonialismo. Ele via a minoria dos homens brancos como executores da lógica e da racionalidade da forma de mercadoria – essa a sua tese. Tendo como pano de fundo a crítica da dissociação-valor, ele chega à seguinte conclusão: "As forças produtivas, extravasadas pelo próprio sistema de mercado, intervêm de modo tão profundo na natureza interna das necessidades humanas e na natureza externa do mundo vegetal e animal no solo, na água e no ar que estes conteúdos sensíveis não podem ser reprimidos e violados por muito tempo. Com isso, contudo, os movimentos de emancipação dos trabalhadores assalariados e dos antigos povos colonizados esbarram em seus limites. Estes também não irão longe se continuarem a adoptar a forma social do homem branco [...] As mesmas forças produtivas que produziram, na forma do sistema de mercado, a crise ecológica e a crise das relações entre os sexos são responsáveis por um desemprego em massa, crescente e global [...] Mesmo porque essas mesmas forças produtivas engendraram o mercado mundial totalizado, enredando globalmente a humanidade. O velho nacionalismo libertador do movimento anticolonialista gira em falso [...] A guerra dos sexos, as catástrofes sociais e ecológicas, o fundamentalismo pseudo-religioso e a guerra civil étnica mostram que o mundo ocidentalizado sai dos trilhos [...] As formas sociais ocidentais, formadas na era dos descobrimentos, não são suficientemente avançadas para poder incorporar o mundo único que é seu próprio produto [...] Nessa medida, o fim efectivo da colonização externa e interna ainda se encontra à nossa frente e, enquanto meta para o século XXI, pode ser resumido em uma fórmula curta: Supressão e conservação do homem branco". Em nossa opinião, ainda são amplamente válidos os pontos essenciais deste texto, que no entanto reflecte o estado das coisas em 1993, enquanto os artigos seguintes de Justin Monday e Herbert Böttcher abordam a discussão mais recente.
A segunda parte de “A descontinuidade do colonialismo – Sobre a filosofia da história e a história real do pós-colonialismo e da decolonialidade”, de Justin Monday, baseia-se na categorização do pós-colonialismo no meio académico contemporâneo, feita na primeira parte, e analisa a história da formação da teoria a partir de meados da década de 1980. O foco aqui é uma análise do desenvolvimento histórico e dos motivos que levaram a um questionamento da nação a partir de uma perspectiva nacionalista de libertação, por um lado, e à viragem pós-moderna desconstrutivista, por outro. Estes motivos são contrastados com as teorias da “colonialidade”, cujos protagonistas apelam a-historicamente para que primeiro se comece finalmente a “descolonização”. Estas teorias dominam entretanto os debates e fornecem os chavões políticos, mas têm muito menos para oferecer do ponto de vista da crítica da ideologia. Com elas, a anti-ontologia pós-colonial virou ontologia, enquanto a terminologia desconstrutivista é agora utilizada quase exclusivamente para encenar a relação ambivalente com a descolonização histórica a partir de uma distância estética.
Perdeu assim o seu núcleo temporal. No entanto, a abordagem crítica da ideologia e do sujeito tem ainda a obrigação de trabalhar os momentos da teoria pós-colonial em que apela à relativização do conceito de ser humano que a transformação das antigas colónias em Estados-nação independentes trouxe consigo. Um excurso examina também o papel do pós-colonialismo na actual onda anti-semita e anti-sionista nas universidades. O que é feito principalmente através da análise do livro de Ingo Elbe “Antisemitismus und Postkoloniale Theorie”.
A “Filosofia da Libertação” de Dussel é repetidamente referida no contexto da discussão sobre uma visão pós-colonial-decolonial do capitalismo e da modernidade de influência europeia. A sua perspectiva prática e eticamente fundamentada parece ser particularmente atractiva. Ele desenvolve-a como um “contradiscurso da modernidade”, que se liga às experiências e conhecimentos das culturas indígenas da América Latina e se baseia em tradições de pensamento com raízes na filosofia europeia (de Descartes a Levinas), mas que permaneceram bastante marginais.
Na sua contribuição “Não há libertação sem o conceito de uma totalidade social (mundial) – Sobre a filosofia da libertação de Enrique Dussel como contradiscurso da libertação”, Herbert Böttcher deixa claro que, apesar do peso que Dussel dá à contextualização político-económica da sua reflexão, esta permanece presa às categorias marxistas tradicionais (trabalho vs. capital, dominantes vs. oprimidos etc.). Dussel acusa a teoria crítica inicial de ter rompido com estas categorias, mas ignora o seu conceito de totalidade social. Consequentemente, também não consegue desenvolver um conceito de totalidade social (mundial) e muito menos reflectir sobre o seu carácter de crise. Em vez disso, ele busca refúgio numa ética da exterioridade orientada para o Outro em vez de para o Eu, aterrando numa transformação social que é apresentada como democratização. Isso pode agradar a académicos activistas e argumentadores, mas não pode romper emancipatoriamente com as relações ruindo na crise e ainda assim caoticamente «dominantes». Sem o conceito de uma totalidade social (mundial), a ética continua a ser a única opção, mesmo que se chame a si própria “ética da libertação”. As perspectivas emancipatórias só podem surgir quando há uma ruptura com a constituição capitalista, em vez de fazer dela o horizonte cada vez mais estreito do raciocínio ético, num “retorno do mesmo”, apesar do agravamento dramático da crise.
Norma Mattarei aborda os antecedentes e as consequências da política de direita em Itália no seu ensaio “O governo de direita em Itália como desesperada tentativa de salvação do colapso social”. Tal como no resto do mundo, a direita está em ascensão em Itália e está no poder desde o Outono de 2022, o que constitui uma oportunidade para analisar os factores históricos e sociais que conduziram a esta situação devastadora. No país onde o fascismo teve origem, a direita tem uma longa tradição e o seu desenvolvimento reflecte as contradições da sociedade italiana. Condições de trabalho precárias, trabalhadores pobres e estruturas mafiosas são caraterísticas de uma economia que já nos anos de prosperidade da década de 1960 dependia de subsídios estatais. Actualmente o Estado italiano está fortemente endividado, as empresas são privatizadas e o trabalho não declarado é generalizado. A nível psicossocial, os problemas caracterizam-se por um aumento extremo de doenças psíquicas, sobretudo entre as gerações mais jovens. Problemas materiais, disfuncionalidades no quotidiano e uma desmoralização geral contribuíram para o reforço da direita, que, agora no poder, é suposto resolver todos os problemas. Perante o ambiente nacionalista e misógino, as políticas xenófobas e os cortes no sector social, coloca-se finalmente a questão de saber por que razão não parece estar a emergir na esquerda italiana uma perspectiva emancipatória, para lá do mercado e do Estado.
Quando Robert Kurz apelou a uma ruptura com o Iluminismo, isso causou alguma irritação – mesmo no círculo dos críticos do valor da altura. Havia um grande receio de cair nas águas do anti-modernismo reaccionário, e alguns deles provavelmente perderam a coragem da radicalidade neste debate. Na polémica inicial, Kurz deixou então claro que uma crítica emancipatória do Iluminismo diz respeito, em primeira linha, à forma de sujeito. O homem moderno, como sujeito do Iluminismo, encarna um ego superficialmente celebrado, que no entanto recalca em grande parte a sua capacidade psíquica no inconsciente, tornando-se assim a Alma Morta que deu o título a um famoso romance da literatura russa. A pulsão de morte capitalista, que tende a destruir tudo em favor da forma vazia do valor, acaba por devorar a própria psique na forma de mercadoria. Sempre que o conceito psicanalítico de narcisismo descreve precisamente isto, ele eleva-se acima do disparate da moda a que hoje habitualmente sucumbe. No século XIX, a literatura russa gozava da reputação de literatura mundial quando produzia obras que reflectiam a natureza do sujeito moderno na forma de mercadoria, que é difícil de retratar. Nils Meier demonstra-o no seu ensaio “A cisão de Raskólnikov no contexto da crítica da dissociação-valor – A imagem literária de Dostoiévski da ‘razão sangrenta’”, com base no romance de Dostoiévski ‘Crime e Castigo’. Por um lado, a sua contribuição serve para apresentar um livro (2) em que se debruçou intensamente sobre o tema; por outro lado, no contexto da crítica de Kurz ao Iluminismo, chega a novos resultados que vão além do livro apresentado.
A unidade de Marx e Engels, pressuposta pelo marxismo tradicional em todas as questões de conteúdo, já não pode ser considerada como um dado adquirido. Isto aplica-se também ao conteúdo de uma “filosofia marxista” (o conhecimento como reflexão, a dialéctica da natureza, a unidade do mundo na materialidade etc.). Este conteúdo foi esboçado por Engels em alguns escritos populares e não representa o que Marx entendia por filosofia. A filosofia marxista de Engels, como parte de uma visão do mundo do marxismo, surgiu da necessidade de criar uma orientação significativa, após o desaparecimento das crenças tradicionais. Caracteriza-se por um naturalismo e um cientismo limitados ao seu tempo.
Se olharmos para a relação de Marx com a filosofia, torna-se evidente uma atitude ambivalente em relação a ela: Por um lado, rejeitou-a abruptamente; por outro, adoptou grande parte do seu conteúdo. Depois de ‘A Ideologia Alemã’ (1845), Marx recalcou o discurso filosófico: contra a própria convicção, declarou o seu conteúdo como ideologia em toda a linha. Daqui resultaram várias lacunas na crítica do capitalismo, enquanto teoria crítica do ser humano, da natureza, da história e do método ou conhecimento. Norbert Walz aborda estas lacunas e a já referida redução da filosofia pelo marxismo no ensaio “O recalcamento da filosofia em Marx e as tarefas de uma pós-filosofia do presente”. Na pós-filosofia do presente que ele sugere, (3) estas lacunas devem ser preenchidas. Em primeiro lugar, há que retomar os conteúdos filosóficos recalcados por Marx, que remetem para a filosofia ocidental (Aristóteles, Kant, Hegel, Feuerbach, ou a ética perfeccionista, o reconhecimento, a dialéctica/história, a vida neste mundo). Enquanto a pós-filosofia do presente tem de manter a diferença metafísica entre essência e aparência, uma pós-filosofia do futuro pode prescindir dessa diferença. Nela deixaria de haver uma divisão entre essência e aparência, uma vez que as pessoas tomariam nas suas próprias mãos a sua vida socializada e o seu metabolismo com a natureza e deixariam de ser regidas por “seres” dominantes.
Num posfácio de Herbert Böttcher são examinados com mais detalhe alguns aspectos deste texto numa perspectiva da crítica da dissociação-valor.
O artigo de Roswitha Scholz é sobre "A heterossexualidade compulsória e o queer no patriarcado capitalista", uma dimensão da discriminação até agora insuficientemente elaborada na crítica da dissociação-valor. Através da análise de uma série de conceitos teóricos proeminentes, a autora defende a tese central de que, com o desenvolvimento da dissociação-valor e a “polarização dos caracteres de género” (Karin Hausen), a heterossexualidade foi estabelecida como a forma dominante de sexualidade, com a correspondente distribuição de actividades entre “homem e mulher”. As sexualidades “desviantes” foram criminalizadas e rejeitadas, o que andou de mãos dadas com os processos de disciplinamento do patriarcado capitalista em geral. Na pós-modernidade, a comum moralidade heterossexual compulsória foi suavizada, mas não ultrapassada. Com Martin Dannecker, Scholz assume a existência de uma pseudotolerância, que hoje se manifesta em ataques crescentes a homossexuais e pessoas trans. Actualmente o objetivo tem de ser combater maciçamente a homofobia e a transfobia no decurso do generalizado desenvolvimento maciço da direita.
As análises “materialistas” não são suficientes para compreender a heterossexualidade compulsória; pelo contrário, é preciso incluir aqui também reflexões psicanalíticas, ou seja, o lado do sujeito. Isto também mostra que ser gay ou ser lésbica, por exemplo, são posicionamentos diferentes no contexto de ideias dicotómicas de género. Em contraste com as abordagens desconstrutivistas radicais, Scholz defende a concepção do corpo mais uma vez no sentido de uma dialéctica sexo/género, natureza/cultura – sobretudo tendo como pano de fundo o problema da ecologia. Uma crítica radical da sociedade deve, portanto, partir da premissa de que a heterossexualidade compulsória e a homossexualidade compulsória correspondem ao patriarcado capitalista, e que tais divisões não são mais necessárias numa "sociedade diferente" que reconheça uma "sexualidade polimórfica".
De Roswitha Scholz, foi publicada pela zu Klampen uma antologia de ensaios dos últimos 30 anos: Back to the roots? Zur Regression marxistisch-feministischer Theoriebildung heute [Back to the roots? Sobre a regressão da elaboração teórica marxista-feminista hoje]; em tradução francesa: Homo sacer et les “Tsiganes ” – L'antitsiganisme – Réflexion sur une variante essentielle et donc oubliée du racisme moderne, (4) Crise et Critique/Albi 2025 e em grego: Πατριαρχία και Εμπορευματική Κοινωνία: Φύλο χωρίς το Σώμα [Patriarcado e sociedade das mercadorias: O género sem o corpo] (em techspek999. blogspot.com). (5) Crise et Critique publicou também uma antologia sobre o anti-semitismo com textos de Moishe Postone, Robert Kurz e Clément Homs, entre outros: Collectif – Le Péril antisémite: Antisémitisme structurel dans la modernité capitaliste.
Foram publicados dois livros de Nils Meier: Dostoevskijs Studien zum autoritären Charakter: Der Roman Prestuplenie i nakazanie im Kontext der Kritischen Theorie [Estudos de Dostoiévski sobre o carácter autoritário: o romance Crime e Castigo no contexto da teoria crítica], publicado por Frank & Timme/Berlin 2025 e Das Groteske ist Mimesis ist Allegorie: Eine wertkritische Revision literaturwissenschaftlicher Begriffe am Beispiel der Erzählungen von Gogol [O grotesco é mimese é alegoria: uma revisão de conceitos literários do ponto de vista da crítica do valor usando como exemplo os contos de Gogol] por Lit-Verlag/Münster 2025 e um de Norbert Walz: Verdrängte Philosophie: Zur Bedeutung einer Metatheorie von Marx' Kritik der politischen Ökonomie [Filosofia recalcada: sobre o significado de uma metateoria da crítica da economia política de Marx], publicado por Schmetterling-Verlag/Stuttgart 2025.
Roswitha Scholz pela redacção da exit!, Janeiro de 2026.
(1) In: Kurz: Robert: Der Letzte macht das Licht aus – Zur Krise von Demokratie und Marktwirtschaft, Berlin 1993, 58-73. Ensaio em Português: Supressão e conservação do homem branco, online: http://www.obeco-online.org/rkurz62.htm
(2) Meier, Nils: Dostoevskijs Studien zum autoritären Charakter: Der Roman Prestuplenie i nakazanie im Kontext der Kritischen Theorie [Estudos de Dostoiévski sobre o carácter autoritário: o romance Crime e Castigo no contexto da teoria crítica], Berlim 2025.
(3) Detalhado no livro: Walz, Norbert: Verdrängte Philosophie: Zur Bedeutung einer Metatheorie von Marx' Kritik der politischen Ökonomie [Filosofia recalcada: sobre a importância de uma metateoria da crítica da economia política de Marx], Stuttgart 2025.
(4) Em alemão em: exit! – Krise und Kritik der Warengesellschaft, No. 4, 177-227, bem como em exit-online.org. Em Português: Homo Sacer e Os Ciganos. Anticiganismo – Reflexões sobre uma variante essencial e por isso esquecida do racismo moderno, Antígona, Lisboa, 2014. Online: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz7.htm
(5) Tradução do inglês (2009): https://mediationsjournal.org/articles/patriarchy-and-commodity-society.
Original “Editorial Exit Nr. 23” in exit-online.org, 18.01.2026. Tradução de Boaventura Antunes (01/2026)