«O sexismo volta a ser declarado uma contradição secundária»

 

Entrevista com a teórica social Roswitha Scholz sobre o estado da teoria feminista

 

Konkret: O seu novo livro chama-se Back to the Roots.

Roswitha Scholz: O título refere-se, como diz o subtítulo, à regressão na elaboração da teoria marxista-feminista, na verdade, na elaboração da teoria de esquerda como um todo, pois esta muitas vezes constitui a base para as teorias feministas. E aí se observa um retorno ao antigo marxismo do movimento operário, com a luta de classes e a ontologia do trabalho, e ao cidadão comum, bom trabalhador e disposto a trabalhar. Tenta-se simplesmente explicar o sexismo, o racismo, o anti-semitismo, o anticiganismo, a homofobia e a transfobia novamente através da contradição de classes. Em resumo, essa é a minha crítica à actual elaboração teórica de esquerda.

 

Como é que se chegou a esta regressão?

Ela ocorre num contexto de regressão geral na sociedade mundial – a viragem à direita, a volta ao nacionalismo, a nacionalização do capital através de direitos aduaneiros e assim por diante, com que se reage ao facto de a globalização não ter funcionado, embora seja previsível que isso não resulte, mas sim agrave ainda mais a crise. É neste contexto que se deve ver o recurso da esquerda ao marxismo da luta de classes e à ontologia do trabalho. É um reflexo dessas relações sociais abaladas pela crise e o equivalente de esquerda à regressão da direita.

 

Qual é o problema com o conceito de classe?

O problema com o conceito de classe é que hoje ele já não faz sentido. O conceito de classe, tal como ainda se encontra em Marx, já não consegue descrever adequadamente as condições actuais, porque a sociedade evoluiu de uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços, com uma ampla camada média. A causa central da regressão está aqui: no medo das camadas médias de uma descida social. Marx fala, neste contexto, de contradição em processo: no decorrer do desenvolvimento das forças produtivas, cada vez mais trabalhos são racionalizados, ao mesmo tempo que aumenta a produção. O essencial aqui é que o trabalho abstracto não é algo ontológico, mas um produto histórico do capitalismo e do patriarcado, que tem de ser questionado. Por isso, o trabalhador também não pode mais ser aquele a quem se apela simplesmente.

 

Alguma vez foi?

Essa é precisamente a piada. Como é sabido, o proletariado também se inclinou para o fascismo, já na década de 1930. Toda essa concepção de classe em si e para si de Marx ficou totalmente desacreditada. E continua a desacreditar-se hoje em dia. Poderíamos recordar a Escola de Frankfurt, onde, na Dialética do Esclarecimento, se afirma que o ser humano, no seu esforço de autopreservação, se transforma num anfíbio. Ou seja, torna-se um ser de reacção instintiva, que já não questiona a sua existência e se conforma com as circunstâncias.

 

E qual é o problema da análise marxista-feminista?

Tomemos, por exemplo, a Social Reproduction Theory de Lise Vogel. O livro foi publicado em 1983, mas está a ser intensamente discutido actualmente. Vogel pega em Marx tal como ele é – quer dizer, o Marx da luta de classes, não o meu Marx do fetiche – e simplesmente pinta o domínio da reprodução com um pincel feminista. O que ela não faz é conceber a mulher como o Outro, como activa nesse domínio da reprodução que é menos valorizado. Para mim, esse Outro abrange o lado psicossocial, ou seja, a dissociação também dentro do sujeito masculino, que inferioriza as características consideradas femininas, e o facto de que isso também pode ser comprovado em discursos científicos, teológicos e filosóficos. Além disso, a dissociação-valor é um processo. Antigamente havia uma polarização dos caracteres sexuais: o homem é racional, com um superego forte, e a mulher é emocional e sensível blá, blá, blá. Mas isso não permaneceu assim. Desde os anos 70, cada vez mais mulheres estão a trabalhar, o nível de educação aumentou. Hoje mais mulheres do que homens concluem o ensino secundário. Actualmente elas já não são consideradas apenas donas de casa, mas, como diz Regina Becker-Schmidt, são duplamente socializadas. No entanto, continua a ser verdade que as mulheres estão abaixo dos homens em termos de estatuto.

 

No seu livro, escreve que a regressão social já é visível há décadas no centro da sociedade, mas que ganhou força nos últimos anos. Quando foi isso? Com a crise da globalização em 2007, 2008?

Wilhelm Heitmeyer já descreve essa regressão na década de 1980, quando os republicanos obtiveram vitórias eleitorais. E a «individualização» descrita por Ulrich Beck, que se iniciou nessa época, levou a grandes incertezas e à viragem conservadora dos anos de Kohl. Após a «reunificação», vieram Rostock, Mölln e Solingen. Mas tudo começou realmente em 2007, 2008, com a crise financeira. Seguiram-se a crise do euro, a crise da Grécia e, em meados da década de 2010, os movimentos de refugiados. E o resultado são figuras como Trump e o avanço dos partidos de direita em toda a Europa. Pelo que sei, apenas duas pessoas da esquerda previram a crise financeira: o sociólogo americano Immanuel Wallerstein, com base na sua análise do sistema-mundo, e Robert Kurz, com a sua teoria da crise. Primeiro ele foi ridicularizado por isso. Era o Kurz do colapso.

 

Por que é que a teoria de esquerda regrediu na crise do capitalismo? Não deveria ser o contrário?

Especialmente após 2008, formaram-se muitos círculos de leitura de Marx, houve uma nova leitura filosófica de Marx, foram publicadas várias antologias. Mas essa foi uma tendência relativamente curta e, com a ascensão da direita, a esquerda voltou a esse marxismo da luta de classes e, em grande parte, ao marxismo vulgar, porque o que se aplica à sociedade em geral também se aplica à esquerda, ou seja, em tempos de crise, as pessoas orientam-se por antigas certezas ou bobagens.

 

A regressão da esquerda também inclui a crença de que não é mais necessário interessar-se por sexismo, racismo etc.?

Na contraposição entre classes e políticas de identidade, há um sentimento contra o wokeness. Isso é personificado, por exemplo, pela BSW. Outra coisa é a tentativa da revista «Z», dedicada à renovação marxista, de explicar e resolver o problema da interseccionalidade através da luta de classes. Não há sexismo grosseiro, mas o racismo, o sexismo e assim por diante são novamente declarados como contradições secundárias. O sexismo não ocorre directamente, mas já está presente. É claro que também é preciso dizer que a política de identidade também deve ser criticada. Ela não é totalmente inocente, mas tornou-se autoritária. Escrevi um texto decididamente anti-anticiganista, no qual a palavra cigano aparecia com frequência. E então, em um evento, alguém contou quantas vezes eu usei esse termo. Como um professor aposentado que fica constantemente a marcar erros ortográficos nas margens. Totalmente formalista. Num texto sobre anticiganismo, a conotação negativa, tal como é comum na sociedade dominante, também deve aparecer. A crítica linguística só faz sentido se levar em conta o contexto e a intenção.

 

Roswitha Scholz: Back to the Roots. Zur Regression marxistisch-feministischer Theoriebildung heute. Texte aus 30 Jahren [Back to the Roots. Sobre a regressão da teoria marxista-feminista actual. Textos de 30 anos]. Zu-Klampen-Verlag, Springe 2025, 334 páginas, 32 euros. [Prefácio do livro aqui]                

 

Original “HYPERLINK "https://www.exit-online.org/sexismus-wird-wieder-zum-nebenwiderspruch-erklaert-interview-der-konkret-mit-roswitha-scholz/"Sexismus wird wieder zum Nebenwiderspruch erklärt’ – Interview mit Roswitha Scholz” in exit-online.org, 07.01.2026. Antes publicado em konkret 11/2025. Tradução de Boaventura Antunes

 

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