Thomas Meyer
Devemos sempre ficar atentos quando uma crítica ao modo capitalista de produção e de vida, que leva a um consumo cada vez maior de recursos com base na indiferença em relação ao ser humano e à natureza, é contornada precisamente transformando no verdadeiro escândalo o simples número ou taxa de crescimento da população (naturalmente, na maioria das vezes, nos «países em desenvolvimento» – o que, sem dúvida, também tem uma componente racista). O terror da «superpopulação» já havia sido disseminado no final do século XVIII por Thomas R. Malthus com a lei da população por ele formulada. Supostamente, os seres humanos se multiplicam em progressão estritamente geométrica, enquanto a produção de alimentos só pode ser aumentada em progressão aritmética. Para Malthus, a assistência aos pobres seria assim irresponsável, pois só pioraria a sorte dos pobres. Os pobres se multiplicariam ainda mais e tudo ficaria pior. Os pobres são, por assim dizer, os «infelizes que tiraram a má sorte na grande lotaria da vida» (Malthus 1977, 94; sobre Malthus, cf. Kurz 1999a, 138ss.; cf. também Mielenz 2008). Ora, a lei populacional de Malthus e a sua pérfida justificativa e errónea interpretação das catástrofes causadas pela fome não se limitaram a ser uma mera teoria. Quando, devido à dinâmica económica capitalista, a necessidade de alimentos não se conseguia expressar como procura com poder de compra e resultava em fome, os ideólogos burgueses gostavam de justificar a morte em massa com a «superpopulação» e a «luta pela existência». Consequentemente, eles também se abstiveram de combater a fome (por exemplo, através da proibição da exportação de alimentos da região afectada pela fome e da distribuição desvinculada do «trabalho» realizado). [1] Seguindo essa cruel lógica capitalista, a ajuda humanitária impediria uma reestruturação do mercado de «material humano», ou seja, não se estabeleceria um novo «equilíbrio» se os «supérfluos» fossem mantidos vivos.
Na segunda metade do século XX, muitos consideravam o crescimento populacional o principal obstáculo ao desenvolvimento dos chamados países do Terceiro Mundo. Assim procurava-se reduzir o crescimento populacional no «Terceiro Mundo». Para isso, a ajuda ao desenvolvimento foi associada a medidas correspondentes. Essas medidas consistiam designadamente em testar em mulheres do «Terceiro Mundo» novos métodos contraceptivos que não eram permitidos nos países industrializados (cf. por exemplo, os ensaios em: Beiträge zur feministischen Theorie und Praxis Nr.14).
Na década de 1970, quando a destruição ecológica passou a ser um tema de consciência pública, o pensamento malthusiano foi associado à ecologia. A «bomba populacional» ameaçava o planeta e os «limites do crescimento» seriam logo atingidos.
Esses argumentos mantêm-se até hoje e assumem uma actualidade ameaçadora num contexto de crise e de tendência geral para uma guerra contra os pobres e os «supérfluos». Não é o capitalismo que está no centro das críticas, mas as próprias pessoas é que são o problema. O capitalismo está tão interiorizado e é considerado tão natural que ele e suas peculiaridades são tão pouco percebidos como a pressão atmosférica (especialmente porque o capitalismo é geralmente visto apenas como uma maquinação sinistra do «1% superior» ou algo semelhante).
Verena Brunschweiger, por exemplo, argumentou nesse sentido no seu livro «Kinderfrei statt Kinderlos» [Livre dos filhos em vez de sem filhos], que causou furor em 2019. [2] Brunschweiger entende-se como feminista e critica com razão a ideologia da maternidade, segundo a qual uma mulher só teria uma vida plena se tivesse filhos, o que supostamente corresponderia à sua natureza. Com isso, ela critica a discriminação contra mulheres sem filhos ou «livres dos filhos». Brunschweiger afirma que está a ocorrer uma reacção antifeminista nas sociedades ocidentais, sobretudo no contexto de uma ofensiva pronatalista por parte de autocratas e da multidão que os apoia. [3]
O que é perverso no livro de Brunschweiger é a associação de um estilo de vida sem filhos à protecção climática: «É um abuso exigir constantemente que as mulheres sem filhos expliquem a sua decisão. Pelo contrário, é necessária uma nova norma social que exija dos pais uma explicação sobre por que acreditam que eles têm o direito de continuar a pôr em risco a vida de todos nós neste planeta» (Brunschweiger 2019, 50). Assim deveríamos renunciar a ter filhos para reduzir as emissões de CO2. Ela baseia-se em vários estudos (cf. Schrader 2019). Ela sugere que o simples número de pessoas é o problema e que acabará por levar à ruína deste planeta. Quanto mais pessoas, mais voos e montanhas de lixo, por assim dizer. Portanto, se reduzirmos a taxa de natalidade, de modo que o número total de pessoas diminua, o planeta poderá recuperar. Renunciar a ter filhos também seria a decisão certa, «pois muito poucos filhos, quando adultos, resolverão o problema do plástico nos oceanos ou acabarão com a distribuição injusta de recursos no nosso planeta» (Brunschweiger 2019, 130) Ela aparentemente exclui a possibilidade de que o espectáculo do consumo moderno possa ser criticado e ultrapassado (ibid., cf. em contrário Greß 2022). Os filhos tornam-se necessariamente tão tacanhos como os pais. Por isso seria melhor que nem tivessem nascido. O antinatalismo serve não apenas para proteger a mulher da prisão patriarcal da família, mas também para salvar o planeta. Quanto mais pessoas existem, mais miséria, mais recursos são consumidos, pior fica a situação da Terra. Consequentemente, ela também se refere ao filósofo antinatalista David Benatar, que argumentou que é moralmente necessário «causar o mínimo de sofrimento possível». Portanto, segundo Benatar, existe «uma obrigação moral [...] de não se reproduzir» (ibid., 37 e 36). Menos pessoas, menos sofrimento. Uma pessoa que não nasce não sofre. É tão simples como isso. Mas há mais: Brunschweiger também se refere a associações misantrópicas como a VHEMT, a «Voluntary Human Extinction Movement» (Movimento Voluntário para a Extinção Humana), cujos adeptos estão convencidos de que a biosfera só teria uma oportunidade de recuperação se o ser humano desaparecesse dela (ibid., 117). Numa entrevista ao «Westfalen-Blatt» (13.3.2019), Brunschweiger afirmou que, embora considere essa posição «demasiado radical», no entanto, continuou Brunschweiger, ela «entende que há pessoas que achariam isso bem. Naturalmente, não seria mau para o resto da biosfera se ela pudesse recuperar um pouco da presença humana e os animais e as plantas pudessem viver um pouco mais em harmonia. Mas se na Alemanha fossemos 38 milhões em vez de 80 milhões, então bastaria um planeta Terra. Mas neste momento precisaríamos de três Terras.» Por outro lado, ela sugere que a destruição do ambiente não depende apenas do número de pessoas; assim, ela menciona que uma criança britânica polui 30 vezes mais o ambiente e desperdiça 30 vezes mais recursos do que uma criança do sub-Saara (Brunschweiger 2019, 112). Ela não aprofunda essa ideia, especialmente porque pressupõe implicitamente que mais prosperidade significa também mais aproximação aos países capitalistas ocidentais, com o correspondente desperdício de recursos e a produção de coisas inúteis e lixo.
Mas se o objectivo fosse uma política populacional progressista, não anti-humana, que não privasse as pessoas da sua mera existência, as circunstâncias sociais teriam de ser levadas em consideração, uma vez que um número elevado de filhos dificilmente é determinado apenas por uma ideologia patriarcal de procriação, mas principalmente por circunstâncias socioeconómicas (além da educação, grau de urbanização, entre outros, cf. Bricker/Ibbitson 2019). Heide Mertens escreve a este respeito: «Não são os contraceptivos adequados, mas sim as circunstâncias sociais em que as mulheres têm filhos que são decisivas para o número de filhos que têm. Não é o número de pessoas que determina o estado do ambiente, nem o nível tecnológico de exploração da natureza, mas sim a forma como as pessoas produzem» (Mertens 1994, 182).
Hoje em dia, porém, normalmente não é o sistema social que está no centro das críticas, mas as pessoas tornadas supérfluas pelo capitalismo e que fogem da destruição ambiental e das guerras é que são vistas como o verdadeiro problema. No que diz respeito ao presente, o «discurso da superpopulação» continua a ser extremamente controverso, «pois, precisamente no actual movimento ecológico, presume-se levianamente que, em primeiro lugar, há ‘demasiadas’ pessoas e, em segundo lugar, que estas estão a destruir a Terra com o seu consumo desenfreado» (Wildcat n.º 104, 21).
Não se trata de modo nenhum de casos isolados ou extremos. «A lista de absurdos reaccionários causados pelas alterações climáticas é longa», como afirma o ecossocialista Daniel Tanuro (Tanuro 2015, 128). Assim, economistas apresentaram propostas sérias sobre «se não se deveria complementar o mercado de direitos de emissão de gases com efeito de estufa com um mercado do ‘direito à procriação’ (!) para controlar os efeitos da demografia nos países em desenvolvimento sobre o clima» (ibid.). Economistas da London School of Economics calculam vidas humanas não nascidas e suas emissões presumíveis de CO2 com o CO2 economizado pelas tecnologias verdes. Assim, esses lacaios ideológicos calcularam que «um gasto de sete dólares por ano em planeamento familiar até 2050 permitiria economizar mais de uma tonelada de CO2. Para alcançar o mesmo resultado com tecnologias verdes, seria necessário investir 32 dólares» (ibid. 130). Dois supostos «especialistas», que em 2003 escreveram um estudo para o Pentágono, alertam para uma «onda de refugiados climáticos» (!) e concluem que países como os EUA e a Austrália «provavelmente construirão fortalezas». Eles escrevem «friamente», como Tanuro relata, «que, 'em torno dessas fortalezas, as mortes causadas pela guerra, mas também pela fome e pelas doenças, reduziriam a população, que então se adaptaria com o tempo à sustentabilidade [do ecossistema]’» (ibid., 127s.). Um discurso misantrópico, que atribui a responsabilidade pelas alterações climáticas à «superpopulação» do «Terceiro Mundo», não passa de «uma exterminação em massa dos pobres, como se fossem lemingues em excesso» (ibid., 128). Discursos reaccionários sobre política populacional também vêm da ONU, da qual se poderia ingenuamente pensar que “estaria acima de qualquer suspeita” (ibid., 128, cf. para mais detalhes com foco na Etiópia: Abeselom 1995). Aliás, a afirmação de que a população continuará sempre a crescer não é de modo nenhum empiricamente sustentável (o que não pode ser aprofundado aqui: cf. Bricker/Ibbitson 2019, Trumann 2024 e Wildcat n.º 104, 20ss.).
Há muito que um «discurso malthusiano» também se inseriu nas fileiras dos ecossocialistas e economistas pós-crescimento. Em parte são defendidas posições extremamente reaccionárias. No espaço de língua alemã, a «tese da superpopulação» é defendida, por exemplo, pelos ecossocialistas Bruno Kern e Saral Sarkar. No seu livro (traduzido e editado por Bruno Kern), Sarkar cita inúmeros conflitos bélicos ou violentos e, com argumentos mais ou menos biológicos, atribui-os à superpopulação (além do nacionalismo e das identidades). Até mesmo o conflito no Médio Oriente (!) teria a superpopulação como causa principal: «No entanto, a maioria dos observadores e comentadores não menciona a causa mais profunda da insolubilidade do conflito, nomeadamente que se trata de uma guerra em torno das taxas de natalidade» (Sarkar 2025, 45, cf. em contrário: Wistrich 1987 e Tarach 2010)!
Kern distancia-se expressamente do malthusianismo «no sentido de uma ‘selecção dos supérfluos’» (Kern 2019, 37). Segundo Kern, a superpopulação deve ser relacionada com a «pegada ecológica respectiva e, medida por esse critério, são precisamente as nações industrializadas ricas que estão ‘superpovoadas’» (ibid.). Com isso, já está dito que a «superpopulação» aqui não tem realmente nada a ver com o mero «número de pessoas», mas muito mais com um modo de vida e de produção destrutivo.
Por outro lado, Kern escreve: «Mais pessoas significam mais infraestruturas de betão e impermeabilização do solo, habitações, hospitais, estradas, fábricas, sistemas de abastecimento de energia em grande escala etc.» (Kern 2024, 111). E: «É trivial: quanto mais pessoas utilizam os recursos, mais escassos eles se tornam» (ibid., 106). Para Kern é consequentemente «indispensável examinar todas as possibilidades de conter o crescimento populacional de forma não repressiva [4]» (Kern 2019, 38).
Kern refere-se ainda a outro aspecto, nomeadamente a finitude da produção agrícola em geral e o facto de a Terra não poder alimentar um número ilimitado de pessoas (nem mesmo numa sociedade livre do capitalismo), especialmente porque a área útil para a agricultura está a diminuir devido à erosão do solo e à desertificação (Peak Soil). As alterações climáticas irão agravar ainda mais esta situação. As projecções que mostram que seria possível alimentar facilmente dez mil milhões de pessoas ou mais «partem de premissas erradas, como o actual uso intensivo da terra para a agricultura, que obviamente não é sustentável». Uma agricultura sustentável seria, segundo Kern, «mais extensa em termos de área e menos produtiva» (Kern 2015, 335).
A esta «argumentação» seria de contrapor: se, por um lado, cada vez mais regiões do mundo se tornarem inabitáveis devido às alterações climáticas, ou seja, forem ecologicamente arruinadas, teremos de nos preparar para movimentos de refugiados e fomes sem precedentes. É fundamental ter em conta que as alterações demográficas têm uma outra escala temporal e, por isso, não faz sentido tentar travar as alterações climáticas através de políticas demográficas: «A demografia é um factor que deve ser levado em consideração, mas não é a causa das alterações climáticas e muito menos uma solução para o desafio de uma redução drástica das emissões, que deve ocorrer em períodos extremamente curtos» (Tanuro 2015, 129, ênfase TM).
Por outro lado, os malthusianos deveriam ser confrontados com a seguinte questão: como garantir a alimentação sem declarar parte da humanidade supérflua ou o mundo superpovoado? O facto de a agricultura ecológica ser, por vezes, menos produtiva não significa necessariamente que haveria menos alimentos disponíveis se, ao mesmo tempo, os hábitos alimentares fossem alterados (menos produtos de origem animal, por exemplo) e o desperdício alimentar, em parte enorme, fosse eliminado. Isso é que merece atenção, e não o discurso sobre superpopulação (o que, por sua vez, não exclui de modo nenhum uma política familiar, educacional e sexual sensata). E se, em algum momento, o planeta estiver realmente tão arruinado que não seja mais possível garantir a alimentação de muitos milhões ou milhares de milhões de pessoas (já que grande parte das terras agrícolas estará devastada ou destruída), e a humanidade não ultrapassar o capitalismo ou o fizer tarde demais? É duvidoso que o resultado fosse diferente se a população mundial fosse menor: aqui, o argumento malthusiano não se aplicaria mais, pois num mundo devastado haveria realmente muito pouco, porque muita terra estaria arruinada, muito pouco teria sido colhido etc. Mesmo assim, seria um erro dizer que havia pessoas demais.
Especialmente mantendo a agricultura como substrato do movimento de valorização do capital, uma redução da população não aliviaria de modo nenhum o planeta (isso é demonstrado, por exemplo, pelas actuais e futuras ondas de racionalização na produção de alimentos: cf. Becker 2025). No chamado discurso da superpopulação, nunca se fala sobre quais são exactamente as razões da fome, especialmente como a fome pode ser explicada no meio da abundância. Robert Kurz escreveu sobre isso: “A barreira social à produção e distribuição de alimentos não é determinada pela falta de produção agrícola em relação ao número de habitantes, mas pela forma económica do moderno sistema de produção de mercadorias. A lógica da rentabilidade empresarial impõe uma restrição irracional dos recursos, que se manifesta de forma particularmente flagrante ao nível elementar da alimentação. Assim, por princípio, as pessoas só têm acesso aos alimentos sob a condição de que a sua força de trabalho possa ser utilizada de forma rentável. Se este critério não puder ser cumprido, porque a produtividade ‘excessiva’ tornou a sua força de trabalho supérflua, elas são submetidas a rações de fome, embora a capacidade de produção de alimentos tenha aumentado. Enquanto que, para todas as sociedades pré-modernas, uma colheita recorde prometia, pelo menos temporariamente, abundância para todos, ela tem de parecer fatal para os cálculos da economia empresarial do agronegócio, porque a ‘oferta excessiva’ pressiona os preços. Por isso, faz parte do funcionamento normal da economia de mercado destruir em massa produtos agrícolas ou descartá-los por desnaturação quando as produções da natureza são excepcionalmente elevadas. A fome torna-se um produto da própria abundância» (Kurz 1999b, ênfase TM).
Tornar o crescimento populacional ou o número de pessoas o problema central negligencia, portanto, a verdadeira razão para a destruição do mundo: um modo de produção irracional, que vê toda a natureza apenas como matéria-prima, que quer incorporar toda a natureza na metamorfose do capital D-M-D' e, ao fazê-lo, ignora completamente a natureza e as suas características necessárias, esforçando-se cada vez mais por transformar a natureza num produto capitalista (o que tende a ser sinónimo da sua destruição). O monstruoso movimento de valorização do capital é que impede uma relação homem-natureza e sociedade-natureza que possa permitir um compromisso de longo prazo ou uma reprodutibilidade de longo prazo, e não um número excessivo de pessoas – mas também não se deve cair no extremo oposto: considerar qualquer «instrumentalização» ou «dominação da natureza» como algo negativo em si mesmo e, afastando-se da tecnologia e da indústria, imaginar uma relação harmoniosa, romântica e kitsch com a natureza.
É importante notar que o recurso, geralmente misantrópico, à chamada superpopulação tem servido repetidamente como desculpa para não se confrontar com a crítica da economia política e do patriarcado, mas sim para reprovar e negar aos pobres (especialmente aos do «Terceiro Mundo») a sua mera existência (cf. Abeselom 1995; cf. também Kayser 1985). Se o capitalismo repele certos grupos ou massas de pessoas, no sentido de que o mercado de trabalho (ou o mercado mundial) não consegue absorvê-los, ou seja, eles não podem vender-se como «força de trabalho» (e, portanto, as suas necessidades não podem ser expressas como procura com poder de compra), então o problema não é visto na submissão das pessoas ao trabalho abstracto nem na destruição da sua subsistência ou privação dela, mas são as próprias pessoas, a sua mera existência, que são transformadas em problema. O decisivo continua a ser acabar com a transformação e destruição capitalistas do mundo. Tornar o número de pessoas como tal o problema central acaba por conduzir a uma atitude reaccionária.
[1] O jornalista indiano Shashi Tharoor registou, durante o domínio colonial britânico, inúmeras catástrofes de fome, cujo número de vítimas foi semelhante ao das vítimas da fome de Estaline ou Mao (cf. Tharoor 2024, 265ss.). É claro que essas catástrofes de fome não tiveram nada a ver com uma suposta superpopulação.
[2] É importante mencionar que o discurso antinatalista é muito mais difundido nos países de língua inglesa do que na Alemanha, pelo que a posição de Brunschweiger não é de modo nenhum uma «opinião exótica»; cf. também Guastella 2025.
[3] Onde extremistas religiosos ou nacionalistas ganham influência, sempre se observou um aumento do terror patriarcal, que se volta repetidamente contra os direitos reprodutivos (cf. Balance 2012), como mostra mais recentemente a transformação autoritária dos EUA por Trump. Por isso o fundamentalismo religioso foi correctamente descrito como um «movimento de protesto patriarcal» (Riesebrodt 1990). No entanto, o núcleo patriarcal do fundamentalismo religioso foi frequentemente minimizado pelos seus críticos, na sua maioria homens (cf. Sauer-Burghard 1992).
[4] Presumo que Kern se refira aqui a medidas eugénicas ou à antiga política do filho único da China.
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